sexta-feira, 2 de abril de 2010

O governo Lula não existiu.

E tampouco existiu o de FHC. No rigor, a inexistência de um ou outro governo depende da perspectiva imposta pela distorção do passado. É tarefa de revisão da história. Exemplo disso é o mercado de análises que fazem das iniciativas do governo Lula bagatela desprezível. Ele cresce à medida que aumenta, entre os petistas, a desqualificação das medidas tomadas pelo PSDB no período anterior.
Assim são as afirmações segundo as quais as “causas (mais importantes) do sucesso brasileiro nos últimos anos” estariam na “continuidade” das políticas monetária, fiscal e cambial. Assim são também as leituras que debitam o surgimento de uma nova classe média nas “mudanças demográficas que ocorreram em meados da década de 80”. Ou, ainda, as que estabelecem, na origem dos novos segmentos sociais, “a globalização, que ganhou força há duas décadas”.
São apostas que negligenciam o óbvio: o governo federal atua até por inércia. Impossível menosprezar o papel do governo Lula. Tanto quanto é realmente missão carregada de leviandade ignorar o desempenho do período FHC. São “verdades” que só explicam muito parcialmente o que aconteceu na história recente do país. Dizem-nos que a reflexão reivindica sofisticação capaz de incluir um universo de variáveis cujo peso e importâncias ainda não estão suficientemente esclarecidos. Dizem-nos também que PT e PSDB estão envolvidos em uma desqualificação do outro cuja reciprocidade impede qualquer avaliação objetiva de erros e sucessos cometidos por um e outro governo.
Ao procederem dessa forma, os dois partidos atuam no quadro daquilo que uma dupla de psicólogos suíços denominou de síndrome da imagem inimiga. Em situações como esta, os Spillmanns entrevêem que a percepção do outro é determinada exclusivamente por predicados negativos. É uma predicação eminentemente subjetiva e “profundamente enraizada no não-racional". Sua lógica reduz-se ao "processamento de informações a serviço da sobrevivência".

Nos primórdios da hominização, a construção da imagem inimiga era garantia a sobrevivência evolutiva do indivíduo e da espécie. Hoje, sua utilização é anacrônica e sinaliza uma ancoragem em "mecanismos arcaicos de defesa". Mais que isso: deixa de lado complexos problemas éticos incorporados ao estoque de valores que são parte constitutiva de nosso desenvolvimento.
Colocada como problema a ser enfrentado, a síndrome da imagem inimiga obriga conhecer as implicações emocionais e cognitivas das estratégias eleitorais. Reconhecer que as lógicas adotadas implicam na infantilização de atores e processo. Elas abrigam uma regressão a padrões anacrônicos de comportamento emocional. Sugerem a dissolução de matrizes diferenciadas de percepção e comportamento.

Superar esse estágio signifique localizar as “convergências virtuosas” (a expressão é de L.C. Mendonça de Barros) existentes entre as duas agremiações. Dar visibilidade a elas em um debate que permitiria ao eleitor reconhecer propostas que, diferenciadas, teriam a história como ponto de apoio. Dar-se-ia ao cidadão, capacidade para reindividuar dois partidos que, no momento, se esforçam para aparecerem como farinha do mesmo saco.



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