segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Tiririca, palhaço e representante do povo no Congresso?



por José dos Reis Santos Filho


Em entrevista, o jornalista Roberto Schiavon, do jornal Tribuna Impressa, de Araraquara, SP, quis saber minha opinião sobre o lançamento de “candidatos pitorescos nestas eleições, como Ronaldo Esper, Maguila, Kléber Bambam, Mulher Pêra e Mulher Melão”. Chamou atenção especial para Tiririca que, em sua primeira aparição no programa eleitoral gratuito pergunta explicitamente ao telespectador se ele “sabe o que faz um deputado estadual”, algo que nem ele, candidato, sabe. E, a guisa de justificativa, de forma imperativa sugere que o eleitor vote nele. Uma vez na Assembléia Legislativa, ele contaria o que fazem os eleitos. E termina dizendo: "Vote em Tiririca. Pior do que está não fica".

A questão fundamental colocada por Schiavon seria, então, se este tipo de candidatura não deporia contra o processo eleitoral. Afinal, o político já é desacreditado e candidaturas dessa natureza poderiam piorar o quadro.

Sugiro que personagens como esses não são típicos apenas de nossa realidade, de nosso tempo histórico. De formas eventualmente mais esparsas e em menor volume, ocorrem em países com tradições de democracia representativa. Um dos casos de grande repercussão internacional foi a eleição de Cicciolina para o Parlamento Italiano, em 1987. Com uma trajetória pessoal marcada pela indústria pornográfica e pelo show business, sua campanha tornou seus seios muito mais conhecidos que suas idéias. Cada sessão parlamentar em que participou tinha como atração menos os assuntos de pauta que a aparição da personagem. Talvez sua proposta mais intrigante tenha sido a de dormir com o ex-ditador Sadam Husseim em troca da libertação de reféns supostamente sob sua responsabilidade.



No caso específico do Brasil, não é de hoje que personagens alheios à política como vocação são propostos em eleições. Um caso típico, com verbete na Wikipédia e pesquisas acadêmicas reconhecidas, foi o de Cacareco, “um rinoceronte do Zoológico de São Paulo que, nas eleições de outubro de 1958, para vereador da cidade, ganhou cerca de 100 mil votos”. Foi fenômeno inusitado porque sua candidatura foi propositalmente lançada e propagada como voto de protesto. A idéia de lançar o animal como candidato teria sido do jornalista Itaboraí Martins, “em protesto contra o baixo nível dos outros 450 concorrentes”. É, de longe, “um dos mais famosos casos de voto nulo em massa da história da política brasileira”..

Tomados como um todo, dificilmente os candidatos “pitorescos” que se apresentam nas eleições atuais poderiam ser considerados candidatos de protesto. Nas aparições que fazem, de alguma maneira buscam traduzir suas inserções na linguagem, nos gestos e, mesmo, nos rituais que são comuns ao establishment. Esses personagens parecem ser expressões de um mesmo fenômeno: a curta idade de nossa democracia.

Ainda presenciamos as dificuldades com que a população e os partidos manipulam o significado de democracia participativa. No primeiro caso, temos que levar em consideração que recém começamos a ver a sociedade civil organizada se preparando para acompanhar de perto o processo eleitoral. É verdade que organizações como o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), uma instituição financiada por entidades sindicais, acompanha e divulga há mais de vinte anos o compromisso dos parlamentares com os interesses dos trabalhadores. É verdade também que organizações não governamentais como a Transparência Brasil estão contribuindo de forma substantiva com a fiscalização do uso que se faz do dinheiro público. É indiscutível ainda a importância de iniciativas populares como a que resultou no projeto “ficha limpa” São empreendimentos, no entanto, que não parecem chegar ao grosso dos eleitores e, portanto, agregam relativamente pouco na constituição de uma opinião pública suficientemente crítica. Uma opinião pública, diga-se de passagem, cuja formação é mediada por empresas com interesses econômicos, políticos e ideológicos que se manifestam de maneira indubitável nos processos eleitorais.

(Há, não obstante problemas como estes, lugar para otimismo em nosso horizonte. É uma opinião pública em desenvolvimento e, acreditamos, de forma robusta. E isso, talvez, principalmente, devido a dois fatores que mereceriam análises. Em primeiro lugar, com todas as críticas possíveis e imagináveis à qualidade de nossa educação, estamos melhorando o grau de educação de nosso povo. Talvez sejam estas as eleições com menor participação do segmento “analfabeto” em toda nossa história. Em segundo lugar, desde 1988, as questões ligadas à cidadania ocupam parte substantiva de nossas demandas. Essa é uma palavra que veio para ficar e, no longo prazo, certamente deixará de ser manipulada.)

Em segundo lugar, há uma dinâmica que joga na contramão de um processo de melhoria da qualidade de nossos parlamentares e ela se manifesta antes mesmo das eleições, ainda que seu objetivo seja o da montagem de uma bancada e de uma correlação de forças políticas que pese nos momentos de negociações interpartidárias. Os interesses de todos e de cada uma das agremiações dos democratas aos petistas, passando pelos peessedebistas coincidem no sentido de amealharem o máximo possível de eleitos. E, não importa aqui que isso seja feito de maneira direta ou indireta, através de aliados. Não há hipótese de candidaturas individuais que não tenham passado pelo crivo das direções, das convenções partidárias. Reverso da moeda, devemos registrar o pouco apreço com que parcela significativa de nossos parlamentares lida com a responsabilidade de representar a população.

Não por acaso, quando o candidato que se assume como palhaço pergunta “o que faz o deputado estadual”, ele provavelmente sabe, por antecipação, que essa é a mesma pergunta de parte substantiva da população. Como prova, uma pesquisa, bastante recente, feita em Araraquara, SP, pelo Instituto DataPress deixou claro que cerca de 60% dos eleitores do município simplesmente não sabiam para que servem os deputados. Nesse contexto, podemos admitir que a presença de um candidato como Tiririca certamente depõe contra nossas eleições. Não porque ele é o que é. Mas sim porque a própria possibilidade de sua candidatura (um direito, diga-se de passagem) e de sua eventual vitória expressam simbolicamente a realidade das Assembléias Legislativas e do Congresso. E, se essa é uma hipótese plausível, sua campanha assume também a forma de uma denúncia. Afinal, caso eleito, “pior não fica”. No horizonte, no limite do humor negro, nas fronteiras de um marketing que mexe com o imaginário social, ao mesmo tempo em que retira dele sua energia, a expectativa otimista: ele promete contar o que faz um deputado. Quem sabe, assim, ele se diferencie.






Fontes das fotos:

Blog Muqui Quintessência http://muqui.wordpress.com/2009/01/20/animais-incriveis-final/
Governo do Paraná: diaadia.pr.gov.br
Softwre Livre Brasil:softwarelivre.org
Meu Pernambuco: meupernambuco.blogspot.com

Um comentário:

Anônimo disse...

Anote aí, este será eleito com folga bastante nas urnas, porque o povo gosta de se manifestar de um jeito ou de outro, e essa candidatura do Tiririca veio a calhar, pior que tá não FICA, kkkkkkkkkkkkkkkk