quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Tiririca, palhaço e representante do povo no Congresso? (2)



por José dos Reis Santos Filho


A “novidade” Tiririca chegou aos jornais de grande circulação. É assunto na Folha de São Paulo. Em suas páginas, espaço ao candidato, em entrevista. Nela, o aspirante a parlamentar informa que mantém uma assessoria funcionando como retaguarda. Assume, no entanto, sem que saibamos se é piada ou na, que consulta sua mãe para assuntos como o lançamento de sua candidatura. Repete ser verdade que não conhece “nada” sobre a atividade de um deputado. Tem certeza, no entanto, que, “tando lá”, vai “passar a conhecer”. Admite ainda que não sabe explicar a Câmara. Mas diz também que não fez piada. “É a realidade”. Caso eleito, “pior do que ta não fica”.

Ainda assim, aparentemente, se distancia de um mandato que o (re) produza como palhaço. A acontecer, o público conhecerá Tiririca como civil, sem o uniforme. Algo a ser acompanhado de uma atuação que o mostrará “entrando de cabeça, de coração”. Está “querendo faze alguma coisa.” Afinal, é “bem resolvido” em sua profissão. Tem a “vida feita”.

Essa é uma entrevista que (re) afirma uma hipótese levantada por nós em resposta a Roberto Schiavon, jornalista de A Tribuna Impressa, de Araraquara, SP. Na ocasião (ver postagem em esquinasequarteiroes), dizíamos existir uma identificação entre aquilo que Tiririca dizia e a percepção dos eleitores em relação aos problemas da representação democrática. E baseávamos tal afirmação em dados disponíveis sobre um dos mais importantes municípios da região central de São Paulo.

Assim é que, conforme dados recentes levantados por nós, todos com fontes em trabalhos de autoria do Instituto DataPress, 59,53% da população de Araraquara não sabe o que fazem os deputados. Pior, indo além: entre aqueles que dizem saber (40,77%), apenas 8,9% nos dão como respostas diretas que legislar e fiscalizar são as principais tarefas de um dos poderes fundamentais da República. Ao acrescentarmos a esse segmento aqueles que nos fazem entender que “criar leis/projetos para o povo” (22,55%) e “representar a cidade e a região” (10,4%) são de responsabilidade parlamentar, concluiremos que, efetivamente, apenas 21,75% dos eleitores do município sabem realmente o que devem fazer nossos representantes. Isso significa que, dos 141.902 eleitores da cidade, menos de 31 mil efetivamente reconhecem as tarefas constitucionalmente atribuídas aos membros do Legislativo.

Esse é o contexto que permite a Tiririca o que talvez já possa ser qualificado como a melhor jogada de marketing político das eleições de 2010. Entre o pólo produtor da mensagem e seu pólo receptor, há um referencial interativo que, para além dos meios técnicos, radiofônicos ou televisivos, não importa, sustenta e permeia a própria credibilidade do que é dito. A percepção das palavras de Tiririca não encontrariam a mínima ressonância se não houvesse por parte da população um profundo desconhecimento do significado da atividade legislativo. E há quilos de pesquisas acadêmicas que sinalizam, de forma contundente e por vieses teóricos diferenciados, essa ausência. A questão resume-se, então, em saber se devemos matar politicamente o mensageiro.


Fontes das fotos:

alexandreterra.blogspot.com
paramudarobrasil.worldpress.com

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Tiririca, palhaço e representante do povo no Congresso?



por José dos Reis Santos Filho


Em entrevista, o jornalista Roberto Schiavon, do jornal Tribuna Impressa, de Araraquara, SP, quis saber minha opinião sobre o lançamento de “candidatos pitorescos nestas eleições, como Ronaldo Esper, Maguila, Kléber Bambam, Mulher Pêra e Mulher Melão”. Chamou atenção especial para Tiririca que, em sua primeira aparição no programa eleitoral gratuito pergunta explicitamente ao telespectador se ele “sabe o que faz um deputado estadual”, algo que nem ele, candidato, sabe. E, a guisa de justificativa, de forma imperativa sugere que o eleitor vote nele. Uma vez na Assembléia Legislativa, ele contaria o que fazem os eleitos. E termina dizendo: "Vote em Tiririca. Pior do que está não fica".

A questão fundamental colocada por Schiavon seria, então, se este tipo de candidatura não deporia contra o processo eleitoral. Afinal, o político já é desacreditado e candidaturas dessa natureza poderiam piorar o quadro.

Sugiro que personagens como esses não são típicos apenas de nossa realidade, de nosso tempo histórico. De formas eventualmente mais esparsas e em menor volume, ocorrem em países com tradições de democracia representativa. Um dos casos de grande repercussão internacional foi a eleição de Cicciolina para o Parlamento Italiano, em 1987. Com uma trajetória pessoal marcada pela indústria pornográfica e pelo show business, sua campanha tornou seus seios muito mais conhecidos que suas idéias. Cada sessão parlamentar em que participou tinha como atração menos os assuntos de pauta que a aparição da personagem. Talvez sua proposta mais intrigante tenha sido a de dormir com o ex-ditador Sadam Husseim em troca da libertação de reféns supostamente sob sua responsabilidade.



No caso específico do Brasil, não é de hoje que personagens alheios à política como vocação são propostos em eleições. Um caso típico, com verbete na Wikipédia e pesquisas acadêmicas reconhecidas, foi o de Cacareco, “um rinoceronte do Zoológico de São Paulo que, nas eleições de outubro de 1958, para vereador da cidade, ganhou cerca de 100 mil votos”. Foi fenômeno inusitado porque sua candidatura foi propositalmente lançada e propagada como voto de protesto. A idéia de lançar o animal como candidato teria sido do jornalista Itaboraí Martins, “em protesto contra o baixo nível dos outros 450 concorrentes”. É, de longe, “um dos mais famosos casos de voto nulo em massa da história da política brasileira”..

Tomados como um todo, dificilmente os candidatos “pitorescos” que se apresentam nas eleições atuais poderiam ser considerados candidatos de protesto. Nas aparições que fazem, de alguma maneira buscam traduzir suas inserções na linguagem, nos gestos e, mesmo, nos rituais que são comuns ao establishment. Esses personagens parecem ser expressões de um mesmo fenômeno: a curta idade de nossa democracia.

Ainda presenciamos as dificuldades com que a população e os partidos manipulam o significado de democracia participativa. No primeiro caso, temos que levar em consideração que recém começamos a ver a sociedade civil organizada se preparando para acompanhar de perto o processo eleitoral. É verdade que organizações como o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), uma instituição financiada por entidades sindicais, acompanha e divulga há mais de vinte anos o compromisso dos parlamentares com os interesses dos trabalhadores. É verdade também que organizações não governamentais como a Transparência Brasil estão contribuindo de forma substantiva com a fiscalização do uso que se faz do dinheiro público. É indiscutível ainda a importância de iniciativas populares como a que resultou no projeto “ficha limpa” São empreendimentos, no entanto, que não parecem chegar ao grosso dos eleitores e, portanto, agregam relativamente pouco na constituição de uma opinião pública suficientemente crítica. Uma opinião pública, diga-se de passagem, cuja formação é mediada por empresas com interesses econômicos, políticos e ideológicos que se manifestam de maneira indubitável nos processos eleitorais.

(Há, não obstante problemas como estes, lugar para otimismo em nosso horizonte. É uma opinião pública em desenvolvimento e, acreditamos, de forma robusta. E isso, talvez, principalmente, devido a dois fatores que mereceriam análises. Em primeiro lugar, com todas as críticas possíveis e imagináveis à qualidade de nossa educação, estamos melhorando o grau de educação de nosso povo. Talvez sejam estas as eleições com menor participação do segmento “analfabeto” em toda nossa história. Em segundo lugar, desde 1988, as questões ligadas à cidadania ocupam parte substantiva de nossas demandas. Essa é uma palavra que veio para ficar e, no longo prazo, certamente deixará de ser manipulada.)

Em segundo lugar, há uma dinâmica que joga na contramão de um processo de melhoria da qualidade de nossos parlamentares e ela se manifesta antes mesmo das eleições, ainda que seu objetivo seja o da montagem de uma bancada e de uma correlação de forças políticas que pese nos momentos de negociações interpartidárias. Os interesses de todos e de cada uma das agremiações dos democratas aos petistas, passando pelos peessedebistas coincidem no sentido de amealharem o máximo possível de eleitos. E, não importa aqui que isso seja feito de maneira direta ou indireta, através de aliados. Não há hipótese de candidaturas individuais que não tenham passado pelo crivo das direções, das convenções partidárias. Reverso da moeda, devemos registrar o pouco apreço com que parcela significativa de nossos parlamentares lida com a responsabilidade de representar a população.

Não por acaso, quando o candidato que se assume como palhaço pergunta “o que faz o deputado estadual”, ele provavelmente sabe, por antecipação, que essa é a mesma pergunta de parte substantiva da população. Como prova, uma pesquisa, bastante recente, feita em Araraquara, SP, pelo Instituto DataPress deixou claro que cerca de 60% dos eleitores do município simplesmente não sabiam para que servem os deputados. Nesse contexto, podemos admitir que a presença de um candidato como Tiririca certamente depõe contra nossas eleições. Não porque ele é o que é. Mas sim porque a própria possibilidade de sua candidatura (um direito, diga-se de passagem) e de sua eventual vitória expressam simbolicamente a realidade das Assembléias Legislativas e do Congresso. E, se essa é uma hipótese plausível, sua campanha assume também a forma de uma denúncia. Afinal, caso eleito, “pior não fica”. No horizonte, no limite do humor negro, nas fronteiras de um marketing que mexe com o imaginário social, ao mesmo tempo em que retira dele sua energia, a expectativa otimista: ele promete contar o que faz um deputado. Quem sabe, assim, ele se diferencie.






Fontes das fotos:

Blog Muqui Quintessência http://muqui.wordpress.com/2009/01/20/animais-incriveis-final/
Governo do Paraná: diaadia.pr.gov.br
Softwre Livre Brasil:softwarelivre.org
Meu Pernambuco: meupernambuco.blogspot.com

domingo, 22 de agosto de 2010

E no domingo, o assassinato



por José dos Reis Santos Filho


No sétimo dia, as tensões, o estresse, deveriam encontrar refúgio. Ao contrário, as análises disponíveis informam ser o domingo um dia propício ao assassinato. No município de São Paulo, concorre com as noites de quarta-feira. Para esses acontecimentos, as hipóteses explicativas estão próximas do senso comum. São momentos em que as pessoas estão mais vulneráveis. As multidões cotidianas estão recolhidas. O policiamento ostensivo perde, em parte, sua visibilidade. Em caso de festas ou jogos, o álcool ou, mesmo, as drogas, fragilizam o discernimento. Um acerto de contas, um roubo mal sucedido, um desentendimento, uma razão passional, tudo pode levar ao homicídio. Os meios, uma arma de fogo, uma faca ou, simplesmente, a força física.

Cada um e todos esses elementos estão acessíveis nos bancos de dados das polícias. Em detalhes, diga-se de passagem. Autores, vítimas, ruas, bairros, horários, motivos aparentes, tipos de armas são, entre outras, informações colhidas no momento mesmo em que a ocorrência é registrada. Logo, são digitalizadas e disponibilizadas internamente. Em tese, é um processo que permite agilidade e operacionalidade na busca por suspeitos. Em tese, também, cria as condições para um planejamento que potencializa a tarefa policial. Sugere a existência de bairros com maior ou menor periculosidade, identifica perfis de criminalidade cruzando territórios e horários, sinaliza aumento ou diminuição de casos. Enfim, é instrumento fundamental para a contenção do ato ilícito. E, se isso é verdade, porque seus resultados ainda parecem irrisórios à opinião pública? Falta de inteligência não é, podemos apostar. É provável que os principais obstáculos estejam em uma cultura corporativa sedimentada e em uma questão conceitual com efeitos de políticas públicas.

Quanto ao primeiro ponto, esses são dados ainda submetidos a um segredo que só se explica por medo da crítica. É como se essa fosse uma questão ligada a personalidades e interesses político-partidários. Na verdade, é problema de opinião pública, de cidadania e deveria estar sendo debatido em profundidade em todo tecido social.

No que diz respeito à questão conceitual, ainda se está muito preso à percepção de que esses são eventos que dizem respeito apenas à polícia. No limite, quando se fala em trabalho integrado, o que se busca é uma articulação entre níveis de administração do poder de polícia. De fato, isso é progresso, considerado o autismo vigente nesta área até poucos anos. Ocorre que a integração, aqui, para produzir efeitos de profilaxia e contenção, precisa ser muito mais ampla. Reivindica articulação com setores como a assistência social, a saúde, a educação, a cultura e o esporte. Mas também a fazenda, a habitação e o desenvolvimento urbano e ambiental. Aliás, temos idéia de quantos municípios orientam suas ações na área da segurança considerando seus Planos Diretores? No cerne da questão conceitual, portanto, o município é esquecido como entidade federativa à qual caberia responsabilidade para levar a sério a idéia de integração na elaboração e execução de planos de segurança.