por José dos Reis Santos Filho
É notícia nos jornais de hoje, sábado, dia 14 de julho, que a exposição de trabalhos do pintor italiano Modigliani no MASP tem obra suspeita de ser falsa. Conforme Gabriela Longman e Matheus Magenta, autores da reportagem veiculada pela Folha de São Paulo, o quadro Grande Figura Nua Deitada teve sua autenticidade questionada ao ser exposta na Alemanha. Desgraçadamente, a pintura é tão boa que, para muitos, poderia ser realmente de Modigliani.
Não bastasse a gravidade do caso, trata-se de uma matéria que insinua, de imediato, sinais dos tempos atuais. Traz à memória as observações de Humberto Eco sobre certos museus americanos que prometem cópias melhores que as matrizes originais. No limite, supõe-se que, se os artistas do Século XIX, por exemplo, pintassem com os recursos tecnológicos existentes hoje, suas obras pareceriam com as cópias que agora podem ser feitas de suas criações. Não por acaso falamos da realidade da irrealidade.
E se puxássemos essa discussão para o cenário político nacional e observássemos, por exemplo, a figura do senador Demóstenes? Qual a cópia, qual o original? Demóstenes pregador da moralidade no serviço público, Demóstenes quadrilheiro sob a batuta do maestro Cachoeira? Aqui, a dificuldade é diferente daquela ofertada por uma obra eventualmente falsa de Modigliani. Neste segundo caso, há obras originais às quais a fictícia pode ser comparada. No primeiro, a julgar pelos fatos divulgados, o original escondia-se, envolto por um simulacro. A tal ponto, que a irrealidade não se apresentava como possibilidade da realidade. Era a negação da própria realidade. De outra forma: aquilo que se apresentava como realidade era a irrealidade em sua essência. O moralista no teatro da política não era senão o cúmplice de atos corretamente enquadráveis como crime. A dissimulação, no caso, tornou-se arte necessária de ocultação da realidade. E, se isso é verdade, difícil constatar, como fez Eco, a pretensão de tornar a irrealidade mais perfeita que a realidade.
Foto de Demóstenes Torres: Fábio Rodrigues Pozzebon/ABr.
4 comentários:
A irrealidade é um traço marcante de algo que é ou está desajustado, que não atingiu a maturidade, ao mesmo tempo, marca também espíritos ávidos por mudanças, sejam elas de qual tipo forem.
Se a maturidade e o equilíbrio têm a ver com a realidade, então, nossos tempos são irreais, pois se utilizamos da irrealidade para criarmos uma realidade, estamos amalgamando distinções, confundindo conceitos, obstruindo diretrizes, fazendo assim com que alguma realidade de fato deixe de existir, isto é, tirando dela o norte para o qual sempre apontou.
Já se o desajuste tem a ver com o desequilíbrio, e ambos com a irrealidade, então a síntese entre alguma outra realidade e a irrealidade de nossos tempos marca a reconfiguração de uma nova realidade. Velhos tempos não cabem dentro de novos tempos, sempre faltará ou sobrará espaço e o desajuste torna-se necessário para percebemos a necessidade de (re) ajustamento.
Valeriodutos, os tentáculos do Cachoeira, são sinais destes tempos em que o nosso carcomido sistema político não consegue dar conta de operar a realidade e precisa do irreal para poder lidar com ela. O cidadão norte-americano no 11 de setembro, não conseguiu lidar com a realidade de sua vulnerabilidade, velada pela idéia irreal da inviolabilidade do território dos Estados Unidos, e correu para o cinema para assistir filmes de fantasia como Harry Potter e O Senhor dos Anéis, justamente para atender a necessidade que temos do irreal em nossos tempos.
O que o caso Cachoeira e O Senhor dos Anéis, por exemplo, tem em comum, portanto, é que ambos são exemplos desta irrealidade que tornou-se o óleo da complexa máquina política de nossas vidas, sem o qual as já carcomidas engrenagens emperram e desmoronam. A grande questão é: O que perdermos se elas desmoronarem vale o esforço de mantê-las?
Elias, meu caro: obrigado! É bom saber que as notas iniciais deram lugar a uma reflexão com tamanha consistência e originalidade. Estou partilhando seu texto com amigos próximos.. Um abraço, Reis
Gostei imenso do texto, muito bem escrito e uma demonstração clara de boa articulação temática.
Vim aqui dizer isso e deparo-me com um comentário tão bom e enriquecedor que nada mais tenho a dizer. ;-)
Um abração
Marlene
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