sábado, 2 de maio de 2015

(Im) permeabilidade à diferença política na grande mídia



José dos Reis Santos Filho


Um certo cansaço do já vivido obriga um esforço maior no ligar os motores para acompanhar a campanha eleitoral. Entre outras coisas, muito se deve à forma como a mídia trata de forma desigual e preconceituosa os candidatos à presidência, por exemplo. Mas as dificuldades atuais podem ser superadas em pelo menos dois níveis.
No primeiro, está cada vez mais difícil, com o papel assumido pelas redes sociais, impedir a circulação de informações sobre cada um dos candidatos. À parte das manifestações de ódio presentes em tiroteios proferidos de todas as posições contra todas posições, algo que o processo civilizatório ainda levará gerações para esgotar, as denúncias nivelam em um jogo de soma zero as preferências do “mercado” e, certamente, de seus agentes sociais e políticos. Assim, um vídeo horroroso, algo que estimula a vergonha pela vergonha que o outro está passando, nos diz que, ao criticar corretamente Lula e sua adesão à bebida alcóolica, a mídia não pode esconder os hábitos de outros candidatos. Ao ser exposto na mídia eletrônica visivelmente bêbado, dando entrevistas, tanto quanto no caso de Lula, a grande imprensa não poderia ser omissa frente a Aécio. Mas é!
Um segundo nível de exercício democrático mutilado é a forma como as páginas dos jornais, revistas e telejornais criam um sistema de dois pesos e duas medidas na veiculação das campanhas eleitorais. As pré-definições estão feitas. O resto fica a cargo dos editores e dos mancheteiros. Não por acaso, Jânio de Freitas, em sua coluna de hoje, dia 19 de agosto, denuncia “a carga de noticiário e comentarismo obcecadamente oposicionistas”. E chama atenção para o fato de, apesar disso, Dilma estar conseguindo furar esse bloqueio e manter-se como candidata possível.
Na época da campanha polarizada entre Serra e Dilma, eu advertia para o fato de que, apesar do desejo de todos os amigos do PSDB, Dilma não é um poste. E provou isso, agora, uma vez mais na entrevista do Jornal Nacional. Ali, conforme um articulista da Folha, “a principal vantagem de Dilma” foi “pelo comportamento”. A pergunta de Ricardo Mendonça é simplesmente fundamental: “O que vale mais: um presidente que tenta parecer simpático ou um que demonstra saber usar a autoridade?” Conclusão: se Dilma já havia ganhado no terreno “tático”, ao impor-se, admitindo inclusive que o governo petista não resolveu, por exemplo, o problema da saúde, “aí, Dilma ganhou na estratégia”.
A quase certa entrada de Marina na corrida eleitoral fortalecerá o expediente que busca corrigir o exercício democrático mutilado implantado pelas grandes empresas de comunicação. Ela traz consigo uma experiência inegável de utilização das redes sociais e ela, também, exercerá seus direitos de expressão nos debates e programas que ainda estão pela frente. Ganharemos todos.


Publicado originalmente em Reis Santos Filho, Facebook, 19 de agosto de 2014.

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