sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Um desfecho anunciado


 



José dos Reis Santos Filho


Difícil deixar de acreditar que o nome das circunstâncias que envolvem a morte de Gaddafi é assassinato. Há evidências gritantes de captura (rendição?) e, em seguida, morte. Como convém em casos como esse. Algo que não alimente a fúria de simpatizantes ou a preservação de arquivos. Suspeito o suficiente para que o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos peça uma investigação sobre o ocorrido. Mas essa não seria uma daquelas farsas em que a retórica em cores de civilização busca encobrir a hipocrisia dos atos de força? Talvez não! Afinal, a história dessa agência das Nações Unidas registra alguns feitos significativos. Mas não o suficiente para dar conta de uma crônica prá lá de anunciada.
O destino de Gaddafi foi selado pelo Conselho de Segurança da ONU meses atrás. Foi implementado pelas forças da OTAN com o protagonismo de França, Inglaterra e Itália. No local, por interesses aliados desses países e encorpados em facções religiosas antagônicas ao ditador. Isso, como acontece com freqüência, sob a sombra de uma rede midiática cuja cobertura se faz à sombra de interesses e preconceitos. No frigir dos ovos, um cadáver, é certo. Talvez, a abertura para um período em que a democracia se torne referência de vida para a população. Mas, com certeza, ainda, a continuidade de formas em que a força, a violência e a criminalidade permanecem como linguagem e instrumentos de uma lógica por meio da qual potências se impõem sempre que seus interesses são ameaçados. Sobre o assunto, ver o que já escrevi em:



quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Sociedade, quem? cara pálida!






José dos Reis Santos Filho



“Dois pesos e duas medidas“. “Para os amigos, tudo. Para os outros, a lei“. São frases mais que conhecidas. Mas, desgraçadamente, atualizadas com freqüência. Basta olhar o noticiário das duas últimas semanas. Os mesmos juízes que ordenam a volta dos carteiros ao trabalho, interrompendo uma greve que resultou em nada de conquistas substantivas para a categoria, iniciam uma operação paredista contra o governo federal na busca de aumento de seus próprios salários. No primeiro caso, mais de cem milhões de cartas engavetadas. No segundo, cerca de R$ 700 bilhões em valores de interesse da União e, evidentemente, graves conseqüências para o Tesouro nacional e tudo que dele depende, inclusive, é óbvio, programas sociais.


Não é, certamente, uma iniciativa consensual dentro da própria categoria. Tanto assim que o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro César Peluso, talvez porque já houvesse sentido na pele o desgaste que provocou com o esforço em podar os poderes do Conselho Nacional de Justiça nas ações contra a corrupção dentro do próprio Judiciário, alertou seus pares quanto aos impactos da ação. Conforme veiculado desde ontem, quarta-feira, dia 19 de outubro, ele teria escrito às corregedorias sugerindo que tanto a greve quanto a "operação-padrão" em processos que envolvem a União são iniciativas inadequadas e trazem efeitos negativos para a imagem da magistratura. Da mesma forma, segundo notícias transmitidas pela Folha de São Paulo, o presidente da AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros), Nelson Calandra, afirmou entender que o melhor seria construir uma solução negociada. Na contramão, Gabriel Wedy, presidente da Ajufe (Associação dos Juízes Federais do Brasil) reivindica para a greve o caráter de uma ação independente na defesa dos juízes e da sociedade.

Não bastasse a defesa da equivalência entre os interesses tribais dos juízes e aqueles da sociedade como um todo, incomoda profundamente essa tentativa típica da retórica das corporações em agir como se não estivessem constantemente em profunda falta de sintonia com a vontade geral de uma nação, para usar um termo fora de moda, mas de profunda atualidade. Convenhamos: o mais simples dos observadores percebe que os juízes comportam-se como membros de uma casta, defendem-se como componentes de um casta, julgam-se como parte de uma casta. Com toda certeza, uma mudança nessa percepção implicaria em posturas que impusessem critérios salariais que obedecessem a uma lógica que reconhecesse a perversidade da distribuição da renda no país. Que localizasse os ganhos no Judiciário em contextos de qualidade, produtividade e transparência que são típicos de outras profissões. Mas isso, todos sabemos, não faz parte do horizonte cultural das castas.

Imagem: Les Bourgeois,  de Rodin. In http://www.armchairgeneral.com/forums/showthread.php?t=78915&page=34

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Do cinza dos porões ao colorido das ruas



José dos Reis Santos Filho


Os atos contra a corrupção se espalharam pelo país neste dia 12 de outubro de 2011, mobilizando dezenas de milhares de pessoas. Para além dessa militância que foi às ruas com faixas e cartazes, outras tantas nutrem simpatia e solidariedade com uma causa que afeta a todos. De fato, não se trata de um acontecimento que mediado, pelas manchetes jornalísticas, não nos incomoda no cotidiano. Ao contrário, provoca danos, mexe com nossas vidas, algumas vezes de forma irreparável. Pensemos, em primeiro lugar, no desvio criminoso de verbas que deveriam chegar aos hospitais, às escolas. Lembremo-nos das imagens em que pacientes são mal-tratados, abandonados em chãos de hospitais por falta de médicos e equipamentos não contratados ou não comprados porque o dinheiro desapareceu nos elos de interesses que ligam empresas privadas, políticos, funcionários, juízes, governadores.... Lembremo-nos ainda das merendas não consumidas ou aproveitadas com alimentos de qualidade duvidosa porque em algum lugar, no percurso entre os cofres do Estado e a mesa nas escolas, por algum acordo, a verba foi parar em bolsos de delinqüentes.

Prestamos atenção particularmente nos políticos. E com razão, em muitos sentidos. Afinal, nós os elegemos. Em confiança, possibilitamos a eles, como está cansada de afirmar a Transparência Internacional, o acesso a recursos públicos e ao poder de tomar decisões que impactam nossas vidas. Mas deveríamos deter atenção semelhante aos agentes que, do outro lado do balcão, tornam a corrupção possível com o uso de um poder econômico que se afirma no varejo, nas negociações com autoridades responsáveis pela liberação e destino do dinheiro público, ou no atacado, com financiamento de campanhas político-eleitorais.
Nossa repulsa é velha. Da mesma forma como é antigo nosso sentimento de impotência frente ao assunto. As marchas contra a corrupção criam minimamente a porta de saída para que vençamos essa postura resignada. São um começo. Sinalizam que não estamos sós e que podemos dar início a uma opinião pública. Se a coragem daqueles que foram para as ruas vale alguma coisa, ela deve produzir efeito de demonstração. Ela deve nos estimular a entrar nesse jogo. Acabou o tempo em que era suficiente ficar na arquibancada e torcer pelo resultado. Somos todos afetados, somos todos responsáveis. Nosso lugar é lá, como lá foi nosso lugar nas lutas pela anistia, pela redemocratização, pelas diretas, pelo impeachment. Que o colorido das ruas substitua o cinza dos porões....

A ilustração é da Transparência Internacional. Índice de Percepção da Corrupção de 2010

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Sociólogo pede cautela da população no caso do advogado Sandro Fernandes

Entrevista dada

Rita de Cássia Cornélio
do Jornal da Cidade, de Bauru, SP

03/10/2011




Cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém, diz o ditado popular que poderia pautar as discussões em torno do caso envolvendo a família do advogado bauruense Sandro Luiz Fernandes. A suspeita de que ele tenha cometido os crimes de atentado violento ao pudor e estupro (de acordo com a nova lei) contra quatro pessoas de sua família comoveu e chocou a sociedade, que disparou pré-julgamentos dos mais variados.

O sociólogo José dos Reis Santos Filho, coordenador do Núcleo de Estudos sobre Situações de Violência e Políticas Alternativas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara, enfatiza que as reações emocionadas da sociedade podem levar à execução de inocentes. Segundo ele, cautela é fundamental em momentos assim. Conforme o JC divulgou, na última sexta-feira o casal foi preso após prestar depoimento na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Bauru.

De acordo com Reis, é preciso esperar a conclusão de todas as fases do processo para a tomada de posição e “julgamento”. Antes disso o assunto pode ser discutido, porém, com uma dose enorme de precaução para não retroceder na história. O especialista diz que a mídia também deve tomar muito cuidado para não direcionar a maneira de pensar do público.

“O papel da mídia é extremamente importante para a formação da opinião pública. Ela deve ser objetiva, clara, mas evitar a espetacularização dos fatos. Não é preciso lembrar o que foi feito com dois professores da Escola Base na Capital, anos atrás. Temos antecedentes e devemos mudar esse procedimento. O espetáculo de situações como esta é perigoso e pode levar a execuções de inocentes, antes do veredicto final. O trabalho de divulgação dos fatos deve ser muito cauteloso e não alimentar qualquer tipo de paixão. Não cabe a ela (mídia) fortalecer essas maneiras de reagir diante de fatos que afetam a família.”

Para o especialista, a maneira como as informações chegam até a população vai determinar a tomada de posição. “A gente nunca vai saber porquê a população se comporta dessa maneira diante de tragédias familiares. O que é possível afirmar é que as pessoas, frente a um acontecimento alimentado pela mídia, se posicionam de forma a considerar os envolvidos como culpados ou inocentes.”


Reflexão


O sociólogo admite que a população tem uma enorme dificuldade em avançar na reflexão, até porque não vem sendo educada nessa direção. “É muito difícil as pessoas se aprofundarem na maneira de pensar. De entender que o espetáculo, um dia, poderá envolver sua família. São influenciadas por programas que incitam o julgamento imediato. Elas não entendem que o pré-julgamento pode prejudicar o outro. Quando acontecem fatos como este, rapidamente elas respondem sim ou não. Daí o papel da mídia em esclarecê-las”, analisa.

A reflexão pode ocorrer entre as pessoas mais maduras, com mais experiência de vida. “Em menor escala, entre essas pessoas a tomada de posição é mais pensada. Em grande escala, a opinião é formada pela mídia. Se no lugar de suspeito o formador de opinião usar uma expressão mais carregada, a população vai atrás”, diz Reis.

A transformação da maneira de pensar é uma responsabilidade dos mediadores, na opinião do sociólogo e docente. “São pessoas que ajudam a construir a opinião pública. É um bom momento de olharmos os fatos com cautela e discutir o assunto com mediadores.”

Ouvir opiniões diferentes que possam ajudar a melhorar o enfrentamento de fatos semelhantes pode ser uma alternativa que, a longo prazo, poderá resultar em mudanças.

Para Reis, os professores poderiam estar discutindo o assunto com os estudantes e seus pais. “Para saber como eles estão lidando com essas questões. Podemos verificar como o MP (Ministério Público) está se posicionando em casos semelhantes. Como a delegada está se reportando? Há possibilidade de alguma informação ser leviana? Tudo isso deve ser analisado.”

Até que todos os fatos sejam provados, ressalta o sociólogo, o casal é apenas suspeito. “Só depois de todos os fatos comprovados efetivamente, trabalhados pela polícia e levados a juízo, é que podemos chamá-los de culpados.”

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

60% para os que vivem em linha de pobreza



José dos Reis Santos Filho  



 

Câmara Municipal de Araraquara. Foto de Tatiana Machado Silva
A questão salarial reverbera por todo país na forma de reivindicações por aumentos. Estão nas manchetes as greves do pessoal dos correios e dos bancários. Da mesma forma que as pressões dos juízes e dos servidores do judiciário. E, agora, a movimentação de nossos vereadores. Em tese, mas só em tese, tudo parece estar acolhido sob o mesmo guarda-chuva: categorias profissionais em prol de melhores condições de vida. Só em tese, dizemos, porque há duas diferenças magníficas. Carteiros e bancários são categorias que obedecem a uma lógica patronal muito clara. Nos dois primeiros casos, estão ligados a empresas de serviços que exigem produtividade e trabalham com uma engrenagem que é a dos ganhos. Precisam disputar a forma como o patronato dividirá esses ganhos. Nos dois últimos, lidamos com servidores (públicos, não esqueçamos) com traços corporativos voltados para si mesmos. Não por acaso, podem definir, dentro de critérios bastante amplos, seus próprios proventos. No rigor, não precisam estar atentos sequer à produtividade e à qualidade de seus trabalhos. E isso, aliás, é o que induz à segunda diferença. Por mais que o fechamento dos bancos atrapalhe a vida dos cidadãos, a simpatia pela luta é dada pelo conhecimento dos lucros exorbitantes que as empresas acumulam sem distribuir entre seus empregados. No caso dos juízes e políticos, a experiência rotineira não é a mesma. É suficiente analisar as notícias. Mais a mais, os números que vêm a público aumentam a distância entre a realidade dos reles mortais e esses segmentos. Como justificar, por exemplo, um aumento de 60% em uma cidade em que cinco por cento das famílias ainda vive em padrões de linha de pobreza?