sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Na encruzilhada de um debate ideológico, o racismo nosso de cada dia.







José dos Reis Santos Filho


A questão da desigualdade e da discriminação racial permanece viva entre nós.  Não bastasse o que pode ser visto em nossa realidade cotidiana, o vinte de novembro obrigou um momento de atenção e reflexão. Nos fez lembrar, por exemplo, que são relativamente recentes no município órgãos públicos capazes de formulação e realização de políticas públicas adequadas à garantia dos direitos de homens, mulheres e crianças negras. O Conselho Municipal de Combate à Discriminação e ao Racismo, o Centro de Referência Afro – “Mestre Jorge” e a Lei do Quesito Cor/Raça são iniciativas adolescentes em nossa paisagem. E isso vale também para o Dia da Consciência Negra e dos Orixás. Sua instituição, aliás, não aconteceu sem percalços.
Quando o projeto foi apresentado à Câmara Municipal e à opinião pública há doze anos, o debate foi acirrado. Representantes do comércio resistiram a “mais um” feriado. Segmentos religiosos, ainda que com certa timidez, desestimularam a homenagem aos Orixás e, não poucos, certamente sequer reconheciam a necessidade de lembrar a escravidão e suas sequelas.
A iniciativa, corrigindo um atraso histórico na cidade, acompanhou uma corrente dos movimentos sociais que ganhou visibilidade quando, em 1971, no Rio Grande do Sul, o Grupo Palmares utilizou a data da morte de Zumbi - 20 de novembro de 1695, como “marco simbólico da luta coletiva da população negra no Brasil”. Foi um esforço que tomou feições mais acabadas com o surgimento e a sedimentação do Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial. Em 1978, em Congresso que reuniu representantes de todo o país, a figura de Zumbi foi definida como “símbolo da luta e resistência dos negros no Brasil”. As reverberações produzidas pelo evento foram expressivas. É verdade que somente em 2011 a então presidenta Dilma Rousseff sancionou a Lei Nº 12.519 instituindo oficialmente o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. Em 2019, são mais de 1.200 municípios que, como Araraquara, transformaram o vinte de novembro em data que busca manter viva uma memória de resistência e luta pela liberdade. Um momento do ano que obriga a lembrar a existência de suor e sangue escravo na construção do país.
            No rigor, entretanto, parece impor-se a necessidade de uma releitura dos acontecimentos que não menospreze sua importância simbólica efetiva. Um esforço que permita dimensionar historicamente Palmares e Zumbi e, ao mesmo tempo, permanecer simbolizando-os como passagens fundamentais da luta pelos direitos em um país como o Brasil. Mas esse é apenas um aspecto do debate atual.
De fato, a julgar pela pequena síntese veiculada em matéria assinada por Fábio Zanini na Folha de São Paulo do último dia 19 de novembro, esse trabalho de (re) simbolização inclui um investimento que desconstrua a oposição ao 20 de novembro. No repertório de críticas à comemoração, pudemos listar alguns argumentos publicamente exaltados:  1) Zumbi é uma figura discutível, sobre o qual “se sabe muito pouco” ainda que seja “visto como um personagem violento” e, portanto, “não merece o título de herói nacional”; 2) Zumbi e o quilombo são figuras que “alimentam a tensão racial”. Não rompem com a “espiral do racismo, e do racialismo brasileiro”; 3) Zumbi não é o melhor personagem para “representar a cultura antirracista” e “defender a recuperação da cultura genuinamente afro. Em seu lugar protagonista poderiam ser colocados José Bonifácio, D. Pedro II, a princesa Isabel e Luís Gama, todos simpáticos à causa da libertação.
            São pontos que insinuam de forma gritante as dificuldades de uma discussão pautada pelas antinomias de um discurso ideológico que não reconhece as contradições que o alimentam. Assim, Zumbi é figura “desconhecida”, mas sabe-se ou, pelo menos imagina-se, que tenha sido “violento”; Zumbi, que expressa a existência do racismo e de sua violência inerente, “alimenta a tensão racial”; Zumbi, africano natural, acusado de manter as tradições de seu povo de origem, representaria menos “a defesa da recuperação da cultura genuinamente afro” que, por exemplo, membros da família real. Enfim, com o risco da redundância, cada um dos fundamentos que sustentam essas opiniões possui a mesma solidez que areia movediça. Se Zumbi é figura “desconhecida”, como afirmar seu caráter violento? A “tensão racial” existiria sem as situações de violência estruturalmente entranhadas em nossa realidade? Se a resposta é não, Zumbi e todos os mártires não são responsáveis por sua origem.
É verdade que, hoje, tanto a história de Zumbi como a do Quilombo dos Palmares estão descritas com maior precisão que há quarenta, cinquenta anos. Historiadores como José Murilo de Carvalho, Flávio dos Santos e Décio Freitas já sinalizaram revisões importantes de percepções idealizadas de um e outro. Como resume Cláudio Fernandes, “Palmares foi um reduto poderoso de negros africanos que não apenas negociavam, quando conseguiam, trocas econômicas com os senhores de engenho, como também possuíam em seus domínios escravos negros”. Do ponto de vista da história, por questões de sobrevivência, mas também por reproduzir em âmbito local relações sociais e políticas às quais estavam ligados por ancestralidade, Palmares não chegou a ser a realização utópica de um reino da liberdade.
Há, no entanto, fatos que permanecem incontestados. Palmares era espaço de abrigo para escravos que fugiam do cotidiano de opressão e exploração a que estavam submetidos. Da mesma forma, não obstante tornarem a inserir-se em relações de sociabilidade marcadas por um passado ancestral, o refúgio significava, por isso mesmo, tempo e espaço de (re)afirmação de identidades.  Mais que isso, seu tamanho e importâncias social, econômica e política ameaçavam prática ou virtualmente tanto o poder dos proprietários como a “ordem” político-administrativa. Eram 27.000 km² de territórios que fugiam a seus domínios.
Permanece incontestado, ainda, que a violência foi o caminho empregado para o extermínio da resistência.  Incapaz de lidar com a situação, João da Cunha Souto Maior, então governador de Pernambuco, lança mão do bandeirante paulista Domingos Jorge Velho que, auxiliado por outros particulares e por forças do estado, destruiu a experiência quilombola que começara em 1597.
Séculos após a erradicação de Palmares, a violência permanece padrão de conduta. Trezentos e vinte quatro anos após o assassinato de Zumbi, justo no dia da Consciência Negra, o professor Juarez Xavier da Unesp, em Bauru, SP, em pleno centro urbano, foi xingado de macaco e, ao reagir à ofensa, foi esfaqueado. O que o acontecimento demonstra uma vez mais? Que a liberdade da pessoa negra de ir e vir permanece ameaçada; que a honra e a dignidade são faces desvalorizadas nas relações dos brancos frente aos negros; que agressões de todos os tipos são cotidianas e previsíveis quando se trata comportamentos que têm como pano de fundo a “tensão racial”; que a legislação existente contra o racismo de toda espécie ainda não é componente interiorizado em nossa socialização.
Enfim, em um contexto social e político marcado pela negação sistemática dos direitos, ocorre a alguém, sério, a lembrança de figuras da monarquia que para simbolizarem a luta desse professor e de milhares de outras pessoas que convivem com a discriminação em suas realidades do dia-a-dia? O movimento negro e os defensores dos direitos universais de homens e mulheres já afastaram essa possibilidade e construíram social e politicamente Zumbi como aquele melhor representa essa luta. É uma discussão que, em condições realmente democráticas, não passaria, por anacrônica.
O Dia da Consciência Negra já é uma realidade instituída para o município e todo o país. Para o presente e o futuro, a questão deixou de ser se um outro “herói” ou uma outra data deveriam substituir o que já possuímos. Nossas esferas da realidade cotidiana, todas elas apontam para o muito de substantivo a ser conquistado. Parafraseando o prof. Juarez Xavier, temos que alcançar o dia em que todos saberemos que “macaco é macaco, banana é banana”. Até lá, a tarefa é resistir, inclusive contra um debate ideológico que busca esvaziar o que há de significativo no Dia de Zumbi e da Consciência Negra.