Por José dos Reis Santos Filho
Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto de Pesquisas Vox Populi arriscou um prognóstico sobre o resultado das eleições presidenciais. Em opinião divulgada neste último dia 23, sugeriu que os votos válidos estariam distribuídos de forma a que Marina Silva ficaria com algo em torno de 11%, José Serra, com cerca de 33% e Dilma Rousseff próxima dos 56%. É especulação? É! Mas o responsável por ela é um dos maiores especialistas em pesquisas de opinião pública no país. É verdade que desconsidera os efeitos do debate mais aguardado, o da Rede Globo de Televisão e dos eventos que serão produzidos no último dia da campanha. Como se sabe, sair-se bem ou mal no debate com maior audiência faz diferença. Da mesma forma, é imprevisível o que a imprensa plantará para digestão da opinião pública depois que o PT, Lula e Dilma já não dispuserem de horário eleitoral gratuito para se defenderem.
Imaginemos, no entanto, que a tendência se confirme e o resultado seja próximo ao que Coimbra está prevendo. Contra a corrente, talvez conviesse ler os resultados evitando a ótica da vitória e sinalizando aquela das perdas.
Se observarmos dessa forma, o grande perdedor do processo eleitoral seria Serra e, com ele, o PSDB, o DEM e o PPS. Não importa que cheguem em segundo lugar. Para utilizar uma expressão já pertencente ao vocabulário desta campanha, se trataria de uma derrota melancólica. Do ponto de vista pessoal, um candidato que se desenhou como “a certeza”, portador do “melhor currículo” em confronto com uma mulher “desconhecida”, sem “experiência eleitoral”, “criatura artificial”, a perda é retumbante. Do ângulo político, sua candidatura e a derrota teriam provocado a desarticulação de uma oposição que, já sem discurso, apareceria em frangalhos e disposta à dispersão.
O médio perdedor seria o PT e sua candidata, Dilma Roussef. Levariam a presidência e, provavelmente um excelente balaio de votos, mas carregariam peso agregado proveniente da quantidade de indícios de crimes que gira em volta da candidata e de seu partido. O “erenicegate” para mencionar apenas um deles, já colou na pele da ex-ministra, da mesma forma como o mensalão colou em Lula e no PT. Na mesma linha, ao cair na provocação da imprensa ligada ao tucanato e reagir de forma histriônica, supondo uma “excessiva liberdade” para a mídia, Dilma, Lula e o PT deram coesão a um campo de oposição que, em provável governo dilmista, terá mais força que o leque partidário derrotado com Serra. Se Lula não teve unanimidade, Dilma dificilmente poderá sequer sonhar com tranqüilidade.
O pequeno derrotado seria o PV e sua candidata, Marina Silva. Sua campanha foi carregada de ambigüidades. Na piada de José Simão, só faltou proposta de plebiscito para aprovação da maquiagem preparada especialmente para a candidata. Ainda assim, aproveitou-se do vazio criado pela incapacidade de Serra em apresentar-se como oposição viável e firmou-se como uma terceira via em processo de construção. Seu crescimento recente sinaliza que rompeu com a síndrome do candidato nanico e, ao contrário do imaginado por Lula, romperá a barreira dos 10%. Cria um horizonte capaz de colocar o Partido Verde e Marina em uma disjuntiva que os obrigará a escolher entre tornarem-se referência para uma nova oposição ou um contrapeso à influência do PMDB em um próximo governo.
Entre pequenos, médios e grandes perdedores, talvez conviesse um capítulo à parte para o significado destas eleições para a consolidação de nossa democracia. Mas isso é um capítulo à parte.
Publicado em A Gazeta de Araraquara
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