sábado, 2 de maio de 2015

Anão diplomático? Ou gigante na luta pelos direito humanos?


José dos Reis Santos Filho
Certamente, nem um nem outro. Não pode ser chamado de “anão diplomático” um país que, nos últimos poucos anos, emplacou brasileiros na direção da Organização Mundial de Comércio e na Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação; que organizou, com sucesso, uma reunião com chefes de Estado de cinco países para criar mecanismos de articulação conjunta de alternativas de desenvolvimento; que recebeu, em apenas algumas semanas, algumas dezenas de governantes internacionais. A lista não é pequena, diga-se de passagem, para azar dos que não lêem jornais ou prendem-se a percepções ideológicas em que o maniqueísmo é pauta de ação.
Não pode ser tampouco, considerado um gigante na luta pelos direitos humanos porque sua diplomacia nunca esteve, desde a existência formal da Carta dos Direitos Universais – dos anos quarenta do século passado, lembremos, firmemente engajado na luta das atrocidades cotidianas em todas as partes do mundo. Fica a dever, portanto, a todos os que nos definimos pelo respeito à dignidade humana. E, apesar de não poder ser identificado como um gigante na luta pelos direitos humanos se posicionou contra a blitzkrieg protagonizada pelas forças armadas de Israel.
{não é por acaso que uso o termo alemão identificado com as incursões dos exércitos alemães durante a segunda guerra; guardados os contextos históricos, as estratégias israelenses seguem, no rigor, a frase usada por Hitler bem documentada pelo historiador alemão Joachim Fest (Hitler, Gallimard, 1973, II, p. 127): “azar àquele que é fraco”.}
E posicionou-se de forma calculada, certamente tímida. Reivindicou a proporcionalidade na resposta aos adeptos do Hamas. Implicitamente o recado dizia: como reconhecemos o direito do povo israelense a um estado, tudo bem enfrentar os atos de agressão contra Israel. Mas cuidado com os civis, com as crianças que estão morrendo às dezenas, vítimas das bombas israelenses.
A resposta da chancelaria israelense? O Brasil é um “anão diplomático”, “um parceiro diplomático irrelevante”. {Está na página digital da Folha, desde ontem. Está também na primeira página da Folha escrita. Está lá, sem a resposta do Ministro de Relações Exteriores brasileiro, como a nos dizer que sim, é isso, Dilma não deve se meter com Israel. Curiosamente, comportamento diferente da edição do Estadão, que dá lugar, em manchete, à reação do governo brasileiro.}
Mas o que chama mais atenção é que a resposta da diplomacia israelense foi dada no mesmo dia em quinze crianças foram mortas por bombas americanas disparadas por foguetes com a bandeira de Israel. Bombas que atingiram uma escola mantida pelas Nações Unidas.
O governo brasileiro tinha e tem razão (se nossa referência é o direito internacional, se nossa preocupação é com os princípios estabelecidos em nossa Constituição), em exigir o estancamento dos crimes de guerra perpetrados por Israel. {Se um deputado como Roberto Freire pensa o contrário, não importa um caracol. Ele só mostra o que já sabemos. Ou seja, estão longe do futuro aqueles que transformam o clamor pelo exercício dos direitos humanos em motivo de oposição raivosa ao governo.}
A essa altura já está claro o que está em jogo na blitzkrieg israelense. Como sintetizou hoje na Folha o jornalista americano Michael Kepp, o “conflito foi causado, em grande parte, pela tentativa de Israel de enfraquecer um acordo de reconciliação feito em abril entre o Hamas, que governa Gaza, e o Fatah, que administra parte da Cisjordânia, e que resultou, em junho, em um governo de união.”
Razões de estado? Certamente. Prática de genocídio? Não tenho dúvidas.
E, acreditando nisso como fato, a questão é saber como podem estar vivendo aqueles que, reconhecidamente judeus, assistem, impotentes, a morte psicológica, social, política e física de homens, mulheres e crianças palestinas. Coragem, antes de mais nada. Afirmar-se contra o genocídio, qualquer genocídio e identificar-se como judia exige não apenas uma compreensão de sua história, mas muita coragem. No horizonte daqueles que estão, são e usam o poder como fundamentalistas não há brechas para uma mirada à história. Esquecem-se do significado de serem vítimas da barbárie. Esquecem-se, hoje, por viverem o racismo como valor e perfil emocional, que são filhos, netos e bisnetos de vítimas de um etnocentrismo homicida. Esquecem-se que, em algum momento doBishop Secularo XVIII, alguém estipulou como imperativo ético que deve-se agir como se a máxima da ação devesse tornar-se, através da vontade de quem a pratica, uma lei universal. Esquecimentos que, na vida, custam sangue.

Publicado originalmente em Reis Santos Filho, Facebook, 25 de junho de 2014.

(Im) permeabilidade à diferença política na grande mídia



José dos Reis Santos Filho


Um certo cansaço do já vivido obriga um esforço maior no ligar os motores para acompanhar a campanha eleitoral. Entre outras coisas, muito se deve à forma como a mídia trata de forma desigual e preconceituosa os candidatos à presidência, por exemplo. Mas as dificuldades atuais podem ser superadas em pelo menos dois níveis.
No primeiro, está cada vez mais difícil, com o papel assumido pelas redes sociais, impedir a circulação de informações sobre cada um dos candidatos. À parte das manifestações de ódio presentes em tiroteios proferidos de todas as posições contra todas posições, algo que o processo civilizatório ainda levará gerações para esgotar, as denúncias nivelam em um jogo de soma zero as preferências do “mercado” e, certamente, de seus agentes sociais e políticos. Assim, um vídeo horroroso, algo que estimula a vergonha pela vergonha que o outro está passando, nos diz que, ao criticar corretamente Lula e sua adesão à bebida alcóolica, a mídia não pode esconder os hábitos de outros candidatos. Ao ser exposto na mídia eletrônica visivelmente bêbado, dando entrevistas, tanto quanto no caso de Lula, a grande imprensa não poderia ser omissa frente a Aécio. Mas é!
Um segundo nível de exercício democrático mutilado é a forma como as páginas dos jornais, revistas e telejornais criam um sistema de dois pesos e duas medidas na veiculação das campanhas eleitorais. As pré-definições estão feitas. O resto fica a cargo dos editores e dos mancheteiros. Não por acaso, Jânio de Freitas, em sua coluna de hoje, dia 19 de agosto, denuncia “a carga de noticiário e comentarismo obcecadamente oposicionistas”. E chama atenção para o fato de, apesar disso, Dilma estar conseguindo furar esse bloqueio e manter-se como candidata possível.
Na época da campanha polarizada entre Serra e Dilma, eu advertia para o fato de que, apesar do desejo de todos os amigos do PSDB, Dilma não é um poste. E provou isso, agora, uma vez mais na entrevista do Jornal Nacional. Ali, conforme um articulista da Folha, “a principal vantagem de Dilma” foi “pelo comportamento”. A pergunta de Ricardo Mendonça é simplesmente fundamental: “O que vale mais: um presidente que tenta parecer simpático ou um que demonstra saber usar a autoridade?” Conclusão: se Dilma já havia ganhado no terreno “tático”, ao impor-se, admitindo inclusive que o governo petista não resolveu, por exemplo, o problema da saúde, “aí, Dilma ganhou na estratégia”.
A quase certa entrada de Marina na corrida eleitoral fortalecerá o expediente que busca corrigir o exercício democrático mutilado implantado pelas grandes empresas de comunicação. Ela traz consigo uma experiência inegável de utilização das redes sociais e ela, também, exercerá seus direitos de expressão nos debates e programas que ainda estão pela frente. Ganharemos todos.


Publicado originalmente em Reis Santos Filho, Facebook, 19 de agosto de 2014.

Chauvinismo territorial diminui janelas de oportunidades eleitorais




José dos Reis Santos Filho


Para a edição de sábado, dia 06 de setembro de 2014, respondi à Tribuna Impressa uma pergunta sobre um movimento recém surgido em Araraquara em defesa do voto exclusivo em candidatos da própria cidade. Estranhei a pergunta. Na verdade, estranhei o propósito do movimento. Em plena era da comunicação, da compreensão sobre o alargamento das fronteiras locais e, sobretudo, do acesso às diferenças, como sugerir algo daquela natureza? Em princípio, parece interessante, algo como fechemo-nos em torno dos interesses da cidade. Ocorre que o eleitor pode ter um voto destinado a candidato que defenda propostas determinadas, claramente identificadas com suas demandas. Pode também apreciar a trajetória de lutas de um candidato que não é, necessariamente o do município. Pode enfim, não concordar com a história e/ou as plataformas dos candidatos locais.
Mas, é curioso também que se reivindique do eleitor algo que os próprios candidatos locais não cumprirão. São vários os exemplos de políticos que começaram suas campanhas associados a outros, de outros municípios. As conhecidas dobradinhas. E isso parece ser geral. Não há uma dose de ingenuidade na proposta? Ou será que há algo mais que não consegui atingir? De qualquer forma, a liberdade política, tal como assegurada pela Constituição, não tem fronteiras. O que temos que reivindicar, sempre, é o voto consciente. E isso já é muito.

Acabar com a cidadania das pessoas assistidas para serem cidadãs


José dos Reis Santos Filho


Pode parecer paradoxal e, com certeza é. Não é proposta nova e circula a boca pequena, entre aqueles que ainda não aprenderam que a participação política é inclusiva. A novidade talvez esteja no fato de uma associação empresarial chamar para si a responsabilidade da defesa da exclusão do processo eleitoral de milhões de pessoas em todo o Brasil. Foi o que fez a Associação Industrial, Comercial e Empresarial de Ponta Grossa, Paraná. Reivindica nada mais, nada menos que a suspensão de direito ao voto para beneficiados de qualquer programa de transferência direta de renda, nas esferas municipal, estadual e federal.
Conforme veiculado neste último dia 12 por Sebastião Natálio, colaborador da Folha, o presidente da entidade defende a medida porque programas como a Bolsa Família, por exemplo, criariam “um vínculo entre quem concede o benefício e quem recebe. O que se pretende com essa discussão é eliminar este fator”.
Grande bobagem, como as pesquisas de opinião têm cansado de expressar. Se fosse verdade, cerca de 40% dos beneficiários da Bolsa Família não estariam fechados com a oposição. A verdade, a julgar pelas pesquisas, caminha no sentido de conquistas substantivas no terreno da cidadania. É uma das conclusões de um livro recente lançado pela Editora Unesp. Os autores, Walquiria Leão Rego e Alessandro Pizzani concordam em dizer que o programa mudou a vida “nos rincões mais pobres do país: o tradicional coronelismo perde força e a arraigada cultura da resignação está sendo abalada”.
Talvez seja esse o quadro que explica a posição de uma Associação Empresarial no rincão do Paraná. Na subversão do voto cabresto, na erradicação dos laços de dependência sócio-econômica do pobre frente aos que possuem os postos de trabalho e sobrevivência, elimine-se de vez o voto. Se não der certo, que os pobres sejam de vez eliminados.

Publicado originalmente em Reis Santos Filho, Facebook, 14 de setembro de 2014.

Homofobia e Campanha Eleitoral. Viva Eduardo Jorge, Luciana Genro e Tiririca



José dos Reis Santos Filho


Certo, dificilmente o período eleitoral é momento oportuno para debates sobre os grandes temas nacionais. É uma verdade estatística. Ocorre que, aqui e ali, de quando em quando, normalmente por provocação, algo surge e ganha repercussão viral. O exemplo recente surge de questionamento direto feito por Luciana Genro (PSOL) a um senhor que, graças à nosso modelo de exercício da democracia, pode jogar-nos na cara que é candidato à presidência.
É evidente que o preconceito transita em nossa sociedade das mais variadas formas. É verdade também que é alimentado por um conteúdo de ignorância que é próprio do senso comum. É verdade ainda que, em não poucos casos, sua reprodução interessa como garantia de sobrevicência a seitas que dele dependem para a manutenção de uma coesão básica entre seus membros. Em qualquer caso, alimenta o discurso de candidatos que, na ausência de trajetórias de vida consistentes, sem reflexões sobre a realidade e sem propostas, não podem senão mostrar quão vazias são suas almas.
É o caso desse senhor, Levy Fidelix. Sua proposta mais conhecida é antiga e se resume à implantação de um trem-bala ligando Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro. Essa foi sua marca. Mas, na TV Record, em debate entre presidenciáveis, revelou-se como um homofóbico de baixo calão. Daqueles que não precisam lançar mão da bíblia para sustentar a falta de sentido, de tino e de desconhecimento da cidadania. Entre aspas, vejam o primor de sua declaração: “aparelho excretor não reproduz”. Os que têm “esses problemas”, que “sejam atendidos no plano psicológico e afetivo”. Mas, isso, “bem longe da gente, bem longe mesmo porque aqui não dá”.
É óbvio que a política é lugar da diversidade, da opinião e do direito à expressão. Mas, aqui entre nós, por mais que o controle remoto satisfaça nosso movimento de repúdio, ele não é tão rápido a ponto de evitar que nossos ouvidos sejam transformados em lata de lixo. E tudo pago por meu dinheiro, por nosso dinheiro, permitam-me corrigir rapidamente.
Alento, de qualquer maneira! Pelo menos um candidato e uma candidata têm enfrentado questões como esssa de forma digna e esclarecida. Luciana Genro, certamente. E Eduardo Jorge, ainda que nem sempre acompanhado do conjunto de membros de seu partido. Alento ainda porque, com em uma luta de guerrilha, de onde menos se espera, surge Tiririca criticando abertamente o posicionamento de Levy. Nada melhor, portanto, fechar este desabafo com uma citação sua: “triste em saber q sou do mesmo país d quem tem ódio quando fala dos gay.. já dizia mamonas assassinas abra sua mente gay também é gente!!!!”.

Publicado originalmente em Reis Santos Filho, Facebook, 25 de setembro de 2014.

De Deus, de Juízes e de Delírios Partilhados


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José dos Reis Santos Filho


Estamos perdendo uma grande oportunidade para um debate sobre a existência de Deus e suas eventuais manifestações terrenas. Quem criou a oportunidade para a discussão foi uma fiscal de trânsito carioca. Ao responder a um “sabe com quem está falando?” de um juiz que dirigia em condições irregulares, a agente de trânsito afirma com toda sua certeza que sim, ele é juiz, mas não é Deus. 
O primeiro grupo de perguntas que emerge remete à sua certeza? Porque cargas d’água supôs isso? Conhecia Deus e não O reconheceu na figura do juiz? Não O conhecia, mas sabendo de Sua retidão, jamais O imaginaria ao volante, sem os documentos do carro e a licença para trafegar? Nunca O vira na vida, mas estava certa de que, se estivesse a passeio na terra, jamais o faria naquele carrão? Tudo isso junto e algumas coisas mais?
Mas e se o fato fosse abordado por outro ângulo? Por exemplo: e se o juiz agisse realmente como se fosse Deus? Poderia ser um maníaco fugido de uma remanescente instituição manicomial. Cansado de seus colegas de internato, sobretudo daquele idiota do Napoleão, fez uma ligação direta e saiu por aí com sua identidade assumida: era Deus. Mas poderia ser também, alguém recém saído de uma das apresentações do Zé Celso Martinez e, ainda investido de seu personagem, comporta-se como Deus. Enfim, poderia ter finalmente, embriagado por seu próprio papel social, assumido definitivamente que, por decidir diariamente sobre a vida dos outros, era, de fato Deus.
É provável que, nesse caso, a manifestação terrena de Deus não passasse desse simulacro em que uma pessoa – com nome próprio e status, ainda que sem documentos que o habilitem à direção - perde de vista o princípio de realidade e se coloca acima de tudo e de todos, encorpando uma distinção que o torna único. Delírio? Talvez. Mas o delírio não é, aqui, uma marca que se encerra no próprio indivíduo que o vive e manifesta. Ele é partilhado! Ao negar a deidade do juiz, a agente de trânsito é obrigada a sentir o peso do poder do juiz que se faz e se sente Deus. Do alto de sua autoridade, de imediato ele castiga. E há surubins que o atendem. Para isso lá estavam policiais militares que procedem ao cumprimento daquilo que ordena a Voz e “conduzem” a agente à delegacia. Ali, uma vez mais a prova do compartilhamento do delírio: o delegado a autua. Prova cabal e final de um delírio que é coletivo: um juiz, um par, na verdade, com anuência de um promotor age de acordo com a Voz e a condena. Afinal, ele também se insinua como Deus e só pode provar solidariedade. A obediência não é outra coisa senão cumplicidade e expectativa de comportamento semelhante.
Enfim, o delírio se alimenta de elos de subserviência e interesses. Espalha-se com adeptos e perpetuadores do culto. Infiltra-se em mentes e vontades. E a questão que enfrenta hoje a agente de trânsito é como romper com esse círculo. Uma tarefa, aliás, que não é só dela. É nossa.

Postado originalmente em minha página do Facebook, em 14 de novembro de 2014.