por José dos Reis Santos Filho
A Unesp está na mídia há mais de quatro dias. E os motivos não têm nada relacionado a resultados de nossa vida acadêmica. Tampouco há qualquer motivo que nos leve a receber prêmios ou louros por conquistas em pesquisas. Somos objeto de atenção nas páginas policiais, nos autos, em investigações criminais, nas iniciativas de uma promotora e no repúdio da Ordem dos Advogados do Brasil. Tudo isso porque, em uma atividade extremamente importante para a sociabilidade estudantil, um grupo de meliantes, com cérebros movidos a miolo de pão e coca-cola, deixou de lado todos os quesitos de civilidade e agrediu física, emocional e simbolicamente jovens mulheres, colegas de uma mesma instituição universitária.
Há quem chame o acontecido de “brincadeira de mau gosto”. Não se aplica sequer como metáfora. O nome disso que chamaram de “rodeio das gordas” é pura e simplesmente agressão, violência. Em malta, de forma covarde e selvagem, aos risos, submeteram fisicamente, contra a vontade, pessoas do sexo feminino. Certamente não é por acaso o viés de gênero. Na ordem machista de ver o mundo, esse é um segmento pronto para manifestações dessa natureza. Mas o sofrimento público foi um ingrediente a mais. E a dor, aqui, não provém só de eventuais hematomas ou lesões perceptíveis a olho nu. Ela é também emocional e provém da humilhação e da vergonha que provoca. Não por acaso, pelo menos uma das vítimas tem dificuldades de ver-se novamente de volta às aulas. E, como se não bastasse, mexeram com estereótipos fortemente ancorados em nossa vida social. Filtram as pessoas através de estigmas que as distinguem como aceitáveis e não aceitáveis. Na situação, a mulher gorda é escolha quase que natural. Na imagem do “rodeio”, com que estamos lidando? Com “touros”, “novilhos” ou “vacas gordas”
Bobagem listar leis e artigos de leis que esses elementos infringiram. Superficial lembrar a forma como o Código de Ética da Unesp foi aviltado. Desnecessário mostrar como séculos de evolução civilizatória condensada nas Cartas de Direitos Humanos foram desprezados. Sabemos de tudo isso e não precisamos mencionar que a situação que ora vivemos é regressiva. Nos interessa, sobretudo, refletir sobre o acontecimento e apontar horizontes.
Em primeiro lugar, não temos dúvidas sobre a necessidade de uma medida exemplar no que diz respeito à punição. “Não queremos estabelecer um processo inquisitório", disse Ivan Esperança, vice-diretor da Faculdade de Ciências e Letras, do Campus de Assis da Unesp. Não, não queremos. Isso seria regressão, tanto quanto o comportamento dos responsáveis pelas agressões. Mas não se trata apenas de “ouvir os envolvidos”, como declarou o professor à Folha de São Paulo. Tal como parece estar em andamento, faz-se necessária uma investigação minuciosa que permita punição exemplar. Uma investigação cujo produto seja encaminhado às autoridades policiais e à promotoria. Mais: a universidade deve deixar claro que não admite procedimentos dessa natureza e que não devem ser repetidos. Mais ainda: deve ficar evidente que estamos claramente ao lado das vítimas, sem contemporizações.
Em segundo lugar, não podemos considerar esse acontecimento como evento episódico.Ele é uma modalidade do muito que imaginamos existir cotidianamente. É urgente lidar com fatos que nos chegam na forma de comentários, boatos, denúncias anônimas e, ocasionalmente, como registros em boletins de ocorrência. Lidamos, nessas esferas, com o desassossego público, com o uso de drogas, com agressões físicas e desmandos, com roubos e furtos. Em cada caso e em todos os casos, a comunidade estudantil é afetada direta ou indiretamente por estranhos ao ambiente escolar ou por minorias endógenas. Em qualquer caso, é hora de abandonar o espanto e enfrentar o problema. Afinal, essa é, também, nossa tarefa.
Foto de Daniel Bergamasco/Folhapress
