segunda-feira, 26 de julho de 2010

O rabo tem que estar preso com o eleitor



Por      José dos Reis Santos Filho


'...é hora de perguntar: que sociedade queremos? [...] afinal de contas,
quais são os valores que queremos preservar. [...]
A mídia, a grande mídia, sob a consigna da liberdade de expressão
trata de impedir que se desenvolva o verdadeiro
debate sobre o Brasil ou sobre os temas que afligem a humanidade [...]
Tudo está sendo feito para que a sociedade se transforme em uma
massa amorfa que não tem papel nenhum a desempenhar na projeção de seu próprio destino...'
Luiz Gonzaga Belluzzo
Revista Cult.
Carta Maior, 24-07


A - Na quinta-feira, dia 22 de julho, a presidenciável do PT, ministra Dilma Roussef participou de uma sabatina na TV Record. Quatro repórteres a argüiram, levantaram questões de toda natureza, da política externa brasileira à copa de 2014, passando pelas posições do Movimento dos Sem Terra e às provocações do vice de Serra. Quem assistiu percebeu uma segurança tranqüilizadora ainda manifesta sob dificuldades no lidar com a mídia. Prato cheio para quem quer que deseje alimento para uma boa discussão sobre os projetos de Dilma. Abre-se a Folha de São Paulo de sexta, dia 23 e o que se observa é uma lacuna extraordinária na cobertura do evento. Zero de aparição. Nada de notícias, nada de análises, nada de reflexões. Em seu lugar, um jogo editorial em que fica difícil sustentar a aclamada neutralidade daquela mídia.

          De fato, são sete as matérias diretamente vinculadas à polarização em que tendem a se tornas as eleições de outubro. Nenhuma delas efetivamente ligada a um debate sobre o país. Vamos a elas:

B - Duas daquelas matérias poderiam ser admitidas como preocupadas com a licitude dos candidatos e a integridade ética da campanha.

          Na primeira, a notícia de “omissão”, por parte do tesoureiro da campanha do PT, de empresa na declaração feita à Justiça Eleitoral. Na segunda, a admissão, pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, de falha na indicação, pelo DEM, de um bandido bem sucedido, mas preso, a um posto de Deputado. Entre uma e outra, uma diferença. Vejamos, em primeiro lugar, as passagens:


1 - Tesoureiro de Dilma omite empresa da Justiça Eleitoral
                                                     Outro lado: Petista diz ter havido falha, mas não má-fé, e alega que fará retificação
                         2 - Kassab admite falha do DEM e diz que candidato preso será expulso.


          Na primeira, aquela que envolve o PT, o reconhecimento de falha e anúncio de retificação é veiculada de forma, no mínimo, problemática. É precedida de uma manchete acusatória e indutora de suspeita. A opinião do envolvido é colocada na forma de “o outro lado”. Além disso, as palavras usadas projetam uma ambigüidade. Fulano “diz que” e beltrano “alega” são expressões que, nas frases e, em geral, na linguagem cotidiana, emprestam significados carregados de ambigüidade. Ainda que possam sugerir uma alusão distanciada à manifestação do interessado, como, de resto, é monótona e abusivamente utilizada pelas chamadas da Folha, podem ser indicativos de dúvida, de desconfiança. O verbo “admitir” usado na segunda matéria sugere um reconhecimento que não dá lugar a suspeitas de veracidade. Nesse sentido, ainda que remetendo a uma falha, é positivo. A primeira notícia é, portanto, diferente da outra. No enunciado veiculado a Kassab, ele próprio é o transmissor de uma informação divulgada na forma de manchete. Nela, o prefeito “admite” falha. Secundariamente, “diz que” o candidato será expulso.

          Entre o “admitir” da segunda notícia e o “diz que” da primeira, ambas aplicadas na admissão de responsabilidade (algo que os dois envolvidos fazem) estão em jogo imagens de atitudes bem diferenciadas. Na primeira, o tesoureiro, sujeito moral do ato, ainda que assuma a “falha” e defina seu papel nela, é colocado em dúvida. Na segunda, quando o prefeito aparece, a dúvida não é insinuada e o sujeito moral assume positivamente sua responsabilidade. Só então sua atitude torna-se equivalente à do petista.

          O “alegar” da segunda, ao ser aplicado a uma ação por vir, passa a ter o mesmo estatuto que o “diz que” da segunda, também referida a um ato por vir.. E isso faz sentido. Nos dois casos, são atitudes a serem realizadas no futuro. Correspondem a situações que podem ou não acontecer. Ainda assim, o “diz que” pronunciado em relação ao prefeito só entra em cena depois de uma demonstração de responsabilidade moral. É, portanto, um “diz que” cuja força de desconfiança foi neutralizada pelo adequado e moralmente positivo reconhecimento da responsabilidade sobre um ato ética e criminalmente condenável.

          Isso constatado, a pergunta do eleitor é: essa é a única maneira de veiculação de notícia jornalística? Ou há, na contramão do que anuncia o jornal, consciente ou inconsciente, dois pesos e duas medidas nas formas como os fatos chegam ao leitor?

C – Em outras duas manchetes internas, ainda na seção “Poder”, Dilma aparece na posição defensiva. Na primeira, responde negativamente sobre um eventual envolvimento seu no caso Eduardo Jorge. Vejamos como foi publicada:

              1 - EJ vai à Justiça para ter acesso a investigação.
          Dilma afirma que acusação é infundada.


          Na segunda, ainda que se manifeste positivamente, com uma postura crítica, a imagem transmitida é a de uma pessoa acuada. De uma candidata “perseguida”, que reclama da imprensa.


2 - Dilma critica a mídia por "julgamentos sem provas” .


          São aparições bastante diferentes daquelas em que o candidato Serra é colocado. Em ambas, o que importa é a construção pejorativa dos componentes da candidatura Dilma. No primeiro caso, do partido ao qual ela pertence. No segundo, de seu vice. Nos dois, a presença de mecanismos de atribuição de imagens estigmatizadas. Na primeira, a desqualificação de qualquer elemento positivo da agremiação através de sua redução a uma suposta “gula” pelo controle. Na segunda, a insinuação de transações pautadas pelo valor de troca de Michel Temer.


                         1 - Tucano diz que PT tem "gula infinita para controlar tudo".
2 - Vice de Dilma é "mercadoria", diz Serra


          Em ambas, a Folha reverbera, potencializando seu alcance, uma estratégia de campanha cujo efeito mais imediato é o aniquilamento de qualquer debate público em torno de projetos.

D – Um terceiro campo de notícias negativas em relação à candidata Dilma Roussef está presente. Dessa vez, no entanto, com um tema que possui, efetivamente, interesse público e importância para um debate em torno do futuro do país.


Bispo diz que Dilma é pró-aborto e prega boicote em missas.


          Aqui, a manchete desperta atenção imediata do leitor. Mas de forma a conquistá-lo, inclusive, pela maneira como é veiculada. O “diz que” é aplicado de forma neutra, tanto quanto nas afirmações atribuídas ao tucano e mencionadas mais acima. Não é usado de forma a insinuar ambigüidade, mas distanciamento. O jornal não se compromete com a afirmação. Ela é de responsabilidade de outrem. Faz parte da compreensão de um bispo da igreja católica que, em decorrência disso, reivindica implicitamente dos fiéis voto em candidatos (as) que não sejam favoráveis ao aborto. A candidatura de Dilma Roussef que se posicione sobre o assunto. Ponto!

E – Em um quarto momento, a Folha também veicula de forma absolutamente correta, objetiva, o reconhecimento, na justiça, de um direito de resposta do petismo às acusações feitas pelo vice-candidato da chapa do candidato José Serra:


PT terá direito de resposta contra Indio.


          É certo que poderia ter optado pela introdução da expressão vitória no texto. Permaneceria a objetividade já que é esse o significado em uma disputa judicial em que o contraditório faz parte do jogo. Mas, definitivamente, a fórmula encontrada é a mais neutra possível e o leitor agradece.

E – Qual o pano de fundo da ida do PT aos tribunais? Aparentemente, a luta pelas representações imagéticas dos candidatos. De fato, nos últimos dias a campanha do PSDB para o governo federal optou, aparentemente em definitivo, à criação de factóides com a finalidade de reconstruir a imagem da candidata Dilma Roussef, de seu partido, enfim, de tudo o que diga respeito às suas possibilidades de vitória. Cabe ao candidato a vice de José Serra o papel de principal “bate estaca”.

          Em uma de suas últimas investidas, atribuiu à candidata do PT uma relação com a organização criminosa Comando Vermelho. A forma como conclui pela existência dessa relação é feita com base em premissas cujas provas não oferece. Delas, deduz conclusões que não resistem senão como falácias. Assim,


                    1 – O PT (supostamente) tem relações com as FARC (grupo
guerrilheiro colombiano);
2 – As FARC (supostamente) têm relação com o
narcotráfico (colombiano);
3 – O narcotráfico colombiano (supostamente) tem conexões com a organização criminosa
Comando Vermelho (atuante no Rio de Janeiro);
         4 – Em conclusão, o PT seria (supostamente) responsável pela “guerrilha urbana alucinada” na
cidade do Rio de Janeiro “por conta do narcotráfico”.
               5 – Por isso existiria cumplicidade da candidata Dilma Roussef, que “tem que dizer o que ela acha”.
“Se ela acha que tem problema ou não essa relação”.

          Na leitura de Josias de Souza (de cujo blog foram retiradas as citações entre aspas e o exemplo), “a essa altura, as tempestades de Índio já não podem ser caracterizadas como espasmos ocasionais e esparsos”. O comportamento do vice de José Serra conferiria a seus ataques “uma aparência de estratégia. Coisa estudada, em combinação com o morubixaba da chapa”. Uma “aposta arriscada”, segundo o jornalista: “típica de quem já leva a sucessão em ritmo de tudo ou nada”.

          É provável que Josias tenha razão. E, se isso é plausível, uma questão que nos importa em definitivo é o papel a ser desempenhado pela imprensa. Permanecerá ela reduzida a uma caixa de ressonância das campanhas, ou assumirá um papel de espaço público cuja vocação é a informação e a reflexão crítica. Essa segunda alternativa é a de uma mídia com rabo preso com o eleitor.


Fotos:  Candidata à presidência Dilma Rousseff  Rede Record: 22/07/2010. Breno Fortes/CB/D.A  Press. Brasil. Brasília.
Ilustrações: Raposa tagarela: http://agente65.blogspot.com/2008_04_01_archive.html
                           Pinoquio: http://www.google.com/imgres?imgurl=http://www.entrelinhas.info/wp
                           Mídia 1: http://cachacaaraci.wordpress.com/
                           Mídia 2: http://www.seubrasil.blogspot.com

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