Carta (imaginária) de Lula a Eduardo Leite:
Brasília, 06 de maio de 2024
Prezado
governador:
Inicialmente,
quero manifestar, através de sua pessoa, meu pesar por todo o sofrimento por
que passa uma parcela tão grande da população gaúcha. Quero oferecer também
toda solidariedade pessoal a esse povo possuidor de tanta história, de tantas
tradições. Quero dizer ainda que tenho orgulho dessa gente que, ao sul de nosso
país, é capaz de demonstrar tanta coragem e determinação, mesmo em momentos de
tragédias como a que assistimos.
Em
segundo lugar, como já foi lembrado desde o ano passado, é mister indagar o
porquê da falta de iniciativas do governo estadual em relação a tragédias
conhecidas, experimentadas e anunciadas. Não foram previsões feitas por
ciganas, em feiras, com o uso de bola de cristal. Foram os resultados de
intensos, sistemáticos e rigorosos trabalhos científicos os que chegaram às
suas mãos. Graves o suficiente para reclamar por medidas de prevenção que, pelo
menos, minimizassem a ação de uma natureza criminosamente maltratada por nossos
conterrâneos.
Não
é possível que, de 2023 para cá, o senhor não tenha procurado uma interlocução
com nosso governo federal. Não consigo entender o porquê de não ter sido capaz
de articular emendas com os parlamentares de seu estado, de forma a capitalizar
apoio para a questão ambiental gaúcha. Pior, apesar de ser impossível um
governante ignorar o papel da Defesa Civil em catástrofes como as vividas pelo
Rio Grande do Sul, não é verossímil e tampouco humanitariamente sustentável,
que tenha reservado à instituição, míseros 50.000 reais. Com esse retrospecto,
tudo tinha que dar errado, muito errado. O senhor protagonizou uma que acentuou
a tragédia que assistimos.
Mas
não foram suficientes essas omissões, esses erros. O senhor tem o dom, uma
vocação para o pior. Nisso, o senhor só compete consigo mesmo. Com centenas de
atingidos pelas chuvas, com mortes diárias entre seus concidadãos, com casas,
utensílios, produção agrícola, enfim, vidas e bens desaparecendo nas
correntezas, com cidades desaparecendo da noite para o dia, o senhor como
criança mimada querendo chamar atenção de papai e mamãe, resolve provocar a
figura do presidente da República, usando as mídias sociais como o fazem os
autores de fake News, os pornógrafos e ativistas do ex-presidente. Ao invés de
recorrer ao presidente da República por meio dos canais protocolares - como o
fazem aqueles que representam a expressão governamental máxima de um ente federativo,
usou canais de mídias da internet. Com isso, o senhor não pretendia
interpelar-me. Não lhe importava um caracol se o recado chegasse a mim ou não.
Seu interesse foi jogar para a plateia. Conseguiu! Mas o publicou não gostou.
“Politicagem com cadáveres arrastados pelas águas”? No Brasil de hoje, não são
todos os que fecham os olhos e pactuam com esse tipo de procedimento.
É
óbvio que me importo com sua conduta. Acredite: provoca-me repulsa. Mas governo
um país e, para além de minhas reservas frente a seu comportamento, é o povo
riograndense que está em situação de risco. A ele devo obrigações. Por ele
assumi deveres. Frente a ele devo o cumprimento de compromissos.
Desde
o primeiro momento as Forças Armadas dispuseram de efetivos. Desde o primeiro
momento afirmei claramente que não faltariam recursos para resgatar a dignidade
dos gaúchos, para colaborar com a reconstrução de suas vidas. Não vou listar
ponto a ponto os meios, os objetivos e os valores que empenharemos. Estão em
todos os meios de comunicação. O senhor verá que nossa forma de encarar a
tarefa à nossa frente não é circunstancial. Ela compreende uma visão
estratégica, um compromisso com o resgate das famílias, é certo, situando-as em
um futuro de prosperidade. Não é à toa que, para criar agilidade nas ações e
resolução da totalidade dos obstáculos, fui ao Rio Grande do Sul em uma segunda
visita de trabalho, trazendo não apenas autoridades vinculadas ao Executivo,
mas também ao Judiciário e ao Legislativo. Os três poderes da República atuando
de forma a garantir que nossos concidadãos riograndenses do sul superem a crise
da forma mais célere possível.
Como vê, senhor
governador, não faltará vontade, não faltarão meios. Mas a forma como o senhor
provocou esse envolvimento trouxe efeitos secundários que, certamente, não
foram previstos pelo senhor. De fato, o senhor, com suas atitudes, obrigou
minha presença ativa e efetiva em seu estado. E isso é ruim, imagino, para o
senhor. A julgar por comentários e análises, sua figura tornou-se secundária.
Vive atualmente sob minha sombra. Em menos de uma semana, estive na região com
um papel protagonista. As pessoas vieram até mim. Contive lágrimas quando uma
senhora, logo após nossa aterrisagem, abraçou-me chorando, pedindo ajuda. Os
prefeitos tornaram-me imediatamente interlocutor de suas demandas. Os órgãos de
imprensa queriam saber de mim, o que pensávamos e como agiríamos frente à
calamidade.
Considerada sua
incapacidade no antecipar e planejar ações de redução de danos, coube, aos
olhos da sociedade civil, recorrer à presidência da República para conhecimento
de ações e projetos. E isso tornou-se natural graças à sua omissão. É algo que
se aprofunda naturalmente. Criamos uma sala de situação do governo federal.
Dali, com relativa independência do governo do estado, poderemos mobilizar,
articular, empreender e assumir a responsabilidade de inúmeras iniciativas que
dependam de Brasília. Já pensou, governador? Seus erros, sua falta de
sensibilidade, seu atraso emocional, seu cálculo político canhestro,
responsáveis pela “intervenção federal” em seu estado?
Minha postura agora abriga
dois cuidados. O primeiro é funcional: não posso permitir que as máquinas
institucionais parem para respirar. O conjunto de agentes e instituições não
podem se permitir falhar neste momento tão trágico, com tantas vidas em jogo. O
segundo é pessoal e o que tenho de narcísico em minha personalidade. Com certa
tranquilidade posso tornar-me o responsável pela reconstrução do estado. A sala
de situação do governo federal pode ser ampliada, ganhar contornos menos
temporários, abrigar pessoal e meios adequados a tal fim. O Novo Rio Grande
do Sul exigiria minha presença mais frequente no estado. Não mais
interagindo com os oito, novo prefeitos da região, mas com o conjunto das
autoridades dos mais de cem municípios afetados. O papel de Juscelino do
Século XXI não é atraente? Certamente que sim.
Mas
não é para mim. Essa possibilidade é mencionada apenas para que o senhor tenha
noção do porquê Zeus proibiu Pandora de abri a caixa que lhe dera. Ao atuar
como se estivesse em um parquinho de areia, o senhor deixou de evitar mortes,
acentuou perdas inestimáveis, trouxe o estado para uma situação de calamidade.
E, no terreno político, provocou uma intervenção de fato, em seus
domínios.
Viva
com isso.
Renovando
nosso compromisso inabalável com o povo gaúcho,