As conferências nacional, estaduais e municipais devem ser vistas como uma oportunidade de fazer com que os poderes executivos e legislativos de todo o país e, em especial, o Ministério da Cidade, assimilem demandas expressas pela sociedade civil organizada. São, ainda, momentos em que a administração pública e os segmentos sociais têm uma oportunidade exemplar de lidar com perspectivas nem sempre reconhecidas, já que portadoras de linguagens e urgências singulares. São, finalmente, espaços de um processo lento, mas consistente de construção de uma identidade que articula diferenças em torno de projetos de cidades.
Em Araraquara, a IVª Conferência da Cidade talvez tenha conseguido alcançar esses objetivos e avançar em outros dois: dar início a um processo público de sedimentação de uma memória das lutas pela cidade e organizar um conjunto de orientações para a elaboração de uma Política de Desenvolvimento Urbano que vá além dos programas político partidários em disputa durante os períodos eleitorais.
No primeiro caso, o ponto alto ficou por conta de um painel organizado com a participação do geógrafo Alcyr Azzoni, do arquiteto Francisco José Santoro e do químico, ex-vereador Aerovaldo Del’Acqua. Seus relatos estiveram pautados por um saber conquistado através de competências específicas e experiências vividas em lutas vencidas ou perdidas desde a década de sessenta. De fato, esses pioneiros nas questões urbanas e ambientais araraquarenses veicularam informações que subverteram mitos, contribuiram para a compreensão da paisagem atual da cidade e mostraram razões para lacunas pouco admissíveis em nosso ambiente urbano.
No segundo, os resultados das discussões em quatro grupos de trabalho, uma vez discutidos e aprovados em plenária, podem ser entendidos como orientadores de uma política urbana e meio ambiental consistente para os próximos anos. A começar pela definição das questões relativas às crianças, adolescentes e jovens como referência orçamentária prioritária. Depois, a lembrança da necessidade de um conselho da cidade que envolva os mais amplos segmentos constitutivos de nossa sociedade. Em seguida, a importância de instrumentos de informação e manipulação de dados que ajudem a compreender o município. Não menos apoiada, a prooposta de uma legislação que penalize o administrador público que não seguir o estabelecido pelo Plano Diretor e toda a legislação referente ao urbano.
Tampouco foi esquecido o campo de problemas relacionado ao saneamento básico. Está presente através de uma clara preocupação com o cuidado com as águas e com a coleta seletiva. Da mesma forma, as questões relativas à mobilidade e à acessibilidade foram mencionadas e os direitos dos pedestres e ciclistas não foram esquecidos apesar da atenção ao transporte coletivo.
Esses e alguns outros temas foram debatidos em um clima em que as diferenças políticas não serviram de obstáculos intransponíveis. É verdade que, em algumas ocasiões, alguns poucos estiveram mais preocupados com quem se expressava que com o quê se dizia. Mas esse foi um traço marginal. No substantivo, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano, ao lado das dezenas de participantes presentes ao evento, protagonizaram um exercício significativo de democracia. E isso é perceptível até na lista de delegados escolhidos para participarem na Conferência Estadual. O espectro, ali, é arco-íris.