Fragmentos
em torno de uma volta à barbárie jamais superada.
Fragmento 3: 05 de maio de 2019.
“E o Queiroz?” Com a pergunta, Gregório
Duvivier, o humorista, respondeu a uma mensagem postada por Sergio Moro, o
ministro. À primeira vista, os papéis pareciam trocados. A interpelação feita
por Duvivier seria típica de uma autoridade que indaga a seus subordinados
sobre o andamento de uma ação que apure as responsabilidades sobre um suspeito
de crime. Moro intuiu isso ao chamar Duvivier de “suposto comediante”.
As observações de Moro, ao contrário,
parecem tiradas dos filmes de Ed Murphy, daquelas situações em que o trapaceiro
tergiversa sobre as questões que estão verdadeiramente em jogo. Aparentemente,
reagiu contra afirmações feitas por Duvivier no último dia sete de abril.
Nelas, o “suposto comediante” teria chamado Moro de “juizeco” que “fala fino
com a milícia e os Estados Unidos”.
A julgar pelo senso comum expresso nas
linhas da internet, “juizeco” é expressão que, aplicada a juízes, busca
“diminuir sua importância” sinalizando “que não sabe o que faz, nem toma
decisões corretas frente à lei”. Levada a sério, a definição abarca dois
conteúdos. Isolados, é possível afirmar que Duvivier errou e, por isso, ofendeu
e, acertou e, por isso não ofendeu. De outra forma: agride quando diz que Moro
“não sabe o que faz” e é coerente com a realidade quando supõe que o atual
ministro “não toma decisões corretas frente à lei”.
(São conclusões a cada dia mais
consensuais. Não por acaso a Associação Americana de Juristas caracterizou Lula
como “preso político”).
Pode parecer paradoxal, mas faz todo
sentido. No rigor, como o “suposto comediante” não estava preocupado com
análises sociolinguísticas, deixou de ver a ligação entre um e outro conteúdo.
Mas Moro certamente tem consciência de que para fazer o que pretendia fazer,
precisava tomar decisões que afrontam a lei. E provavelmente só se sentiu
ofendido porque a imagem que possui de si mesmo é aquela que o aproxima dos
deuses que inspiraram Maquiavel, jamais a de um juiz qualquer.
Aliás, a certeza sobre seu papel e a
desfaçatez com que o assume é tão grande que torna explícitos objetivos e
enredo. Como sugere em uma das mensagens, a derrota de Lula era imprescindível.
Em seu lugar, “a vitória eleitoral de Jair Bolsonaro” era o desejável, o
necessário. Tudo pelo combate ao “programa da oposição “democrática””. Peça
que, segundo Moro suporia o “”controle social” da mídia e do Judiciário”.
Enfim, permanecem as questões levantadas por Duvivier: “e as milícias?”. E
o Queiroz? Está aberta a temporada para o uso de outro neologismo? MINISTRECO?
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