segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Marina: o moderno e o conservador



Por  José dos Reis Santos Filho


Fechadas as urnas do primeiro turno, Marina Silva e o PV confirmaram um desempenho em que perderam ganhando. Firmaram-se no vazio criado pela incapacidade de Serra em apresentar-se como oposição viável. O crescimento sinaliza que pode ter rompido com a síndrome do candidato nanico. Ao contrário do esperado por Lula, superou a marca plebiscitária que imaginava para o pleito. Mais: fez de Marina a grande personagem do segundo turno. Ao captar cerca de um quinto do eleitorado nacional, será cortejada por todos. Ela e o PV criaram as condições para uma terceira via em processo de construção

Em um primeiro momento, foi fácil notar que sua campanha foi carregada de ambigüidades. Na piada de José Simão, só faltou proposta de plebiscito para aprovação da maquiagem preparada especialmente para a candidata. Foi um comportamento que suscitou dúvidas pertinentes em um eleitorado mais crítico e antenado nos acontecimentos. No correr do processo, tornou-se preocupação. Hoje, frente aos resultados, algumas aproximações podem ser apresentadas.

É verdade que o grande tema da campanha de 2010 é a continuidade. Ainda assim, o período Lula, principalmente seu segundo mandato, trouxe para o debate nacional alguns temas que mexem com as mentalidades e possuem profundo significado em termos de valores. A apresentação do III° Plano Nacional para os Direitos Humanos serviu de elemento catalisador de um enfrentamento que estava latente há algum tempo.

É verdade que, no que há de mais nuclear, não há nada de diferente daquilo que Fernando Henrique Cardoso apresentou ao Congresso, quando, pela primeira vez, essa preocupação tornou-se objeto de atenção governamental. De qualquer forma, por vários motivos, mobilizou segmentos expressivos da sociedade civil organizada. Parte dos atores já era conhecida como adversários políticos de longa data. Os ruralistas, por exemplo, e sua fobia ao movimento dos sem terra e à defesa do eco-sistema. Outra parte, já comprometida com a candidatura da oposição, viu ameaças onde não havia. Assim, ao contrário daquilo que argumentou a grande mídia nacional, em nenhum lugar do Plano há qualquer ataque à liberdade de expressão e à imprensa. Outra parte, finalmente, ainda que satisfeita com o desenvolvimento social e econômico sob responsabilidade do governo Lula, sentiu-se confrontada em pontos nos quais a extensão das liberdades individuais e de fórum íntimo estava envolvida. Estão entre esses pontos a descriminalização da droga, a adoção de crianças por casais do mesmo sexo, o uso de células-tronco de embriões em pesquisa, a união estável entre pessoas do mesmo sexo. E, sobretudo, a descriminalização do aborto.

Se Serra já se apresentava como expressão das bandeiras ruralistas e dono da simpatia das grandes organizações de mídia, Marina capitalizou e alimentou o descontentamento daqueles que se sentiam atingidos em sua religiosidade, em seus conceitos morais particulares por expressões universais de direitos. Ao ir, eleitoralmente ou programaticamente, não importa aqui, ao encontro desses setores da sociedade, a ambigüidade da candidata se sedimentou em uma fórmula cuja resolução ainda não pode ser visualizada com clareza. Tomado o campo dos direitos como referência, é atual, moderna, quando remete à preservação do ambiente, à sustentabilidade. É atrasada, conservadora, quando se manifesta no terreno das liberdades individuais.

O tempo dirá se o PV se adaptará a essa possibilidade aberta pelas eleições. Se irá na contramão de seus congêneres europeus ou se fará conviver uma militância de esquerda ecológica com uma direita fundamentalista. Até lá, Marina é peso pesado no segundo turno.




Um comentário:

Juliano Machado disse...

Caro Reis, gostaria de saber qual a margem, também, dos eleitores que votaram em Marina como essa terceira via, mas mais aferrados a uma idéia de opção contra o que Serra representa junto com o PSDB e a frustração daqueles que votaram no PT durante a consolidação da figura de Lula e do partido como uma mudança ética na política?