Os comentários estão em muitos cantos. Na mídia, certamente, em parte significativa do planeta. No país, há artigos e opiniões manifestas em todos os jornais. Na maioria, são pautadas por militância antiga. Algumas, no entanto, usam a situação como janela de oportunidade para fustigar o presidente e, no varejo, sua candidata, seu partido. E isso, agora e para o futuro, não nos importa um caracol. Ao ignorar os apelos por uma posição em favor dos presos políticos em Cuba e, dias depois, chama-los de bandidos, Lula pediu por isso.
É certo que não existe no país uma tradição forte de combate às ofensas contra os direitos humanos. A começar por casa. A cada ano, mesmo depois de instaurada a Constituição de 1988, as agências nacionais e internacionais que acompanham o progresso do respeito à pessoa humana entre nossas fronteiras produzem relatórios contundentes. Deles, não escapam estados. De norte a sul, de leste a oeste, com maior ou menor gravidade, os exemplos são abundantes. De uma forma ou de outra, neles, estão envolvidos governantes de todas as cores, de todos os credos. Em cada um deles, os rituais que negam ou empurram soluções para o dia em que a reta fará curva são (re) conhecidos à náusea.
É verdade também que as palavras do presidente são funcionais em vários sentidos. Em primeiro lugar, já adiantamos, porque ajudam no palanque. Mas também nos fazem esquecer a existência, no Congresso, de um projeto que visa à implantação do III° Plano Nacional de Direitos Humanos. De fato, muitas das vozes que hoje levantam – com razão – um protesto contra as opiniões de Lula em favor da repressão política em Cuba, são as mesmas que, algumas semanas atrás, transformaram a proposta em coisa do demônio. Longe, Cuba oferece uma oportunidade de sublimação. Compensemos a negligência com nossas vítimas vociferando forte a favor das vítimas dos outros.
Se esses são elementos que contextualizam parte das críticas que presenciamos contra Lula, Celso Amorim e outros membros do governo, não justificam em nada a atitude do governo. É uma postura em que o cálculo é o da razão de Estado. Trabalha com o critério do custo/benefício na relação que mantém com Cuba, com o que imagina ser o processo de transição adequado para aquele país e, provavelmente, com o peso a ser dado pela questão dos direitos humanos nesse caminho. Ocorre que, em relação a valores, especialmente quando estão em jogo aqueles que protegem o homem, ou o presente os leva em consideração ou o futuro estará comprometido.
Bobagem lembrar que Lula já esteve preso. Secundário apelar para uma trajetória em que a luta contra a ditadura esteve presente. Isso raras vezes funcionou para governantes. Não funcionará agora. A ocasião é, no entanto, propícia para que a discussão assuma toda sua plenitude. Precisamos deixar claro que somos contra a repressão política em Cuba. É fundamental fazer ouvir que somos favoráveis aos direitos de autodeterminação da população do Tibet. Insistir no fato de estarmos convencidos sobre a necessidade da universalização do acesso aos sistemas de saúde de milhares e milhares de americanos que ainda hoje reivindicam esse direito. Enfim, queremos o respeito pleno da Carta das Nações Unidas em todas as esquinas de todas as nações. E isso inclui, evidentemente, o Brasil.
E, se essas são reivindicações justas para um país que, como o nosso, vive a construção de um processo civilizatório, cabe a todos mostrar que esse é um valor que queremos para nosso cotidiano. Fazer com que não seja vendido, lá fora ou aqui, a troco de razões impostas pelos pequenos interesses. Fazer com que esteja tão presente em nossas vidas que não nos obrigue a pensar sobre sua conveniência. Que brote, em nossas ações, do fundo de nossas almas. De tal maneira que, amanhã, não precisemos chamar atenção do presidente para o assunto. Se isso acontecer, ele permanecerá sendo um estranho no ninho.
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