Bruxas ou mártires? Mulheres escravizadas
no século XVIII.
José dos Reis
Santos Filho [1]
Os vestígios do
Dia das Bruxas ainda podem ser vistos. Isso não é estranho. Afinal, estamos
apenas há alguns dias do 31 de outubro. Nossa memória ainda está fresquinha.
Festas, fantasias, “doçura ou travessura”, decorações, nada disso é esquecido
com facilidade. Tampouco é apagado da noite para o dia das mídias virtuais.
É verdade que a origem pagã das
festividades nem sempre é lembrada. Tampouco[UC1] a trajetória de
sua apropriação pela Igreja Católica a partir do século IX. Muito menos o fato
de terem sido, na mesma Idade Média, associadas ao satanismo. Mais: é deixada
de lado a facilidade com que as mulheres – as bruxas, não os homens,
tornaram-se, “naturalmente”, cumplices do demônio. Foi uma alegação facultada
por uma outra, já transformada em antecedente há muito tempo: de acordo com o
relato bíblico, deve-se a uma mulher mancomunada com o demônio ter induzido seu
companheiro ao pecado. Ela, Eva, provocou a punição divina. Foi escalada como responsável pelo primeiro
pecado do primeiro casal. Nas palavras do historiador e teólogo Geraldo Leite
de Moraes, há uma clara opção feita ao “longo da trajetória da Igreja”. A
partir da figura de Eva, a mulher tornou-se representada como um ser portador
de “inferioridade moral”, “responsável pelo pecado, pelo mal do mundo”. Aquela
falta original e alguns outros elementos do imaginário religioso a condenaram.
Para sempre!
Tanto assim que, sem necessidade de muito esforço
intelectual ou, mesmo, investimento doutrinário, mais tarde, as mulheres se
converteram em alvos preferenciais dos tribunais eclesiásticos, principalmente
a partir do século XIV. “Capazes de
magia”, “propensas ao amaldiçoar”, “em luta permanente contra o divino” foram
candidatas – involuntárias -, rapidamente aceitas como responsáveis pela peste
negra e, consequentemente, por dezenas de milhões de mortes provocadas pela
pandemia.
Certo, até então, o território que
hoje conhecemos como Brasil, com sua população autóctone, desconhecia a
existência de tais entidades. As mulheres indígenas mantinham-se, é verdade,
ligadas a atividades
religiosas[UC2] . Ocupavam-se com
rituais e cerimônias que exploravam diferentes aspectos da ligação
homem/natureza e, de forma correlata, possuíam a responsabilidade pela
preservação e transmissão das tradições às futuras gerações. Só tomaram contato
com o demônio, ao que tudo indica, através de seus embaixadores, os colonos
portugueses e os missionários. Era componente do imaginário europeu
ideologicamente mobilizado na pregação que acompanhava o aprisionamento físico
e espiritual dos nativos e nativas sob o nome de catequização. E o que pensavam
os portugueses sobre as mulheres indígenas ficou suficientemente expresso desde
1500 pelas linhas da Carta de Caminha ao Imperador. Em suas palavras, ainda que
pagãs, elas despertavam muita admiração por serem “tão bem-feitas” e
“graciosas”. Mas, como todos os aqui encontrados, “se hão de fazer cristãs”. O
empreendimento subentendia a apropriação de sua alma, de sua sensualidade e,
por suposto, de sua força de trabalho.
Menos de três décadas depois da chegada dos portugueses,
efeito das dificuldades crescentes na submissão dos povos indígenas, começou a
imigração forçada de negros vindos do continente africano. Apesar de em número
significativamente menor que o contingente masculino, as mulheres também
aportaram como escravizadas. Tanto quanto suas irmãs indígenas, também delas
seriam apropriadas a alma, o sexo e a força de trabalho.
Como ficou
claro desde a carta de Caminha, os portugueses não abandonaram no continente
europeu a carga de preconceitos, de imagens pré-elaboradas sobre seus traços
misóginos e racistas. Tampouco deixaram em Portugal a preeminência arbitrária
da fé católica sobre toda e qualquer outra religião. A exemplo de um sem-número
de outras experiências históricas, isso implicou em buscar dominar toda e
qualquer ameaça ao monopólio de suas crenças.
Não tardou
e os vestígios da presença do demônio foram detectados em suas múltiplas e
suspeitas formas. Em suas aparições na Colônia, demonstrou uma vez mais
afinidade eletiva com as mulheres. Teriam sido elas as parceiras
predominantemente escolhidas pelo demo. Como em Portugal e na Europa, elas
atuariam de forma a subverter os valores fundamentais da convivência
sociorreligiosa desejada pela hierarquia política e eclesiástica católica.
A
historiografia sobre a realidade escravocrata brasileira já inventariou um bom
número de casos de mulheres negras submetidas não apenas aos horrores
cotidianos na situação de escravizada, mas também àquela que acompanhou seu
enquadramento na condição de negra e bruxa. Um caso sobressai por sua violência
sem limites. Citado por Laurentino Gomes no segundo volume da obra Escravidão
(pag. 54 e segs.), ele envolve Luiza Soares, uma cativa pertencente a um casal
de mineradores.
Conforme
acusação feita por um casal de proprietários de uma mina, era uma bruxa. Teria
sido responsável por lançar uma maldição nas jazidas pertencentes a eles. Além
de interromper a extração de ouro, foi acusada também de matar seus dois
filhos. O caçula teria sido vítima de um caso extremo de vampirismo noturno por
parte da escravizada. Luiza teria fugido da senzala e “sob a proteção das
sombras”, se infiltrou na casa dos senhores pelo buraco de uma janela “na forma
de uma borboleta”. Lá dentro, “já novamente na sua configuração humana, sugara
o sangue do bebê pela boca e o nariz”. Não teria parado por aí. “Depois do
sepultamento da criança, Luiza a teria desenterrado e usado partes do cadáver
em poções de feitiços. As pernas e os braços, assados num forno da senzala,
foram enterrados na entrada da propriedade. Os intestinos, cozidos, acabaram
misturados à sopa servida à própria dona da casa”.
Até aqui,
a narrativa já dá uma ideia do poder da imaginação macabra a serviço dos donos
do poder de categorizar o outro. Mas os fatos desafiam e ultrapassam qualquer
limite do mal “banal”. Como descrevem os autos de ofício da Santa Inquisição
portuguesa, Luiza foi vítima de “excruciantes suplícios e torturas”. Começou
com a aplicação de uma barra de ferro incandescente para arrancar pedaços de
sua pele “enquanto era submetida ao interrogatório. Como ainda se recusasse a
falar, sua língua foi perfurada com uma agulha. Depois, seus algozes a
amarraram no topo de uma escada portátil e a debruçaram, inteiramente nua,
sobre as chamas de uma fogueira. Em seguida, aplicaram cera derretida em seus
genitais. A órbita de um dos olhos foi extirpada com um graveto de madeira e
parte dos ossos esmigalhada com um torniquete metálico. Por fim. Luiza foi
açoitada até que as costas ficassem em carne viva. Com o corpo todo coberto de
sangue, foi atada a um tronco de árvore e deixada ao relento, sob o sol, a
chuva e o frio da noite, para que os insetos a atacassem e se introduzissem em
suas feridas.” Ao término dessas sessões de suplício, Luiza “confessou”: fizera
um “pacto com o demônio”.
Ao final, relata Laurentino Gomes, Luiza foi libertada,
graças a um processo aberto pela Inquisição e sob responsabilidade da
Metrópole. A pergunta que persiste, no entanto, remete às condições de
possibilidade de acontecimentos como esse. A resposta imediata sugere a relação
de propriedade existente entre senhor e escrava. Luiza, enquanto escravizada é
uma coisa, algo destituído de qualquer marca humana. Seu corpo possui donos e
eles, na condição de proprietários, podem dispor dela como coisa. Isso é ponto
de partida! É uma resposta posta quase que como dedução lógica, mas não parece
ser suficiente. Com
certeza, por exemplo, não se aplicam aqui os mesmos cuidados tidos pelo casal
de mineradores com os utensílios necessários ao funcionamento das atividades
cotidianas nos depósitos auríferos ou na fábrica minerária. [UC3]
É verdade que, para o caso específico, a bibliografia
utilizada não permite aventurar uma hipótese com cara de plausibilidade. Mas
não é de todo louco admitir que, por algum motivo, Luiza, por seu
comportamento, já fosse pessoa que chamasse atenção aos proprietários. Mesmo na condição sub-humana em que se
encontravam – e, certamente, justo por isso -, as mulheres negras, conforme
literatura recente, deram mostra de serem resilientes. Sobreviver em situações
de opressão totalitária com frequência impõe resistência. Nada necessariamente
no formato de luta armada, mas, quem sabe, atalhos e maneiras distintas de
enfrentar o dia a dia.
De qualquer maneira, para ser notada da maneira como foi, Luiza
devia fugir dos parâmetros de obediência cega impostos pelo empreendimento
escravista. E, no contexto, o ser negro agrega um fator diferenciador radical
entre escravocratas e Luiza. Entre eles não há uma relação de propriedade
qualquer. A cor é um estereótipo, funciona como estigma. Certamente acrescenta
ao fator “propriedade” uma força de repúdio significativa. Mas não para por aí.
Como já insinuamos, o ser mulher de Luiza é um componente que acrescenta
inferioridade e carrega consigo o signo do pecado. A mais, devemos considerar o
fato de Luiza expressar crenças de origem africana que a distanciam ainda mais
da representação do ser civilizado, este professando o catolicismo como
documento de identidade.
Enfim, Luiza carrega consigo estigmas
manipulados como marcadores de diferenças em relações sociais de poder muito
concretas. Independentemente de sua vontade, seu corpo expressa significados.
Socio-historicamente construídos, são produtos de heranças que passaram de
gerações a gerações, que ultrapassaram fronteiras temporais e espaciais. O
poder exercido pelo casal os pressupõe. A situação de violência criada por eles
estava autorizada a priori pelo fato de Luiza ser portadora de elementos
de um imaginário socialmente construído em torno de um ser que é mulher, negra,
escravizada e, de origem, “sem religião”. São atributos que expressam
simbolicamente estigmas que depõem como marcas de indivíduos, de etnias, de
coletividades. Mulher, negra, escrava, bruxa, tornaram-se, todas, cargas
simbólicas que depõem contra indivíduos. São conhecidas e estão disponíveis
como estoque de valores sociais. Já supõem legitimidade e autorizam práticas
como as sofridas por Luiza. Em outras palavras: a possibilidade do uso de “excruciantes
suplícios e torturas” no corpo de Luiza só se torna possível porque tais
expressões fornecem a permissão necessária para que a violência seja exercida.
Fazem parte do universo simbólico imaginário, o mesmo que indica quem pode
tirar proveito dessas categorizações e quem pode sofrê-las.
Evitar isso implica em sua subversão através da construção
imaginária de heresias. No sentido em que Berger e Luckmann dão à necessidade
de criação de universos simbólicos hereges, é fundamental ressignificar o
sacrifício a que Luiza foi submetida. Os símbolos que expressam seu sofrimento
quando presa à condição de bruxa, que sejam convertidos em sinais de martírio. Denotam tormentos vividos por uma heroína. No
rigor, Luiza foi alguém que resistiu ao máximo de suas forças contra uma condição
que não a tinha como alvo único. Através de seu corpo, o corpo de todas as
mulheres afrodescendentes escravizadas.
[UC1]considere trocar
por sequer, pois tampouco foi usada no parágrafo anterior.
[UC2]Ultimamente ando
lidando com indígenas e percebo que chamam suas práticas de
"medicinas". Para o texto é melhor deixar atividades religiosas, o
leitor não tem como saber, mas fica a dica para pesquisas.
[UC3]Aqui você quis
comparar Luiza aos objetos dos mineradores, mas mostrando que não é bem assim?
Acho que essa parte pode ser mais explorada porque demonstra
que entender a pessoa como posse à época, não é algo tão inocente assim, mas
conscientemente cruel.
Nenhum comentário:
Postar um comentário