por José dos Reis Santos Filho
Em plena quaresma, ainda mexendo com baús, localizei uma entrevista que concedi ao jornalista Adilson Camargo, do Jornal da Cidade, de Bauru, em dezembro do ano passado. Decidi por incluí-la em Esquinas e Quarteirões porque uma conversa com um orientando que ao relatar o progresso de sua pesquisa com adolescentes da Fundação Casa a tornou atual. De fato, o que esteve no foco da conversa foi a carência de vínculos afetivos cotidianos entre jovens internados.
Adilson Camargo - Nem no Natal as pessoas estão pensando menos em si?
Reis: todos os dias, todas as horas do dia, estamos sendo lembrados da importância do indivíduo na realidade atual. Nessas mensagens, a dimensão fundamental sempre lembrada é a do consumidor. Não é, certamente, a do cidadão. Enquanto consumidor, sou lembrado permanentemente daquilo que me falta. Pior: daquilo que me falta e do que me falta enquanto consumidor atualizado com os mais novos lançamentos no mercado. Se não tenho celular, estou fora de circuito. Se tenho, não basta apenas um telefone móvel, é preciso que seja o último lançamento para não estar fora de um circuito especial dentro do circuito de consumidores atualizados a seu tempo. Como resistir a isso? Difícil! Não surpreende, portanto, que a lembrança se volte prioritariamente para as necessidades (talvez o melhor fosse dizer desejos) individuais em época em que é natural se dar presente.
Adilson Camargo - Não seria mais apropriado para essa época do ano que os desejos fossem mais sentimentais como querer mais paz, amor, prosperidade, felicidade de toda a humanidade, ao invés de pensar só em si?
Reis: Curiosamente, a época não esqueceu mensagens como essas. Convive com o desejo de satisfação individual. A diferença fundamental é que elas se realizam nas manifestações dos votos que são feitos nos momentos em que as pessoas se cumprimentam. É fácil, não custa nada e nos pomos em harmonia com o outro e com toda a humanidade. Dificilmente alguém se esquecerá de desejar ao próximo feliz ano novo, paz, prosperidade, amor, saúde e outras manifestações parecidas. Faz parte de uma formalidade tornada hábito sempre cumprido. Enquanto tal, não implica em nenhum compromisso com o que se verbaliza como desejo. Ao contrário das necessidades de consumo que, no limite, implicam em pagamento de sessenta prestações.
Adilson Camargo - Esse pensamento predominantemente individualista é algo histórico do ser humano ou nem sempre foi assim?
Reis: É provável que se encontre traços parecidos desde o momento em que o sedentarismo se tornou padrão de um processo civilizatório. Já lá se vão mais de sete mil anos. Ainda assim, na forma como o conhecemos hoje, seus antepassados começaram a preocupar filósofos e sociólogos desde a implantação da revolução industrial, ou seja, desde o século XIX. Mas toma força definitiva a partir de meados do século passado, até chegar aos atuais padrões de marketing. Nosso tempo é o tempo em que se mata por um tênis. Não um tênis qualquer, mas "aquele" tênis.
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