domingo, 12 de maio de 2019


Fragmentos em torno de uma volta à barbárie jamais superada.
Fragmento 2: 30 de abril de 2019.

Ontem, provavelmente depois de tomar o café da manhã, Bolsonaro, o pai, nos informou que acompanhava “com bastante atenção” a situação na Venezuela. Não mencionou suas fontes. Mas sabemos que suas informações não chegam pelo Jornal Nacional. Delas se encarregou o ministro brasileiro de relações exteriores em suas visita ao secretário de Estado americano e a seu compatriota responsável pela segurança nacional dos EUA. De fato, longe de o país formular uma política responsável para a América Latina e, sobretudo para nossa fronteira venezuelana, o atual governo se submete pura e simplesmente aos interesses do “irmão do norte”. Em tempos de ajuste de cintos na área econômica, para essa tarefa não precisamos de chanceleres e de corpo diplomático. Bastam-nos os estafetas.
            Os sinais demonstram que o atual governo abandonou qualquer vestígio de uma política externa que alimente a expectativa em torno de interesses e valores que sejam próprios a um projeto de nação autônoma, marcada pela autoestima. Em mensagem postada em uma de suas redes sociais, Bolsonaro troca as bolas ao explicitar seu suporte às tentativas de Guaidó. No papel de presidente, esteve e está longe de apoiar o “povo da Venezuela”. Se estivesse, não chamaria o que ocorre no país vizinho de “transição democrática” e tampouco estimularia a violência. Proporia, ao invés, um curso intensivo de cidadania e, com seus ministros, estudaria os documentos mais importantes de governança internacional e nossa própria Constituição.
            Quem sabe se, minimamente alfabetizado, passaria a reconhecer que a vassalagem aos interesses geopolíticos americanos não apenas denigrem a incipiente imagem externa que duramente conquistamos nos últimos trinta anos, mas ferem princípios civilizatórios fundamentais que incorporamos à nossa incipiente maioridade.
Em consonância com a Carta das Nações Unidas, a postura brasileira deveria ser a de arbitrar com vistas à manutenção da paz e da segurança internacionais. Contribuir para a neutralização negociada de atos de violência que ameaçam a vida de homens, mulheres e crianças no país vizinho. Impedir de forma efetiva a intervenção estrangeira nos negócios internos do povo venezuelano. Um papel digno de nossa vocação continental seria o de chegar, por meios pacíficos e em conformidade com os princípios da justiça e do direito internacional, a um ajuste ou solução das controvérsias políticas cada dia mais radicais.
            Enquanto não fizer isso, Bolsonaro estará negando explicitamente não apenas o direito internacional, mas partes fundamentais de nossa Constituição de 88. Estará, nos fatos, rasgando conteúdos significativos dos objetivos fundamentais de nossa República. Jogando com a lógica do arbítrio, nega nosso passado recente e compromete uma vez mais nossas gerações futuras.

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