sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O nome disso é agressão, é violência.


por José dos Reis Santos Filho



A Unesp está na mídia há mais de quatro dias. E os motivos não têm nada relacionado a resultados de nossa vida acadêmica. Tampouco há qualquer motivo que nos leve a receber prêmios ou louros por conquistas em pesquisas. Somos objeto de atenção nas páginas policiais, nos autos, em investigações criminais, nas iniciativas de uma promotora e no repúdio da Ordem dos Advogados do Brasil. Tudo isso porque, em uma atividade extremamente importante para a sociabilidade estudantil, um grupo de meliantes, com cérebros movidos a miolo de pão e coca-cola, deixou de lado todos os quesitos de civilidade e agrediu física, emocional e simbolicamente jovens mulheres, colegas de uma mesma instituição universitária.

Há quem chame o acontecido de “brincadeira de mau gosto”. Não se aplica sequer como metáfora. O nome disso que chamaram de “rodeio das gordas” é pura e simplesmente agressão, violência. Em malta, de forma covarde e selvagem, aos risos, submeteram fisicamente, contra a vontade, pessoas do sexo feminino. Certamente não é por acaso o viés de gênero. Na ordem machista de ver o mundo, esse é um segmento pronto para manifestações dessa natureza. Mas o sofrimento público foi um ingrediente a mais. E a dor, aqui, não provém só de eventuais hematomas ou lesões perceptíveis a olho nu. Ela é também emocional e provém da humilhação e da vergonha que provoca. Não por acaso, pelo menos uma das vítimas tem dificuldades de ver-se novamente de volta às aulas. E, como se não bastasse, mexeram com estereótipos fortemente ancorados em nossa vida social. Filtram as pessoas através de estigmas que as distinguem como aceitáveis e não aceitáveis. Na situação, a mulher gorda é escolha quase que natural. Na imagem do “rodeio”, com que estamos lidando? Com “touros”, “novilhos” ou “vacas gordas”


Bobagem listar leis e artigos de leis que esses elementos infringiram. Superficial lembrar a forma como o Código de Ética da Unesp foi aviltado. Desnecessário mostrar como séculos de evolução civilizatória condensada nas Cartas de Direitos Humanos foram desprezados. Sabemos de tudo isso e não precisamos mencionar que a situação que ora vivemos é regressiva. Nos interessa, sobretudo, refletir sobre o acontecimento e apontar horizontes.

Em primeiro lugar, não temos dúvidas sobre a necessidade de uma medida exemplar no que diz respeito à punição. “Não queremos estabelecer um processo inquisitório", disse Ivan Esperança, vice-diretor da Faculdade de Ciências e Letras, do Campus de Assis da Unesp. Não, não queremos. Isso seria regressão, tanto quanto o comportamento dos responsáveis pelas agressões. Mas não se trata apenas de “ouvir os envolvidos”, como declarou o professor à Folha de São Paulo. Tal como parece estar em andamento, faz-se necessária uma investigação minuciosa que permita punição exemplar. Uma investigação cujo produto seja encaminhado às autoridades policiais e à promotoria. Mais: a universidade deve deixar claro que não admite procedimentos dessa natureza e que não devem ser repetidos. Mais ainda: deve ficar evidente que estamos claramente ao lado das vítimas, sem contemporizações.


 Em segundo lugar, não podemos considerar esse acontecimento como evento episódico.Ele é uma modalidade do muito que imaginamos existir cotidianamente. É urgente lidar com fatos que nos chegam na forma de comentários, boatos, denúncias anônimas e, ocasionalmente, como registros em boletins de ocorrência. Lidamos, nessas esferas, com o desassossego público, com o uso de drogas, com agressões físicas e desmandos, com roubos e furtos. Em cada caso e em todos os casos, a comunidade estudantil é afetada direta ou indiretamente por estranhos ao ambiente escolar ou por minorias endógenas. Em qualquer caso, é hora de abandonar o espanto e enfrentar o problema. Afinal, essa é, também, nossa tarefa.



Foto de Daniel Bergamasco/Folhapress


segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Marina: o moderno e o conservador



Por  José dos Reis Santos Filho


Fechadas as urnas do primeiro turno, Marina Silva e o PV confirmaram um desempenho em que perderam ganhando. Firmaram-se no vazio criado pela incapacidade de Serra em apresentar-se como oposição viável. O crescimento sinaliza que pode ter rompido com a síndrome do candidato nanico. Ao contrário do esperado por Lula, superou a marca plebiscitária que imaginava para o pleito. Mais: fez de Marina a grande personagem do segundo turno. Ao captar cerca de um quinto do eleitorado nacional, será cortejada por todos. Ela e o PV criaram as condições para uma terceira via em processo de construção

Em um primeiro momento, foi fácil notar que sua campanha foi carregada de ambigüidades. Na piada de José Simão, só faltou proposta de plebiscito para aprovação da maquiagem preparada especialmente para a candidata. Foi um comportamento que suscitou dúvidas pertinentes em um eleitorado mais crítico e antenado nos acontecimentos. No correr do processo, tornou-se preocupação. Hoje, frente aos resultados, algumas aproximações podem ser apresentadas.

É verdade que o grande tema da campanha de 2010 é a continuidade. Ainda assim, o período Lula, principalmente seu segundo mandato, trouxe para o debate nacional alguns temas que mexem com as mentalidades e possuem profundo significado em termos de valores. A apresentação do III° Plano Nacional para os Direitos Humanos serviu de elemento catalisador de um enfrentamento que estava latente há algum tempo.

É verdade que, no que há de mais nuclear, não há nada de diferente daquilo que Fernando Henrique Cardoso apresentou ao Congresso, quando, pela primeira vez, essa preocupação tornou-se objeto de atenção governamental. De qualquer forma, por vários motivos, mobilizou segmentos expressivos da sociedade civil organizada. Parte dos atores já era conhecida como adversários políticos de longa data. Os ruralistas, por exemplo, e sua fobia ao movimento dos sem terra e à defesa do eco-sistema. Outra parte, já comprometida com a candidatura da oposição, viu ameaças onde não havia. Assim, ao contrário daquilo que argumentou a grande mídia nacional, em nenhum lugar do Plano há qualquer ataque à liberdade de expressão e à imprensa. Outra parte, finalmente, ainda que satisfeita com o desenvolvimento social e econômico sob responsabilidade do governo Lula, sentiu-se confrontada em pontos nos quais a extensão das liberdades individuais e de fórum íntimo estava envolvida. Estão entre esses pontos a descriminalização da droga, a adoção de crianças por casais do mesmo sexo, o uso de células-tronco de embriões em pesquisa, a união estável entre pessoas do mesmo sexo. E, sobretudo, a descriminalização do aborto.

Se Serra já se apresentava como expressão das bandeiras ruralistas e dono da simpatia das grandes organizações de mídia, Marina capitalizou e alimentou o descontentamento daqueles que se sentiam atingidos em sua religiosidade, em seus conceitos morais particulares por expressões universais de direitos. Ao ir, eleitoralmente ou programaticamente, não importa aqui, ao encontro desses setores da sociedade, a ambigüidade da candidata se sedimentou em uma fórmula cuja resolução ainda não pode ser visualizada com clareza. Tomado o campo dos direitos como referência, é atual, moderna, quando remete à preservação do ambiente, à sustentabilidade. É atrasada, conservadora, quando se manifesta no terreno das liberdades individuais.

O tempo dirá se o PV se adaptará a essa possibilidade aberta pelas eleições. Se irá na contramão de seus congêneres europeus ou se fará conviver uma militância de esquerda ecológica com uma direita fundamentalista. Até lá, Marina é peso pesado no segundo turno.




É Dilma, não é um poste

   Por  José dos Reis Santos Filho


Em poucas horas, os brasileiros estarão definindo se a campanha se estenderá por mais algumas semanas ou terminará no primeiro turno. Confirmada a tendência, o Brasil fará parte de um clube muito exclusivo de países em que mulheres conseguiram chegar ao mais alto posto executivo. Nada mal, considerada uma realidade em que a mulher ainda é uma grande perdedora nas relações de gênero. Nada mal, considerado o fato de que, alguns passos além do lugar em que trabalhará, deputadas e senadoras ainda serão minoria desprezível. Nada mal, depois de uma campanha em que as mulheres candidatas (eram duas, contra sete do sexo masculino) foram obrigadas a fazer de conta que problemas enfrentados por milhares e milhares de pessoas do sexo feminino não devem ser tratados como questões de governo. Nada mal, sobretudo, para uma mulher que, no início da campanha, era tratada pela como um poste.  

A vitória possível de Dilma pode ser avaliada em muitas perspectivas. A mais rica delas, no entanto, é aquela que fixa o olhar na crise em que se encontra a oposição. Difícil negar que à procura da “bala de prata” que atingiria Lula e sua candidata, Serra e sua equipe só foram capazes de balas perdidas. E começaram cedo, bem antes da campanha. Em primeiro lugar, sem alternativas, ainda que tenham tentado, não conseguiram alcançar o “padrão petista de oposição”. Aquele em que o vazio de objeto freqüentemente predominava no lugar das críticas republicanas.

Em segundo lugar, deixaram de formular e explicitar um discurso alternativo que sinalizasse as razões de ser oposição. Evitaram, inclusive, buscar entender o significado da proposta de Aécio Neves, que reivindicava para si encarnar o “pós Lula”. Em terceiro lugar, mantiveram o PSDB e suas sombras, longe de um diálogo democrático com a sociedade civil e os movimentos sociais. Não bastasse, sequer cuidaram de transformar o PSDB em partido com vida e militância para além dos cochichos e acordos realizados durante as refeições.

Em quarto lugar, patrocinaram uma campanha de marketing eleitoral que apresentava as qualidades do candidato como próprias do Rei Sol. E, não obstante, se limitaram a defende-lo como político absolutamente capaz para ocupar o cargo de ministro da saúde. Em quinto lugar, deixaram de perceber que os estrategistas da situação, Lula à frente, estavam jogando com o julgamento da obra realizada pelo governo e, não, personalidades. Nesse sentido, um bom leitor de pesquisas teria visto que a palavra de ordem mais importante da conjuntura eleitoral deste ano, como notou José Roberto Toledo, era “continuidade”. E, se quisessem enfrentar isso em sua radicalidade, teriam que trazer FHC à frente dos holofotes. Ao contrário, optaram por pautar as expectativa na exploração de escândalos.

Em sexto lugar, sem esgotar o assunto, a oposição foi cega ao achar que Dilma não daria conta do recado. A julgar pelos dados do Ibope, cerca de 30% das intenções de voto na candidata do PT não vinham da transferência de prestígio e popularidade do atual presidente. Provinham do próprio desempenho de Dilma. Confundiram falta de experiência eleitoral com fragilidade intelectual e ausência de traquejo em situações públicas. Logo ela, com passado em movimento estudantil, com vida ativa em partidos de esquerda, com freqüência na pós-graduação, com presença em secretarias e ministérios. Grande erro crer nos mitos criados por uma imprensa alimentada pelas esperanças e desejos da própria oposição.

Como já disse D. Demétrio Valentini, Bispo de Jales, esta foi uma campanha que não vai deixar saudades. Ainda assim caso seus resultados sejam enfrentados seriamente, podem ajudar de forma significativa. É inegável que aumenta, dia-a-dia, a responsabilidade do eleitor. E frente a isso, o PSDB, por necessário que é, deve deixar de ser um simulacro de partido. Ou enfrenta seu presente ou compromete seu futuro.

Publicado em A Gazeta de Araraquara

Nas eleições presidenciais há pequenos, médios e grandes perdedores

   

Por    José dos Reis Santos Filho


Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto de Pesquisas Vox Populi arriscou um prognóstico sobre o resultado das eleições presidenciais. Em opinião divulgada neste último dia 23, sugeriu que os votos válidos estariam distribuídos de forma a que Marina Silva ficaria com algo em torno de 11%, José Serra, com cerca de 33% e Dilma Rousseff próxima dos 56%. É especulação? É! Mas o responsável por ela é um dos maiores especialistas em pesquisas de opinião pública no país. É verdade que desconsidera os efeitos do debate mais aguardado, o da Rede Globo de Televisão e dos eventos que serão produzidos no último dia da campanha. Como se sabe, sair-se bem ou mal no debate com maior audiência faz diferença. Da mesma forma, é imprevisível o que a imprensa plantará para digestão da opinião pública depois que o PT, Lula e Dilma já não dispuserem de horário eleitoral gratuito para se defenderem.

Imaginemos, no entanto, que a tendência se confirme e o resultado seja próximo ao que Coimbra está prevendo. Contra a corrente, talvez conviesse ler os resultados evitando a ótica da vitória e sinalizando aquela das perdas.

Se observarmos dessa forma, o grande perdedor do processo eleitoral seria Serra e, com ele, o PSDB, o DEM e o PPS. Não importa que cheguem em segundo lugar. Para utilizar uma expressão já pertencente ao vocabulário desta campanha, se trataria de uma derrota melancólica. Do ponto de vista pessoal, um candidato que se desenhou como “a certeza”, portador do “melhor currículo” em confronto com uma mulher “desconhecida”, sem “experiência eleitoral”, “criatura artificial”, a perda é retumbante. Do ângulo político, sua candidatura e a derrota teriam provocado a desarticulação de uma oposição que, já sem discurso, apareceria em frangalhos e disposta à dispersão.

O médio perdedor seria o PT e sua candidata, Dilma Roussef. Levariam a presidência e, provavelmente um excelente balaio de votos, mas carregariam peso agregado proveniente da quantidade de indícios de crimes que gira em volta da candidata e de seu partido. O “erenicegate” para mencionar apenas um deles, já colou na pele da ex-ministra, da mesma forma como o mensalão colou em Lula e no PT. Na mesma linha, ao cair na provocação da imprensa ligada ao tucanato e reagir de forma histriônica, supondo uma “excessiva liberdade” para a mídia, Dilma, Lula e o PT deram coesão a um campo de oposição que, em provável governo dilmista, terá mais força que o leque partidário derrotado com Serra. Se Lula não teve unanimidade, Dilma dificilmente poderá sequer sonhar com tranqüilidade.

O pequeno derrotado seria o PV e sua candidata, Marina Silva. Sua campanha foi carregada de ambigüidades. Na piada de José Simão, só faltou proposta de plebiscito para aprovação da maquiagem preparada especialmente para a candidata. Ainda assim, aproveitou-se do vazio criado pela incapacidade de Serra em apresentar-se como oposição viável e firmou-se como uma terceira via em processo de construção. Seu crescimento recente sinaliza que rompeu com a síndrome do candidato nanico e, ao contrário do imaginado por Lula, romperá a barreira dos 10%. Cria um horizonte capaz de colocar o Partido Verde e Marina em uma disjuntiva que os obrigará a escolher entre tornarem-se referência para uma nova oposição ou um contrapeso à influência do PMDB em um próximo governo.

Entre pequenos, médios e grandes perdedores, talvez conviesse um capítulo à parte para o significado destas eleições para a consolidação de nossa democracia. Mas isso é um capítulo à parte.


Publicado em A Gazeta de Araraquara



A “escandalização” da campanha oculta a debilidade dos tucanos




Por José dos Reis Santos Filho


A probabilidade da vitória de Dilma Roussef é altíssima. Mas é bobagem acreditar que já esteja garantida. Em uma campanha marcada por escândalos, difícil prever seu desfecho. Sirva de prova a oscilação recente do quadro de intenções de voto. Sirva de prova a utilização que Serra faz deles.

Até algumas semanas, os movimentos de Serra foram erráticos. Apresentou-se inicialmente como continuidade de Lula. Não deu certo. Buscou mostrar-se um estadista, amigo de Lula. Não vingou. Sugeriu ser mais consistente que Dilma. Os debates não confirmaram. Hoje, tenta mostrar que o PT come criancinhas aos domingos. Fracassadas essas tentativas, Serra, em tabelinha com três grandes grupos de mídia nacional, usa casos de polícia como elementos centrais de sua campanha presidencial. Tarefa fácil, reconhecida a forma como o Estado é assaltado por interesses corporativos de todos os tamanhos. Tarefa complicada, se pensarmos no processo civilizatório de cunho democrático que recém começamos a viver.

Em qualquer situação, as informações sobre os candidatos, seus partidos, os interesses que representam são fundamentais para a consolidação da opinião dos eleitores. O que incomoda na conjuntura é a incapacidade de o PSDB e Serra mostrarem porque se definem como oposição, que projetos possuem para o Brasil. Se, em todo o território nacional, pessoas de todas as bandeiras políticas estão envolvidas em corrupção; se, todos os partidos afirmam, batendo no peito, serem contra os crimes que abundam o noticiário, o que diferencia, efetivamente, a proposta de Serra daquela de Dilma?

Essa parece ser a pergunta que sinaliza as dificuldades reais do PSDB e, evidentemente, de todos os interessados em uma pauta de debates sobre o futuro do país. Na raiz dessas dificuldades, as armadilhas que o maior partido da oposição criou para si mesmo durante os últimos anos. Lembremos algumas.

Em primeiro lugar, Serra e o PSDB abdicaram da idéia de construir um partido enraizado na sociedade civil, com diálogo sistemático com os movimentos sociais, com quadros de militantes capazes de garantir um crescimento partidário sustentável. Transformaram a sigla em uma referência de uso eleitoral manipulada por caciques que, rapidamente, perdem os índios que restam. Em segundo lugar, deixados de lado espasmos pontuais incapazes de estabelecer um discurso e uma proposta de governança, Serra e o PSDB não fizeram oposição a Lula e a seu governo. Serra, em particular, governou São Paulo preocupado em não perder investimentos e não afrontar a popularidade crescente de Lula. Em terceiro lugar, com a certeza de não esgotar o assunto, Serra e o PSDB desarmaram-se política e ideologicamente ao afirmarem reiteradamente que o governo Lula dava continuidade a FHC. Tiro pela culatra. Para o eleitor, se isso é verdade, se o PT está sendo capaz de dar conta com sucesso daquilo que era originalmente do PSDB, que o próprio PSDB foi incapaz de realizá-lo (algo que Serra admite implicitamente, ao esconder FHC de sua campanha), porque mudar?

Em resumo, é salutar que os crimes ligados à governança sejam trazidos às campanhas e que Lula, Dilma e o PT sejam responsabilizados por seus atos. O que não é salutar e inevitável é que a corrida à presidência seja pautada por essa agenda. Caso não seja tarde, talvez seja o momento de o PSDB se reinventar. Não importa qual seja o resultado de outubro.

Publicado originalmente em A Gazeta de Araraquara