José dos Reis Santos Filho ²
Olhado por
qualquer ângulo, o linchamento de uma mulher ocorrido em Guarujá é trágico e lamentável. Em primeiro lugar, sua
origem: um boato sobre a existência de uma mulher responsável por rituais de
magia negra. Depois, um grito que atiça a fúria coletiva: “é ela mesma, tem que
matar”. Além disso, as formas como o ódio é imediatamente canalizado:
xingamentos e a busca de pedaços de madeira como instrumentos de agressão.
Finalmente, uma marca adicional de crueldade: uma bicicleta passa sobre a
cabeça da vítima, já machucada e desmaiada.
Qualquer desses
atos obriga e abriga perguntas. O que faz com que alguém produza boatos,
sobretudo esses que põem vidas em risco? Que mecanismos levam as pessoas à
passagem da crença à certeza? Que sentimentos, que emoções quebram todos os
bloqueios da censura e da percepção sobre comportamentos que a razão sabe serem
errados? O que torna possível um ato que provoca sofrimento ser exercido como
se fora uma diversão? Como entender, afinal, o
linchamento de uma mulher em uma cidade cuja Secretaria de Turismo a descreve
como possuindo um povo com “espírito de hospitalidade insuperável e que só
pensa em uma coisa: deixar a cidade cada dia mais feliz”?
São
perguntas complexas. É verdade que o
especialista especulará sobre as formas como as multidões podem ser mobilizadas
e direcionadas para atos que, sozinhos, não seriam capazes de assumir. Poderá
dizer também que a sensação de poder desfrutada no momento em que alguém faz
chegar a uma rede social uma mensagem que o transforma em figura pública é
ímpar e não depende de seu discernimento ético. Afirmará que a quebra de
barreiras conscientes é freqüente, principalmente em populações ainda pouco
afeitas a uma tradição de deveres e direitos. Dirá também que o ser humano é
uma figura recente nas relações cotidianas em nosso país. Começou, de fato e de
direito a aparecer há pouco mais de vinte e cinco anos, depois de séculos de
desprezo por ela. Lembrará inclusive que as imagens que alimentam nossa
história incluem o pelourinho, os linchamentos e a exposição pública dos corpos
marcados pela tortura. E dirá que comportamentos dessa natureza podem fazer
parte de um inconsciente sempre possível de ser acordado. Principalmente quando
os exemplos daqueles que deveriam dar exemplos fortalecem um imaginário social
repleto de experiências dessa natureza.
¹ Publicado originalmente em O Estadão Noite, Sexta-feira, 09
de Maio de 2014.
² UNESP/FCL/CAr. Departamento de Sociologia. Núcleo de
Estudos sobre Planejamento e Gestão Urbano-ambiental. NEDUA.
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