por José dos Reis Santos Filho
A “novidade” Tiririca chegou aos jornais de grande circulação. É assunto na Folha de São Paulo. Em suas páginas, espaço ao candidato, em entrevista. Nela, o aspirante a parlamentar informa que mantém uma assessoria funcionando como retaguarda. Assume, no entanto, sem que saibamos se é piada ou na, que consulta sua mãe para assuntos como o lançamento de sua candidatura. Repete ser verdade que não conhece “nada” sobre a atividade de um deputado. Tem certeza, no entanto, que, “tando lá”, vai “passar a conhecer”. Admite ainda que não sabe explicar a Câmara. Mas diz também que não fez piada. “É a realidade”. Caso eleito, “pior do que ta não fica”.
Ainda assim, aparentemente, se distancia de um mandato que o (re) produza como palhaço. A acontecer, o público conhecerá Tiririca como civil, sem o uniforme. Algo a ser acompanhado de uma atuação que o mostrará “entrando de cabeça, de coração”. Está “querendo faze alguma coisa.” Afinal, é “bem resolvido” em sua profissão. Tem a “vida feita”.
Essa é uma entrevista que (re) afirma uma hipótese levantada por nós em resposta a Roberto Schiavon, jornalista de A Tribuna Impressa, de Araraquara, SP. Na ocasião (ver postagem em esquinasequarteiroes), dizíamos existir uma identificação entre aquilo que Tiririca dizia e a percepção dos eleitores em relação aos problemas da representação democrática. E baseávamos tal afirmação em dados disponíveis sobre um dos mais importantes municípios da região central de São Paulo.
Assim é que, conforme dados recentes levantados por nós, todos com fontes em trabalhos de autoria do Instituto DataPress, 59,53% da população de Araraquara não sabe o que fazem os deputados. Pior, indo além: entre aqueles que dizem saber (40,77%), apenas 8,9% nos dão como respostas diretas que legislar e fiscalizar são as principais tarefas de um dos poderes fundamentais da República. Ao acrescentarmos a esse segmento aqueles que nos fazem entender que “criar leis/projetos para o povo” (22,55%) e “representar a cidade e a região” (10,4%) são de responsabilidade parlamentar, concluiremos que, efetivamente, apenas 21,75% dos eleitores do município sabem realmente o que devem fazer nossos representantes. Isso significa que, dos 141.902 eleitores da cidade, menos de 31 mil efetivamente reconhecem as tarefas constitucionalmente atribuídas aos membros do Legislativo. Esse é o contexto que permite a Tiririca o que talvez já possa ser qualificado como a melhor jogada de marketing político das eleições de 2010. Entre o pólo produtor da mensagem e seu pólo receptor, há um referencial interativo que, para além dos meios técnicos, radiofônicos ou televisivos, não importa, sustenta e permeia a própria credibilidade do que é dito. A percepção das palavras de Tiririca não encontrariam a mínima ressonância se não houvesse por parte da população um profundo desconhecimento do significado da atividade legislativo. E há quilos de pesquisas acadêmicas que sinalizam, de forma contundente e por vieses teóricos diferenciados, essa ausência. A questão resume-se, então, em saber se devemos matar politicamente o mensageiro.
Fontes das fotos:
alexandreterra.blogspot.com
paramudarobrasil.worldpress.com

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