José dos Reis Santos Filho
Certamente, nem um nem outro. Não pode ser chamado de “anão diplomático” um país que, nos últimos poucos anos, emplacou brasileiros na direção da Organização Mundial de Comércio e na Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação; que organizou, com sucesso, uma reunião com chefes de Estado de cinco países para criar mecanismos de articulação conjunta de alternativas de desenvolvimento; que recebeu, em apenas algumas semanas, algumas dezenas de governantes internacionais. A lista não é pequena, diga-se de passagem, para azar dos que não lêem jornais ou prendem-se a percepções ideológicas em que o maniqueísmo é pauta de ação.
Não pode ser tampouco, considerado um gigante na luta pelos direitos humanos porque sua diplomacia nunca esteve, desde a existência formal da Carta dos Direitos Universais – dos anos quarenta do século passado, lembremos, firmemente engajado na luta das atrocidades cotidianas em todas as partes do mundo. Fica a dever, portanto, a todos os que nos definimos pelo respeito à dignidade humana. E, apesar de não poder ser identificado como um gigante na luta pelos direitos humanos se posicionou contra a blitzkrieg protagonizada pelas forças armadas de Israel.
{não é por acaso que uso o termo alemão identificado com as incursões dos exércitos alemães durante a segunda guerra; guardados os contextos históricos, as estratégias israelenses seguem, no rigor, a frase usada por Hitler bem documentada pelo historiador alemão Joachim Fest (Hitler, Gallimard, 1973, II, p. 127): “azar àquele que é fraco”.}
E posicionou-se de forma calculada, certamente tímida. Reivindicou a proporcionalidade na resposta aos adeptos do Hamas. Implicitamente o recado dizia: como reconhecemos o direito do povo israelense a um estado, tudo bem enfrentar os atos de agressão contra Israel. Mas cuidado com os civis, com as crianças que estão morrendo às dezenas, vítimas das bombas israelenses.
A resposta da chancelaria israelense? O Brasil é um “anão diplomático”, “um parceiro diplomático irrelevante”. {Está na página digital da Folha, desde ontem. Está também na primeira página da Folha escrita. Está lá, sem a resposta do Ministro de Relações Exteriores brasileiro, como a nos dizer que sim, é isso, Dilma não deve se meter com Israel. Curiosamente, comportamento diferente da edição do Estadão, que dá lugar, em manchete, à reação do governo brasileiro.}
Mas o que chama mais atenção é que a resposta da diplomacia israelense foi dada no mesmo dia em quinze crianças foram mortas por bombas americanas disparadas por foguetes com a bandeira de Israel. Bombas que atingiram uma escola mantida pelas Nações Unidas.
O governo brasileiro tinha e tem razão (se nossa referência é o direito internacional, se nossa preocupação é com os princípios estabelecidos em nossa Constituição), em exigir o estancamento dos crimes de guerra perpetrados por Israel. {Se um deputado como Roberto Freire pensa o contrário, não importa um caracol. Ele só mostra o que já sabemos. Ou seja, estão longe do futuro aqueles que transformam o clamor pelo exercício dos direitos humanos em motivo de oposição raivosa ao governo.}
A essa altura já está claro o que está em jogo na blitzkrieg israelense. Como sintetizou hoje na Folha o jornalista americano Michael Kepp, o “conflito foi causado, em grande parte, pela tentativa de Israel de enfraquecer um acordo de reconciliação feito em abril entre o Hamas, que governa Gaza, e o Fatah, que administra parte da Cisjordânia, e que resultou, em junho, em um governo de união.”
Razões de estado? Certamente. Prática de genocídio? Não tenho dúvidas.
E, acreditando nisso como fato, a questão é saber como podem estar vivendo aqueles que, reconhecidamente judeus, assistem, impotentes, a morte psicológica, social, política e física de homens, mulheres e crianças palestinas. Coragem, antes de mais nada. Afirmar-se contra o genocídio, qualquer genocídio e identificar-se como judia exige não apenas uma compreensão de sua história, mas muita coragem. No horizonte daqueles que estão, são e usam o poder como fundamentalistas não há brechas para uma mirada à história. Esquecem-se do significado de serem vítimas da barbárie. Esquecem-se, hoje, por viverem o racismo como valor e perfil emocional, que são filhos, netos e bisnetos de vítimas de um etnocentrismo homicida. Esquecem-se que, em algum momento doBishop Secularo XVIII, alguém estipulou como imperativo ético que deve-se agir como se a máxima da ação devesse tornar-se, através da vontade de quem a pratica, uma lei universal. Esquecimentos que, na vida, custam sangue.
Não pode ser tampouco, considerado um gigante na luta pelos direitos humanos porque sua diplomacia nunca esteve, desde a existência formal da Carta dos Direitos Universais – dos anos quarenta do século passado, lembremos, firmemente engajado na luta das atrocidades cotidianas em todas as partes do mundo. Fica a dever, portanto, a todos os que nos definimos pelo respeito à dignidade humana. E, apesar de não poder ser identificado como um gigante na luta pelos direitos humanos se posicionou contra a blitzkrieg protagonizada pelas forças armadas de Israel.
{não é por acaso que uso o termo alemão identificado com as incursões dos exércitos alemães durante a segunda guerra; guardados os contextos históricos, as estratégias israelenses seguem, no rigor, a frase usada por Hitler bem documentada pelo historiador alemão Joachim Fest (Hitler, Gallimard, 1973, II, p. 127): “azar àquele que é fraco”.}
E posicionou-se de forma calculada, certamente tímida. Reivindicou a proporcionalidade na resposta aos adeptos do Hamas. Implicitamente o recado dizia: como reconhecemos o direito do povo israelense a um estado, tudo bem enfrentar os atos de agressão contra Israel. Mas cuidado com os civis, com as crianças que estão morrendo às dezenas, vítimas das bombas israelenses.
A resposta da chancelaria israelense? O Brasil é um “anão diplomático”, “um parceiro diplomático irrelevante”. {Está na página digital da Folha, desde ontem. Está também na primeira página da Folha escrita. Está lá, sem a resposta do Ministro de Relações Exteriores brasileiro, como a nos dizer que sim, é isso, Dilma não deve se meter com Israel. Curiosamente, comportamento diferente da edição do Estadão, que dá lugar, em manchete, à reação do governo brasileiro.}
Mas o que chama mais atenção é que a resposta da diplomacia israelense foi dada no mesmo dia em quinze crianças foram mortas por bombas americanas disparadas por foguetes com a bandeira de Israel. Bombas que atingiram uma escola mantida pelas Nações Unidas.
O governo brasileiro tinha e tem razão (se nossa referência é o direito internacional, se nossa preocupação é com os princípios estabelecidos em nossa Constituição), em exigir o estancamento dos crimes de guerra perpetrados por Israel. {Se um deputado como Roberto Freire pensa o contrário, não importa um caracol. Ele só mostra o que já sabemos. Ou seja, estão longe do futuro aqueles que transformam o clamor pelo exercício dos direitos humanos em motivo de oposição raivosa ao governo.}
A essa altura já está claro o que está em jogo na blitzkrieg israelense. Como sintetizou hoje na Folha o jornalista americano Michael Kepp, o “conflito foi causado, em grande parte, pela tentativa de Israel de enfraquecer um acordo de reconciliação feito em abril entre o Hamas, que governa Gaza, e o Fatah, que administra parte da Cisjordânia, e que resultou, em junho, em um governo de união.”
Razões de estado? Certamente. Prática de genocídio? Não tenho dúvidas.
E, acreditando nisso como fato, a questão é saber como podem estar vivendo aqueles que, reconhecidamente judeus, assistem, impotentes, a morte psicológica, social, política e física de homens, mulheres e crianças palestinas. Coragem, antes de mais nada. Afirmar-se contra o genocídio, qualquer genocídio e identificar-se como judia exige não apenas uma compreensão de sua história, mas muita coragem. No horizonte daqueles que estão, são e usam o poder como fundamentalistas não há brechas para uma mirada à história. Esquecem-se do significado de serem vítimas da barbárie. Esquecem-se, hoje, por viverem o racismo como valor e perfil emocional, que são filhos, netos e bisnetos de vítimas de um etnocentrismo homicida. Esquecem-se que, em algum momento doBishop Secularo XVIII, alguém estipulou como imperativo ético que deve-se agir como se a máxima da ação devesse tornar-se, através da vontade de quem a pratica, uma lei universal. Esquecimentos que, na vida, custam sangue.
Publicado originalmente em Reis Santos Filho, Facebook, 25 de junho de 2014.
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