segunda-feira, 28 de março de 2011

Jovens e drogas



por  José dos Reis Santos Filho 


Há alguns meses, fui entrevistado pela repórter Graziela Delalibera, do Diário da Região de Rio Preto. Hoje, sendo obrigado, por dever de ofício, a mexer nos baús, relendo o material, concluí que dissera o óbvio ao qual todo cidadão deve se curvar. Nesse sentido, não encontrei nada de original naquilo que disse. Ainda assim, conclui por sua inclusão em Esquinas e Quarteirões. Simplesmente porque fui tomado pelo sentimento de que o óbvio nem sempre é notado, nem sempre é considerado. Assim, fica a critério de eventuais leitores o acerto da avaliação.  
 
 
Graziela Delalibera - Fizemos um levantamento com 300 boletins de ocorrência de flagrante por tráfico entre janeiro e a primeira quinzena de setembro para traçar o perfil dos presos. Vamos sair pelo enfoque de que quase 50% dos 256 homens presos no período têm entre 18 e 22 anos. A maior parte é desempregada e não tem profissão. Além disso, as ocorrências estão concentradas em bairros carentes. 

A pergunta inicial, frente a esses dados, é: quais os principais motivos que levam esse jovem para o tráfico?

Reis: Infelizmente, o jovem está no centro das atenções do tráfico. Como ator e vítima. Não é difícil constatar que, em algumas cidades do interior paulista, mais da metade da população acima dos dezesseis anos já teve alguma experiência com drogas. Da mesma forma, parte absolutamente significativa dos adolescentes que cumprem medidas sócio-educativas na Fundação Casa esteve envolvida como traficante. As pesquisas parecem mostrar que há diversos motivos para tal envolvimento. A ausência de vínculos familiares fortes, a importância da droga como fator de visibilidade e reconhecimento social, a falta de alternativas viáveis para o emprego de motivações e energias próprias para indivíduos nessa faixa de idade, o pano de fundo de fundo de pobreza são alguns dos fatores que, de uma forma ou de outra jogam nesses casos. 

Graziela Delalibera - O tráfico tira o jovem da escola?

Reis: Quanto maior o envolvimento com as drogas, maiores as possibilidades de uma rota de fuga que vai dos ambientes de uma vida “normal” para os espaços de “tribos”. Nesses casos, ainda que a droga não necessariamente tire o jovem da escola, ela pode tornar sua presença nas atividades escolares irregular e, via de regra, desmotivada. 

Graziela Delalibera - De quem é a responsabilidade? 

Reis: Difícil apontar um único agente ou causa como determinante da situação. A família, mesmo aquela que funcione de forma exemplar, compete hoje com um universo de influências bastante fortes. Os espaços midiáticos veiculam imagens em que personagens do mundo do crime são elevados a protagonistas de espetáculos; há uma crise de paradigmas de valores que orientam a vida de personalidades pública (os escândalos estão aí para mostrar isso), o horizonte de possibilidades de realização de um jovem não é percebido como muito amplo. Ao lado disso, a droga, em sua produção, circulação e consumo, se tornou uma atividade econômica criminosa incrustada em atividades lícitas que conta com a cumplicidade do mundo financeiro para lavagem de dinheiro, do mercado para sua aplicação e da incompetência das forças encarregadas de combater a criminalidade para sua repressão. Hoje, ela busca infiltrar-se até na vida política parlamentar. Enfim, há um conjunto muito forte de elos que incidem em uma rede que busca arrastar o jovem para sua área de influência.

Graziela Delalibera - Existe solução para o problema? Como? 

Reis: Há experiências nacionais e internacionais que precisariam ser observadas com carinho. Elas são diversificadas e vão desde a tentativa de campanhas de esclarecimento até a descriminalização da droga, uma lição holandesa. De qualquer forma, o enfrentamento do problema passa por uma receita que é conhecida de todos: a repressão à sua produção e circulação é um dos primeiros pontos do manual. Isso implica defesa seria de nossas fronteiras para impedir o contrabando. Forças policiais em condições para uma atuação intensiva e extensiva. Um judiciário célere e competente ao lado de um sistema prisional que deixe de ser abrigo para quadrilhas e escola de criminalidade. Uma legislação atualizada capaz de identificar o dinheiro do tráfico em circulação nos bancos. Esses são exemplos de intervenções que atuariam na origem do problema. Mas não dispensam outras que incidiram no fortalecimento da família, na articulação de instituições como as igrejas, clubes, associações de bairro, ONGs e outras em um trabalho diário de atração do jovem para outros horizontes. Da mesma forma, políticas públicas nas áreas do esporte, da cultura, da educação e da saúde que colocassem crianças, adolescentes e jovens de uma forma geral como centro de suas preocupações. Sem esgotar o campo de possibilidades, um conjunto de medidas que oferecessem ao jovem a certeza de que têm chance no futuro. Por exemplo, o primeiro emprego.

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