sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Foi a mando de Deus



José dos Reis Santos Filho



Pode ter sido. Afinal, ninguém consegue, fora do divã de um psicanalista, decifrar o que passa pela cabeça de um criminoso. Mas, se o mandato é divino, o ato, sua materialidade e seu sentido estão inscritos no mundo dos homens. No rigor, no mundo dos brasileiros. E, como tal, possui um contexto.
Estamos lidando com um quadro em que a violência tornou-se parte de uma linguagem assimilada como natural:
i) Contra os povos indígenas e a população negra, foi meio de conquista e dominação em nosso processo de desenvolvimento nacional;
ii) No âmbito doméstico, transformou em vítimas costumeiras crianças, mulheres e idosos;
iii) Como testemunha a população LGBT, na negação da diversidade, deu lugar à intolerância e à agressão;
iv) Nas ruas, já foi assimilada como constitutiva do cotidiano de milhares e milhares de pessoas;
v) Na exposição e resolução de conflitos, foi introduzida como meio há mais tempo que gostaríamos de admitir;
vi) Na esfera da política, os exemplos históricos possuem cores diversas e receberam marcas decisivas no período da ditadura militar. No período recente, ainda nos lembramos do assassinato de Marielle Franco;
Os exemplos são inúmeros e deles não escapam sequer as esferas da realidade médica e hospitalar, quanto mais as das instituições de administração dos poderes de polícia e da justiça.
São situações que alcançam toda capilaridade da sociedade brasileira e, não bastasse sua presença, convivemos ainda com o fato da parcialidade, da negligência e da imperícia do Estado frente à barbárie do dia-a-dia. Mais que isso, crescemos interiorizando falas que justificam os atos de violência, sempre por motivos nobres. Os índios e os negros são “não humanos”, as mulheres são resultado de “uma costela do primeiro homem”, “não se leva desaforo pra casa”. Repertório de um caleidoscópio cujas peças formam um discurso de negação e opressão, de eliminação do outro.
Quando as caravanas de Lula são recebidas e dispersas à bala, o fato em si e a impunidade que o acompanha não são novidades em nossa história. Posseiros, rendeiros, pequenos proprietários e índios passam por isso de forma rotineira.
Há, no entanto, alguma coisa que parece nova e cuja vigência ocorre mais enfaticamente a partir do momento em que as lutas políticas se acirraram nos últimos anos. De fato, assistimos à construção e à sedimentação de um discurso apologético da selvageria nossa de cada dia.
Aquilo que para muitos pode parecer “loucura”, “insensatez” e, mesmo “jogada de marketing”, é vociferado por Bolsonaro como promessas de campanha. Líder das pesquisas desde que Lula foi banido do cenário eleitoral, o candidato possui uma trajetória que atesta credibilidade ao que diz. Ela é pautada por atitudes e palavras que ignoram não apenas os preceitos constitucionais, mas tornam bagatela princípios básicos do processo civilizatório.
Se a história já mostrou que a negação do processo civilizatório só leva à barbárie, a barbaridade do atentado que sofreu “a mando de Deus” é uma prova adicional da tragédia política resultado da incitação ao ódio. Lamentamos e repudiamos o ato. Que ele sirva a todos nós como sinal de atenção que clama por uma reflexão sobre os destinos do país.
Somos céticos sobre a possibilidade de um Bolsonaro amadurecido após sua recuperação. O crime sofrido, muito provavelmente será usado como jogada de marketing. A nós, eleitores, portanto, uma pergunta: esse é o cotidiano que desejamos ver persistir em nosso país? O voto é nosso momento.