segunda-feira, 7 de outubro de 2024

 Carta (imaginária) de Lula a Eduardo Leite:

 

Brasília, 06 de maio de 2024

 

Prezado governador:

 

Inicialmente, quero manifestar, através de sua pessoa, meu pesar por todo o sofrimento por que passa uma parcela tão grande da população gaúcha. Quero oferecer também toda solidariedade pessoal a esse povo possuidor de tanta história, de tantas tradições. Quero dizer ainda que tenho orgulho dessa gente que, ao sul de nosso país, é capaz de demonstrar tanta coragem e determinação, mesmo em momentos de tragédias como a que assistimos.

Em segundo lugar, como já foi lembrado desde o ano passado, é mister indagar o porquê da falta de iniciativas do governo estadual em relação a tragédias conhecidas, experimentadas e anunciadas. Não foram previsões feitas por ciganas, em feiras, com o uso de bola de cristal. Foram os resultados de intensos, sistemáticos e rigorosos trabalhos científicos os que chegaram às suas mãos. Graves o suficiente para reclamar por medidas de prevenção que, pelo menos, minimizassem a ação de uma natureza criminosamente maltratada por nossos conterrâneos.

Não é possível que, de 2023 para cá, o senhor não tenha procurado uma interlocução com nosso governo federal. Não consigo entender o porquê de não ter sido capaz de articular emendas com os parlamentares de seu estado, de forma a capitalizar apoio para a questão ambiental gaúcha. Pior, apesar de ser impossível um governante ignorar o papel da Defesa Civil em catástrofes como as vividas pelo Rio Grande do Sul, não é verossímil e tampouco humanitariamente sustentável, que tenha reservado à instituição, míseros 50.000 reais. Com esse retrospecto, tudo tinha que dar errado, muito errado. O senhor protagonizou uma que acentuou a tragédia que assistimos.

Mas não foram suficientes essas omissões, esses erros. O senhor tem o dom, uma vocação para o pior. Nisso, o senhor só compete consigo mesmo. Com centenas de atingidos pelas chuvas, com mortes diárias entre seus concidadãos, com casas, utensílios, produção agrícola, enfim, vidas e bens desaparecendo nas correntezas, com cidades desaparecendo da noite para o dia, o senhor como criança mimada querendo chamar atenção de papai e mamãe, resolve provocar a figura do presidente da República, usando as mídias sociais como o fazem os autores de fake News, os pornógrafos e ativistas do ex-presidente. Ao invés de recorrer ao presidente da República por meio dos canais protocolares - como o fazem aqueles que representam a expressão governamental máxima de um ente federativo, usou canais de mídias da internet. Com isso, o senhor não pretendia interpelar-me. Não lhe importava um caracol se o recado chegasse a mim ou não. Seu interesse foi jogar para a plateia. Conseguiu! Mas o publicou não gostou. “Politicagem com cadáveres arrastados pelas águas”? No Brasil de hoje, não são todos os que fecham os olhos e pactuam com esse tipo de procedimento.

É óbvio que me importo com sua conduta. Acredite: provoca-me repulsa. Mas governo um país e, para além de minhas reservas frente a seu comportamento, é o povo riograndense que está em situação de risco. A ele devo obrigações. Por ele assumi deveres. Frente a ele devo o cumprimento de compromissos.

Desde o primeiro momento as Forças Armadas dispuseram de efetivos. Desde o primeiro momento afirmei claramente que não faltariam recursos para resgatar a dignidade dos gaúchos, para colaborar com a reconstrução de suas vidas. Não vou listar ponto a ponto os meios, os objetivos e os valores que empenharemos. Estão em todos os meios de comunicação. O senhor verá que nossa forma de encarar a tarefa à nossa frente não é circunstancial. Ela compreende uma visão estratégica, um compromisso com o resgate das famílias, é certo, situando-as em um futuro de prosperidade. Não é à toa que, para criar agilidade nas ações e resolução da totalidade dos obstáculos, fui ao Rio Grande do Sul em uma segunda visita de trabalho, trazendo não apenas autoridades vinculadas ao Executivo, mas também ao Judiciário e ao Legislativo. Os três poderes da República atuando de forma a garantir que nossos concidadãos riograndenses do sul superem a crise da forma mais célere possível.

Como vê, senhor governador, não faltará vontade, não faltarão meios. Mas a forma como o senhor provocou esse envolvimento trouxe efeitos secundários que, certamente, não foram previstos pelo senhor. De fato, o senhor, com suas atitudes, obrigou minha presença ativa e efetiva em seu estado. E isso é ruim, imagino, para o senhor. A julgar por comentários e análises, sua figura tornou-se secundária. Vive atualmente sob minha sombra. Em menos de uma semana, estive na região com um papel protagonista. As pessoas vieram até mim. Contive lágrimas quando uma senhora, logo após nossa aterrisagem, abraçou-me chorando, pedindo ajuda. Os prefeitos tornaram-me imediatamente interlocutor de suas demandas. Os órgãos de imprensa queriam saber de mim, o que pensávamos e como agiríamos frente à calamidade.

Considerada sua incapacidade no antecipar e planejar ações de redução de danos, coube, aos olhos da sociedade civil, recorrer à presidência da República para conhecimento de ações e projetos. E isso tornou-se natural graças à sua omissão. É algo que se aprofunda naturalmente. Criamos uma sala de situação do governo federal. Dali, com relativa independência do governo do estado, poderemos mobilizar, articular, empreender e assumir a responsabilidade de inúmeras iniciativas que dependam de Brasília. Já pensou, governador? Seus erros, sua falta de sensibilidade, seu atraso emocional, seu cálculo político canhestro, responsáveis pela “intervenção federal” em seu estado?

Minha postura agora abriga dois cuidados. O primeiro é funcional: não posso permitir que as máquinas institucionais parem para respirar. O conjunto de agentes e instituições não podem se permitir falhar neste momento tão trágico, com tantas vidas em jogo. O segundo é pessoal e o que tenho de narcísico em minha personalidade. Com certa tranquilidade posso tornar-me o responsável pela reconstrução do estado. A sala de situação do governo federal pode ser ampliada, ganhar contornos menos temporários, abrigar pessoal e meios adequados a tal fim. O Novo Rio Grande do Sul exigiria minha presença mais frequente no estado. Não mais interagindo com os oito, novo prefeitos da região, mas com o conjunto das autoridades dos mais de cem municípios afetados. O papel de Juscelino do Século XXI não é atraente? Certamente que sim.

Mas não é para mim. Essa possibilidade é mencionada apenas para que o senhor tenha noção do porquê Zeus proibiu Pandora de abri a caixa que lhe dera. Ao atuar como se estivesse em um parquinho de areia, o senhor deixou de evitar mortes, acentuou perdas inestimáveis, trouxe o estado para uma situação de calamidade. E, no terreno político, provocou uma intervenção de fato, em seus domínios.

Viva com isso.

Renovando nosso compromisso inabalável com o povo gaúcho,

 

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