Fragmentos
em torno de uma volta à barbárie jamais superada.
Fragmento 2: 30 de abril de 2019.
Ontem, provavelmente
depois de tomar o café da manhã, Bolsonaro, o pai, nos informou que acompanhava
“com bastante atenção” a situação na Venezuela. Não mencionou suas fontes. Mas
sabemos que suas informações não chegam pelo Jornal Nacional. Delas se
encarregou o ministro brasileiro de relações exteriores em suas visita ao
secretário de Estado americano e a seu compatriota responsável pela segurança
nacional dos EUA. De fato, longe de o país formular uma política responsável
para a América Latina e, sobretudo para nossa fronteira venezuelana, o atual
governo se submete pura e simplesmente aos interesses do “irmão do norte”. Em
tempos de ajuste de cintos na área econômica, para essa tarefa não precisamos
de chanceleres e de corpo diplomático. Bastam-nos os estafetas.
Os sinais demonstram que o atual governo abandonou
qualquer vestígio de uma política externa que alimente a expectativa em torno
de interesses e valores que sejam próprios a um projeto de nação autônoma,
marcada pela autoestima. Em mensagem postada em uma de suas redes sociais,
Bolsonaro troca as bolas ao explicitar seu suporte às tentativas de Guaidó. No
papel de presidente, esteve e está longe de apoiar o “povo da Venezuela”. Se
estivesse, não chamaria o que ocorre no país vizinho de “transição democrática”
e tampouco estimularia a violência. Proporia, ao invés, um curso intensivo de
cidadania e, com seus ministros, estudaria os documentos mais importantes de
governança internacional e nossa própria Constituição.
Quem sabe se, minimamente alfabetizado, passaria a
reconhecer que a vassalagem aos interesses geopolíticos americanos não apenas
denigrem a incipiente imagem externa que duramente conquistamos nos últimos trinta
anos, mas ferem princípios civilizatórios fundamentais que incorporamos à nossa
incipiente maioridade.
Em consonância com a
Carta das Nações Unidas, a postura brasileira deveria ser a de arbitrar com
vistas à manutenção da paz e da segurança internacionais. Contribuir para a
neutralização negociada de atos de violência que ameaçam a vida de homens,
mulheres e crianças no país vizinho. Impedir de forma efetiva a intervenção
estrangeira nos negócios internos do povo venezuelano. Um papel digno de nossa
vocação continental seria o de chegar, por meios pacíficos e em conformidade
com os princípios da justiça e do direito internacional, a um ajuste ou solução
das controvérsias políticas cada dia mais radicais.
Enquanto
não fizer isso, Bolsonaro estará negando explicitamente não apenas o direito
internacional, mas partes fundamentais de nossa Constituição de 88. Estará, nos
fatos, rasgando conteúdos significativos dos objetivos fundamentais de nossa
República. Jogando com a lógica do arbítrio, nega nosso passado recente e
compromete uma vez mais nossas gerações futuras.
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