sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O nome disso é agressão, é violência.


por José dos Reis Santos Filho



A Unesp está na mídia há mais de quatro dias. E os motivos não têm nada relacionado a resultados de nossa vida acadêmica. Tampouco há qualquer motivo que nos leve a receber prêmios ou louros por conquistas em pesquisas. Somos objeto de atenção nas páginas policiais, nos autos, em investigações criminais, nas iniciativas de uma promotora e no repúdio da Ordem dos Advogados do Brasil. Tudo isso porque, em uma atividade extremamente importante para a sociabilidade estudantil, um grupo de meliantes, com cérebros movidos a miolo de pão e coca-cola, deixou de lado todos os quesitos de civilidade e agrediu física, emocional e simbolicamente jovens mulheres, colegas de uma mesma instituição universitária.

Há quem chame o acontecido de “brincadeira de mau gosto”. Não se aplica sequer como metáfora. O nome disso que chamaram de “rodeio das gordas” é pura e simplesmente agressão, violência. Em malta, de forma covarde e selvagem, aos risos, submeteram fisicamente, contra a vontade, pessoas do sexo feminino. Certamente não é por acaso o viés de gênero. Na ordem machista de ver o mundo, esse é um segmento pronto para manifestações dessa natureza. Mas o sofrimento público foi um ingrediente a mais. E a dor, aqui, não provém só de eventuais hematomas ou lesões perceptíveis a olho nu. Ela é também emocional e provém da humilhação e da vergonha que provoca. Não por acaso, pelo menos uma das vítimas tem dificuldades de ver-se novamente de volta às aulas. E, como se não bastasse, mexeram com estereótipos fortemente ancorados em nossa vida social. Filtram as pessoas através de estigmas que as distinguem como aceitáveis e não aceitáveis. Na situação, a mulher gorda é escolha quase que natural. Na imagem do “rodeio”, com que estamos lidando? Com “touros”, “novilhos” ou “vacas gordas”


Bobagem listar leis e artigos de leis que esses elementos infringiram. Superficial lembrar a forma como o Código de Ética da Unesp foi aviltado. Desnecessário mostrar como séculos de evolução civilizatória condensada nas Cartas de Direitos Humanos foram desprezados. Sabemos de tudo isso e não precisamos mencionar que a situação que ora vivemos é regressiva. Nos interessa, sobretudo, refletir sobre o acontecimento e apontar horizontes.

Em primeiro lugar, não temos dúvidas sobre a necessidade de uma medida exemplar no que diz respeito à punição. “Não queremos estabelecer um processo inquisitório", disse Ivan Esperança, vice-diretor da Faculdade de Ciências e Letras, do Campus de Assis da Unesp. Não, não queremos. Isso seria regressão, tanto quanto o comportamento dos responsáveis pelas agressões. Mas não se trata apenas de “ouvir os envolvidos”, como declarou o professor à Folha de São Paulo. Tal como parece estar em andamento, faz-se necessária uma investigação minuciosa que permita punição exemplar. Uma investigação cujo produto seja encaminhado às autoridades policiais e à promotoria. Mais: a universidade deve deixar claro que não admite procedimentos dessa natureza e que não devem ser repetidos. Mais ainda: deve ficar evidente que estamos claramente ao lado das vítimas, sem contemporizações.


 Em segundo lugar, não podemos considerar esse acontecimento como evento episódico.Ele é uma modalidade do muito que imaginamos existir cotidianamente. É urgente lidar com fatos que nos chegam na forma de comentários, boatos, denúncias anônimas e, ocasionalmente, como registros em boletins de ocorrência. Lidamos, nessas esferas, com o desassossego público, com o uso de drogas, com agressões físicas e desmandos, com roubos e furtos. Em cada caso e em todos os casos, a comunidade estudantil é afetada direta ou indiretamente por estranhos ao ambiente escolar ou por minorias endógenas. Em qualquer caso, é hora de abandonar o espanto e enfrentar o problema. Afinal, essa é, também, nossa tarefa.



Foto de Daniel Bergamasco/Folhapress


segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Marina: o moderno e o conservador



Por  José dos Reis Santos Filho


Fechadas as urnas do primeiro turno, Marina Silva e o PV confirmaram um desempenho em que perderam ganhando. Firmaram-se no vazio criado pela incapacidade de Serra em apresentar-se como oposição viável. O crescimento sinaliza que pode ter rompido com a síndrome do candidato nanico. Ao contrário do esperado por Lula, superou a marca plebiscitária que imaginava para o pleito. Mais: fez de Marina a grande personagem do segundo turno. Ao captar cerca de um quinto do eleitorado nacional, será cortejada por todos. Ela e o PV criaram as condições para uma terceira via em processo de construção

Em um primeiro momento, foi fácil notar que sua campanha foi carregada de ambigüidades. Na piada de José Simão, só faltou proposta de plebiscito para aprovação da maquiagem preparada especialmente para a candidata. Foi um comportamento que suscitou dúvidas pertinentes em um eleitorado mais crítico e antenado nos acontecimentos. No correr do processo, tornou-se preocupação. Hoje, frente aos resultados, algumas aproximações podem ser apresentadas.

É verdade que o grande tema da campanha de 2010 é a continuidade. Ainda assim, o período Lula, principalmente seu segundo mandato, trouxe para o debate nacional alguns temas que mexem com as mentalidades e possuem profundo significado em termos de valores. A apresentação do III° Plano Nacional para os Direitos Humanos serviu de elemento catalisador de um enfrentamento que estava latente há algum tempo.

É verdade que, no que há de mais nuclear, não há nada de diferente daquilo que Fernando Henrique Cardoso apresentou ao Congresso, quando, pela primeira vez, essa preocupação tornou-se objeto de atenção governamental. De qualquer forma, por vários motivos, mobilizou segmentos expressivos da sociedade civil organizada. Parte dos atores já era conhecida como adversários políticos de longa data. Os ruralistas, por exemplo, e sua fobia ao movimento dos sem terra e à defesa do eco-sistema. Outra parte, já comprometida com a candidatura da oposição, viu ameaças onde não havia. Assim, ao contrário daquilo que argumentou a grande mídia nacional, em nenhum lugar do Plano há qualquer ataque à liberdade de expressão e à imprensa. Outra parte, finalmente, ainda que satisfeita com o desenvolvimento social e econômico sob responsabilidade do governo Lula, sentiu-se confrontada em pontos nos quais a extensão das liberdades individuais e de fórum íntimo estava envolvida. Estão entre esses pontos a descriminalização da droga, a adoção de crianças por casais do mesmo sexo, o uso de células-tronco de embriões em pesquisa, a união estável entre pessoas do mesmo sexo. E, sobretudo, a descriminalização do aborto.

Se Serra já se apresentava como expressão das bandeiras ruralistas e dono da simpatia das grandes organizações de mídia, Marina capitalizou e alimentou o descontentamento daqueles que se sentiam atingidos em sua religiosidade, em seus conceitos morais particulares por expressões universais de direitos. Ao ir, eleitoralmente ou programaticamente, não importa aqui, ao encontro desses setores da sociedade, a ambigüidade da candidata se sedimentou em uma fórmula cuja resolução ainda não pode ser visualizada com clareza. Tomado o campo dos direitos como referência, é atual, moderna, quando remete à preservação do ambiente, à sustentabilidade. É atrasada, conservadora, quando se manifesta no terreno das liberdades individuais.

O tempo dirá se o PV se adaptará a essa possibilidade aberta pelas eleições. Se irá na contramão de seus congêneres europeus ou se fará conviver uma militância de esquerda ecológica com uma direita fundamentalista. Até lá, Marina é peso pesado no segundo turno.




É Dilma, não é um poste

   Por  José dos Reis Santos Filho


Em poucas horas, os brasileiros estarão definindo se a campanha se estenderá por mais algumas semanas ou terminará no primeiro turno. Confirmada a tendência, o Brasil fará parte de um clube muito exclusivo de países em que mulheres conseguiram chegar ao mais alto posto executivo. Nada mal, considerada uma realidade em que a mulher ainda é uma grande perdedora nas relações de gênero. Nada mal, considerado o fato de que, alguns passos além do lugar em que trabalhará, deputadas e senadoras ainda serão minoria desprezível. Nada mal, depois de uma campanha em que as mulheres candidatas (eram duas, contra sete do sexo masculino) foram obrigadas a fazer de conta que problemas enfrentados por milhares e milhares de pessoas do sexo feminino não devem ser tratados como questões de governo. Nada mal, sobretudo, para uma mulher que, no início da campanha, era tratada pela como um poste.  

A vitória possível de Dilma pode ser avaliada em muitas perspectivas. A mais rica delas, no entanto, é aquela que fixa o olhar na crise em que se encontra a oposição. Difícil negar que à procura da “bala de prata” que atingiria Lula e sua candidata, Serra e sua equipe só foram capazes de balas perdidas. E começaram cedo, bem antes da campanha. Em primeiro lugar, sem alternativas, ainda que tenham tentado, não conseguiram alcançar o “padrão petista de oposição”. Aquele em que o vazio de objeto freqüentemente predominava no lugar das críticas republicanas.

Em segundo lugar, deixaram de formular e explicitar um discurso alternativo que sinalizasse as razões de ser oposição. Evitaram, inclusive, buscar entender o significado da proposta de Aécio Neves, que reivindicava para si encarnar o “pós Lula”. Em terceiro lugar, mantiveram o PSDB e suas sombras, longe de um diálogo democrático com a sociedade civil e os movimentos sociais. Não bastasse, sequer cuidaram de transformar o PSDB em partido com vida e militância para além dos cochichos e acordos realizados durante as refeições.

Em quarto lugar, patrocinaram uma campanha de marketing eleitoral que apresentava as qualidades do candidato como próprias do Rei Sol. E, não obstante, se limitaram a defende-lo como político absolutamente capaz para ocupar o cargo de ministro da saúde. Em quinto lugar, deixaram de perceber que os estrategistas da situação, Lula à frente, estavam jogando com o julgamento da obra realizada pelo governo e, não, personalidades. Nesse sentido, um bom leitor de pesquisas teria visto que a palavra de ordem mais importante da conjuntura eleitoral deste ano, como notou José Roberto Toledo, era “continuidade”. E, se quisessem enfrentar isso em sua radicalidade, teriam que trazer FHC à frente dos holofotes. Ao contrário, optaram por pautar as expectativa na exploração de escândalos.

Em sexto lugar, sem esgotar o assunto, a oposição foi cega ao achar que Dilma não daria conta do recado. A julgar pelos dados do Ibope, cerca de 30% das intenções de voto na candidata do PT não vinham da transferência de prestígio e popularidade do atual presidente. Provinham do próprio desempenho de Dilma. Confundiram falta de experiência eleitoral com fragilidade intelectual e ausência de traquejo em situações públicas. Logo ela, com passado em movimento estudantil, com vida ativa em partidos de esquerda, com freqüência na pós-graduação, com presença em secretarias e ministérios. Grande erro crer nos mitos criados por uma imprensa alimentada pelas esperanças e desejos da própria oposição.

Como já disse D. Demétrio Valentini, Bispo de Jales, esta foi uma campanha que não vai deixar saudades. Ainda assim caso seus resultados sejam enfrentados seriamente, podem ajudar de forma significativa. É inegável que aumenta, dia-a-dia, a responsabilidade do eleitor. E frente a isso, o PSDB, por necessário que é, deve deixar de ser um simulacro de partido. Ou enfrenta seu presente ou compromete seu futuro.

Publicado em A Gazeta de Araraquara

Nas eleições presidenciais há pequenos, médios e grandes perdedores

   

Por    José dos Reis Santos Filho


Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto de Pesquisas Vox Populi arriscou um prognóstico sobre o resultado das eleições presidenciais. Em opinião divulgada neste último dia 23, sugeriu que os votos válidos estariam distribuídos de forma a que Marina Silva ficaria com algo em torno de 11%, José Serra, com cerca de 33% e Dilma Rousseff próxima dos 56%. É especulação? É! Mas o responsável por ela é um dos maiores especialistas em pesquisas de opinião pública no país. É verdade que desconsidera os efeitos do debate mais aguardado, o da Rede Globo de Televisão e dos eventos que serão produzidos no último dia da campanha. Como se sabe, sair-se bem ou mal no debate com maior audiência faz diferença. Da mesma forma, é imprevisível o que a imprensa plantará para digestão da opinião pública depois que o PT, Lula e Dilma já não dispuserem de horário eleitoral gratuito para se defenderem.

Imaginemos, no entanto, que a tendência se confirme e o resultado seja próximo ao que Coimbra está prevendo. Contra a corrente, talvez conviesse ler os resultados evitando a ótica da vitória e sinalizando aquela das perdas.

Se observarmos dessa forma, o grande perdedor do processo eleitoral seria Serra e, com ele, o PSDB, o DEM e o PPS. Não importa que cheguem em segundo lugar. Para utilizar uma expressão já pertencente ao vocabulário desta campanha, se trataria de uma derrota melancólica. Do ponto de vista pessoal, um candidato que se desenhou como “a certeza”, portador do “melhor currículo” em confronto com uma mulher “desconhecida”, sem “experiência eleitoral”, “criatura artificial”, a perda é retumbante. Do ângulo político, sua candidatura e a derrota teriam provocado a desarticulação de uma oposição que, já sem discurso, apareceria em frangalhos e disposta à dispersão.

O médio perdedor seria o PT e sua candidata, Dilma Roussef. Levariam a presidência e, provavelmente um excelente balaio de votos, mas carregariam peso agregado proveniente da quantidade de indícios de crimes que gira em volta da candidata e de seu partido. O “erenicegate” para mencionar apenas um deles, já colou na pele da ex-ministra, da mesma forma como o mensalão colou em Lula e no PT. Na mesma linha, ao cair na provocação da imprensa ligada ao tucanato e reagir de forma histriônica, supondo uma “excessiva liberdade” para a mídia, Dilma, Lula e o PT deram coesão a um campo de oposição que, em provável governo dilmista, terá mais força que o leque partidário derrotado com Serra. Se Lula não teve unanimidade, Dilma dificilmente poderá sequer sonhar com tranqüilidade.

O pequeno derrotado seria o PV e sua candidata, Marina Silva. Sua campanha foi carregada de ambigüidades. Na piada de José Simão, só faltou proposta de plebiscito para aprovação da maquiagem preparada especialmente para a candidata. Ainda assim, aproveitou-se do vazio criado pela incapacidade de Serra em apresentar-se como oposição viável e firmou-se como uma terceira via em processo de construção. Seu crescimento recente sinaliza que rompeu com a síndrome do candidato nanico e, ao contrário do imaginado por Lula, romperá a barreira dos 10%. Cria um horizonte capaz de colocar o Partido Verde e Marina em uma disjuntiva que os obrigará a escolher entre tornarem-se referência para uma nova oposição ou um contrapeso à influência do PMDB em um próximo governo.

Entre pequenos, médios e grandes perdedores, talvez conviesse um capítulo à parte para o significado destas eleições para a consolidação de nossa democracia. Mas isso é um capítulo à parte.


Publicado em A Gazeta de Araraquara



A “escandalização” da campanha oculta a debilidade dos tucanos




Por José dos Reis Santos Filho


A probabilidade da vitória de Dilma Roussef é altíssima. Mas é bobagem acreditar que já esteja garantida. Em uma campanha marcada por escândalos, difícil prever seu desfecho. Sirva de prova a oscilação recente do quadro de intenções de voto. Sirva de prova a utilização que Serra faz deles.

Até algumas semanas, os movimentos de Serra foram erráticos. Apresentou-se inicialmente como continuidade de Lula. Não deu certo. Buscou mostrar-se um estadista, amigo de Lula. Não vingou. Sugeriu ser mais consistente que Dilma. Os debates não confirmaram. Hoje, tenta mostrar que o PT come criancinhas aos domingos. Fracassadas essas tentativas, Serra, em tabelinha com três grandes grupos de mídia nacional, usa casos de polícia como elementos centrais de sua campanha presidencial. Tarefa fácil, reconhecida a forma como o Estado é assaltado por interesses corporativos de todos os tamanhos. Tarefa complicada, se pensarmos no processo civilizatório de cunho democrático que recém começamos a viver.

Em qualquer situação, as informações sobre os candidatos, seus partidos, os interesses que representam são fundamentais para a consolidação da opinião dos eleitores. O que incomoda na conjuntura é a incapacidade de o PSDB e Serra mostrarem porque se definem como oposição, que projetos possuem para o Brasil. Se, em todo o território nacional, pessoas de todas as bandeiras políticas estão envolvidas em corrupção; se, todos os partidos afirmam, batendo no peito, serem contra os crimes que abundam o noticiário, o que diferencia, efetivamente, a proposta de Serra daquela de Dilma?

Essa parece ser a pergunta que sinaliza as dificuldades reais do PSDB e, evidentemente, de todos os interessados em uma pauta de debates sobre o futuro do país. Na raiz dessas dificuldades, as armadilhas que o maior partido da oposição criou para si mesmo durante os últimos anos. Lembremos algumas.

Em primeiro lugar, Serra e o PSDB abdicaram da idéia de construir um partido enraizado na sociedade civil, com diálogo sistemático com os movimentos sociais, com quadros de militantes capazes de garantir um crescimento partidário sustentável. Transformaram a sigla em uma referência de uso eleitoral manipulada por caciques que, rapidamente, perdem os índios que restam. Em segundo lugar, deixados de lado espasmos pontuais incapazes de estabelecer um discurso e uma proposta de governança, Serra e o PSDB não fizeram oposição a Lula e a seu governo. Serra, em particular, governou São Paulo preocupado em não perder investimentos e não afrontar a popularidade crescente de Lula. Em terceiro lugar, com a certeza de não esgotar o assunto, Serra e o PSDB desarmaram-se política e ideologicamente ao afirmarem reiteradamente que o governo Lula dava continuidade a FHC. Tiro pela culatra. Para o eleitor, se isso é verdade, se o PT está sendo capaz de dar conta com sucesso daquilo que era originalmente do PSDB, que o próprio PSDB foi incapaz de realizá-lo (algo que Serra admite implicitamente, ao esconder FHC de sua campanha), porque mudar?

Em resumo, é salutar que os crimes ligados à governança sejam trazidos às campanhas e que Lula, Dilma e o PT sejam responsabilizados por seus atos. O que não é salutar e inevitável é que a corrida à presidência seja pautada por essa agenda. Caso não seja tarde, talvez seja o momento de o PSDB se reinventar. Não importa qual seja o resultado de outubro.

Publicado originalmente em A Gazeta de Araraquara

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Tiririca, palhaço e representante do povo no Congresso? (2)



por José dos Reis Santos Filho


A “novidade” Tiririca chegou aos jornais de grande circulação. É assunto na Folha de São Paulo. Em suas páginas, espaço ao candidato, em entrevista. Nela, o aspirante a parlamentar informa que mantém uma assessoria funcionando como retaguarda. Assume, no entanto, sem que saibamos se é piada ou na, que consulta sua mãe para assuntos como o lançamento de sua candidatura. Repete ser verdade que não conhece “nada” sobre a atividade de um deputado. Tem certeza, no entanto, que, “tando lá”, vai “passar a conhecer”. Admite ainda que não sabe explicar a Câmara. Mas diz também que não fez piada. “É a realidade”. Caso eleito, “pior do que ta não fica”.

Ainda assim, aparentemente, se distancia de um mandato que o (re) produza como palhaço. A acontecer, o público conhecerá Tiririca como civil, sem o uniforme. Algo a ser acompanhado de uma atuação que o mostrará “entrando de cabeça, de coração”. Está “querendo faze alguma coisa.” Afinal, é “bem resolvido” em sua profissão. Tem a “vida feita”.

Essa é uma entrevista que (re) afirma uma hipótese levantada por nós em resposta a Roberto Schiavon, jornalista de A Tribuna Impressa, de Araraquara, SP. Na ocasião (ver postagem em esquinasequarteiroes), dizíamos existir uma identificação entre aquilo que Tiririca dizia e a percepção dos eleitores em relação aos problemas da representação democrática. E baseávamos tal afirmação em dados disponíveis sobre um dos mais importantes municípios da região central de São Paulo.

Assim é que, conforme dados recentes levantados por nós, todos com fontes em trabalhos de autoria do Instituto DataPress, 59,53% da população de Araraquara não sabe o que fazem os deputados. Pior, indo além: entre aqueles que dizem saber (40,77%), apenas 8,9% nos dão como respostas diretas que legislar e fiscalizar são as principais tarefas de um dos poderes fundamentais da República. Ao acrescentarmos a esse segmento aqueles que nos fazem entender que “criar leis/projetos para o povo” (22,55%) e “representar a cidade e a região” (10,4%) são de responsabilidade parlamentar, concluiremos que, efetivamente, apenas 21,75% dos eleitores do município sabem realmente o que devem fazer nossos representantes. Isso significa que, dos 141.902 eleitores da cidade, menos de 31 mil efetivamente reconhecem as tarefas constitucionalmente atribuídas aos membros do Legislativo.

Esse é o contexto que permite a Tiririca o que talvez já possa ser qualificado como a melhor jogada de marketing político das eleições de 2010. Entre o pólo produtor da mensagem e seu pólo receptor, há um referencial interativo que, para além dos meios técnicos, radiofônicos ou televisivos, não importa, sustenta e permeia a própria credibilidade do que é dito. A percepção das palavras de Tiririca não encontrariam a mínima ressonância se não houvesse por parte da população um profundo desconhecimento do significado da atividade legislativo. E há quilos de pesquisas acadêmicas que sinalizam, de forma contundente e por vieses teóricos diferenciados, essa ausência. A questão resume-se, então, em saber se devemos matar politicamente o mensageiro.


Fontes das fotos:

alexandreterra.blogspot.com
paramudarobrasil.worldpress.com

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Tiririca, palhaço e representante do povo no Congresso?



por José dos Reis Santos Filho


Em entrevista, o jornalista Roberto Schiavon, do jornal Tribuna Impressa, de Araraquara, SP, quis saber minha opinião sobre o lançamento de “candidatos pitorescos nestas eleições, como Ronaldo Esper, Maguila, Kléber Bambam, Mulher Pêra e Mulher Melão”. Chamou atenção especial para Tiririca que, em sua primeira aparição no programa eleitoral gratuito pergunta explicitamente ao telespectador se ele “sabe o que faz um deputado estadual”, algo que nem ele, candidato, sabe. E, a guisa de justificativa, de forma imperativa sugere que o eleitor vote nele. Uma vez na Assembléia Legislativa, ele contaria o que fazem os eleitos. E termina dizendo: "Vote em Tiririca. Pior do que está não fica".

A questão fundamental colocada por Schiavon seria, então, se este tipo de candidatura não deporia contra o processo eleitoral. Afinal, o político já é desacreditado e candidaturas dessa natureza poderiam piorar o quadro.

Sugiro que personagens como esses não são típicos apenas de nossa realidade, de nosso tempo histórico. De formas eventualmente mais esparsas e em menor volume, ocorrem em países com tradições de democracia representativa. Um dos casos de grande repercussão internacional foi a eleição de Cicciolina para o Parlamento Italiano, em 1987. Com uma trajetória pessoal marcada pela indústria pornográfica e pelo show business, sua campanha tornou seus seios muito mais conhecidos que suas idéias. Cada sessão parlamentar em que participou tinha como atração menos os assuntos de pauta que a aparição da personagem. Talvez sua proposta mais intrigante tenha sido a de dormir com o ex-ditador Sadam Husseim em troca da libertação de reféns supostamente sob sua responsabilidade.



No caso específico do Brasil, não é de hoje que personagens alheios à política como vocação são propostos em eleições. Um caso típico, com verbete na Wikipédia e pesquisas acadêmicas reconhecidas, foi o de Cacareco, “um rinoceronte do Zoológico de São Paulo que, nas eleições de outubro de 1958, para vereador da cidade, ganhou cerca de 100 mil votos”. Foi fenômeno inusitado porque sua candidatura foi propositalmente lançada e propagada como voto de protesto. A idéia de lançar o animal como candidato teria sido do jornalista Itaboraí Martins, “em protesto contra o baixo nível dos outros 450 concorrentes”. É, de longe, “um dos mais famosos casos de voto nulo em massa da história da política brasileira”..

Tomados como um todo, dificilmente os candidatos “pitorescos” que se apresentam nas eleições atuais poderiam ser considerados candidatos de protesto. Nas aparições que fazem, de alguma maneira buscam traduzir suas inserções na linguagem, nos gestos e, mesmo, nos rituais que são comuns ao establishment. Esses personagens parecem ser expressões de um mesmo fenômeno: a curta idade de nossa democracia.

Ainda presenciamos as dificuldades com que a população e os partidos manipulam o significado de democracia participativa. No primeiro caso, temos que levar em consideração que recém começamos a ver a sociedade civil organizada se preparando para acompanhar de perto o processo eleitoral. É verdade que organizações como o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), uma instituição financiada por entidades sindicais, acompanha e divulga há mais de vinte anos o compromisso dos parlamentares com os interesses dos trabalhadores. É verdade também que organizações não governamentais como a Transparência Brasil estão contribuindo de forma substantiva com a fiscalização do uso que se faz do dinheiro público. É indiscutível ainda a importância de iniciativas populares como a que resultou no projeto “ficha limpa” São empreendimentos, no entanto, que não parecem chegar ao grosso dos eleitores e, portanto, agregam relativamente pouco na constituição de uma opinião pública suficientemente crítica. Uma opinião pública, diga-se de passagem, cuja formação é mediada por empresas com interesses econômicos, políticos e ideológicos que se manifestam de maneira indubitável nos processos eleitorais.

(Há, não obstante problemas como estes, lugar para otimismo em nosso horizonte. É uma opinião pública em desenvolvimento e, acreditamos, de forma robusta. E isso, talvez, principalmente, devido a dois fatores que mereceriam análises. Em primeiro lugar, com todas as críticas possíveis e imagináveis à qualidade de nossa educação, estamos melhorando o grau de educação de nosso povo. Talvez sejam estas as eleições com menor participação do segmento “analfabeto” em toda nossa história. Em segundo lugar, desde 1988, as questões ligadas à cidadania ocupam parte substantiva de nossas demandas. Essa é uma palavra que veio para ficar e, no longo prazo, certamente deixará de ser manipulada.)

Em segundo lugar, há uma dinâmica que joga na contramão de um processo de melhoria da qualidade de nossos parlamentares e ela se manifesta antes mesmo das eleições, ainda que seu objetivo seja o da montagem de uma bancada e de uma correlação de forças políticas que pese nos momentos de negociações interpartidárias. Os interesses de todos e de cada uma das agremiações dos democratas aos petistas, passando pelos peessedebistas coincidem no sentido de amealharem o máximo possível de eleitos. E, não importa aqui que isso seja feito de maneira direta ou indireta, através de aliados. Não há hipótese de candidaturas individuais que não tenham passado pelo crivo das direções, das convenções partidárias. Reverso da moeda, devemos registrar o pouco apreço com que parcela significativa de nossos parlamentares lida com a responsabilidade de representar a população.

Não por acaso, quando o candidato que se assume como palhaço pergunta “o que faz o deputado estadual”, ele provavelmente sabe, por antecipação, que essa é a mesma pergunta de parte substantiva da população. Como prova, uma pesquisa, bastante recente, feita em Araraquara, SP, pelo Instituto DataPress deixou claro que cerca de 60% dos eleitores do município simplesmente não sabiam para que servem os deputados. Nesse contexto, podemos admitir que a presença de um candidato como Tiririca certamente depõe contra nossas eleições. Não porque ele é o que é. Mas sim porque a própria possibilidade de sua candidatura (um direito, diga-se de passagem) e de sua eventual vitória expressam simbolicamente a realidade das Assembléias Legislativas e do Congresso. E, se essa é uma hipótese plausível, sua campanha assume também a forma de uma denúncia. Afinal, caso eleito, “pior não fica”. No horizonte, no limite do humor negro, nas fronteiras de um marketing que mexe com o imaginário social, ao mesmo tempo em que retira dele sua energia, a expectativa otimista: ele promete contar o que faz um deputado. Quem sabe, assim, ele se diferencie.






Fontes das fotos:

Blog Muqui Quintessência http://muqui.wordpress.com/2009/01/20/animais-incriveis-final/
Governo do Paraná: diaadia.pr.gov.br
Softwre Livre Brasil:softwarelivre.org
Meu Pernambuco: meupernambuco.blogspot.com

domingo, 22 de agosto de 2010

E no domingo, o assassinato



por José dos Reis Santos Filho


No sétimo dia, as tensões, o estresse, deveriam encontrar refúgio. Ao contrário, as análises disponíveis informam ser o domingo um dia propício ao assassinato. No município de São Paulo, concorre com as noites de quarta-feira. Para esses acontecimentos, as hipóteses explicativas estão próximas do senso comum. São momentos em que as pessoas estão mais vulneráveis. As multidões cotidianas estão recolhidas. O policiamento ostensivo perde, em parte, sua visibilidade. Em caso de festas ou jogos, o álcool ou, mesmo, as drogas, fragilizam o discernimento. Um acerto de contas, um roubo mal sucedido, um desentendimento, uma razão passional, tudo pode levar ao homicídio. Os meios, uma arma de fogo, uma faca ou, simplesmente, a força física.

Cada um e todos esses elementos estão acessíveis nos bancos de dados das polícias. Em detalhes, diga-se de passagem. Autores, vítimas, ruas, bairros, horários, motivos aparentes, tipos de armas são, entre outras, informações colhidas no momento mesmo em que a ocorrência é registrada. Logo, são digitalizadas e disponibilizadas internamente. Em tese, é um processo que permite agilidade e operacionalidade na busca por suspeitos. Em tese, também, cria as condições para um planejamento que potencializa a tarefa policial. Sugere a existência de bairros com maior ou menor periculosidade, identifica perfis de criminalidade cruzando territórios e horários, sinaliza aumento ou diminuição de casos. Enfim, é instrumento fundamental para a contenção do ato ilícito. E, se isso é verdade, porque seus resultados ainda parecem irrisórios à opinião pública? Falta de inteligência não é, podemos apostar. É provável que os principais obstáculos estejam em uma cultura corporativa sedimentada e em uma questão conceitual com efeitos de políticas públicas.

Quanto ao primeiro ponto, esses são dados ainda submetidos a um segredo que só se explica por medo da crítica. É como se essa fosse uma questão ligada a personalidades e interesses político-partidários. Na verdade, é problema de opinião pública, de cidadania e deveria estar sendo debatido em profundidade em todo tecido social.

No que diz respeito à questão conceitual, ainda se está muito preso à percepção de que esses são eventos que dizem respeito apenas à polícia. No limite, quando se fala em trabalho integrado, o que se busca é uma articulação entre níveis de administração do poder de polícia. De fato, isso é progresso, considerado o autismo vigente nesta área até poucos anos. Ocorre que a integração, aqui, para produzir efeitos de profilaxia e contenção, precisa ser muito mais ampla. Reivindica articulação com setores como a assistência social, a saúde, a educação, a cultura e o esporte. Mas também a fazenda, a habitação e o desenvolvimento urbano e ambiental. Aliás, temos idéia de quantos municípios orientam suas ações na área da segurança considerando seus Planos Diretores? No cerne da questão conceitual, portanto, o município é esquecido como entidade federativa à qual caberia responsabilidade para levar a sério a idéia de integração na elaboração e execução de planos de segurança.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O rabo tem que estar preso com o eleitor



Por      José dos Reis Santos Filho


'...é hora de perguntar: que sociedade queremos? [...] afinal de contas,
quais são os valores que queremos preservar. [...]
A mídia, a grande mídia, sob a consigna da liberdade de expressão
trata de impedir que se desenvolva o verdadeiro
debate sobre o Brasil ou sobre os temas que afligem a humanidade [...]
Tudo está sendo feito para que a sociedade se transforme em uma
massa amorfa que não tem papel nenhum a desempenhar na projeção de seu próprio destino...'
Luiz Gonzaga Belluzzo
Revista Cult.
Carta Maior, 24-07


A - Na quinta-feira, dia 22 de julho, a presidenciável do PT, ministra Dilma Roussef participou de uma sabatina na TV Record. Quatro repórteres a argüiram, levantaram questões de toda natureza, da política externa brasileira à copa de 2014, passando pelas posições do Movimento dos Sem Terra e às provocações do vice de Serra. Quem assistiu percebeu uma segurança tranqüilizadora ainda manifesta sob dificuldades no lidar com a mídia. Prato cheio para quem quer que deseje alimento para uma boa discussão sobre os projetos de Dilma. Abre-se a Folha de São Paulo de sexta, dia 23 e o que se observa é uma lacuna extraordinária na cobertura do evento. Zero de aparição. Nada de notícias, nada de análises, nada de reflexões. Em seu lugar, um jogo editorial em que fica difícil sustentar a aclamada neutralidade daquela mídia.

          De fato, são sete as matérias diretamente vinculadas à polarização em que tendem a se tornas as eleições de outubro. Nenhuma delas efetivamente ligada a um debate sobre o país. Vamos a elas:

B - Duas daquelas matérias poderiam ser admitidas como preocupadas com a licitude dos candidatos e a integridade ética da campanha.

          Na primeira, a notícia de “omissão”, por parte do tesoureiro da campanha do PT, de empresa na declaração feita à Justiça Eleitoral. Na segunda, a admissão, pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, de falha na indicação, pelo DEM, de um bandido bem sucedido, mas preso, a um posto de Deputado. Entre uma e outra, uma diferença. Vejamos, em primeiro lugar, as passagens:


1 - Tesoureiro de Dilma omite empresa da Justiça Eleitoral
                                                     Outro lado: Petista diz ter havido falha, mas não má-fé, e alega que fará retificação
                         2 - Kassab admite falha do DEM e diz que candidato preso será expulso.


          Na primeira, aquela que envolve o PT, o reconhecimento de falha e anúncio de retificação é veiculada de forma, no mínimo, problemática. É precedida de uma manchete acusatória e indutora de suspeita. A opinião do envolvido é colocada na forma de “o outro lado”. Além disso, as palavras usadas projetam uma ambigüidade. Fulano “diz que” e beltrano “alega” são expressões que, nas frases e, em geral, na linguagem cotidiana, emprestam significados carregados de ambigüidade. Ainda que possam sugerir uma alusão distanciada à manifestação do interessado, como, de resto, é monótona e abusivamente utilizada pelas chamadas da Folha, podem ser indicativos de dúvida, de desconfiança. O verbo “admitir” usado na segunda matéria sugere um reconhecimento que não dá lugar a suspeitas de veracidade. Nesse sentido, ainda que remetendo a uma falha, é positivo. A primeira notícia é, portanto, diferente da outra. No enunciado veiculado a Kassab, ele próprio é o transmissor de uma informação divulgada na forma de manchete. Nela, o prefeito “admite” falha. Secundariamente, “diz que” o candidato será expulso.

          Entre o “admitir” da segunda notícia e o “diz que” da primeira, ambas aplicadas na admissão de responsabilidade (algo que os dois envolvidos fazem) estão em jogo imagens de atitudes bem diferenciadas. Na primeira, o tesoureiro, sujeito moral do ato, ainda que assuma a “falha” e defina seu papel nela, é colocado em dúvida. Na segunda, quando o prefeito aparece, a dúvida não é insinuada e o sujeito moral assume positivamente sua responsabilidade. Só então sua atitude torna-se equivalente à do petista.

          O “alegar” da segunda, ao ser aplicado a uma ação por vir, passa a ter o mesmo estatuto que o “diz que” da segunda, também referida a um ato por vir.. E isso faz sentido. Nos dois casos, são atitudes a serem realizadas no futuro. Correspondem a situações que podem ou não acontecer. Ainda assim, o “diz que” pronunciado em relação ao prefeito só entra em cena depois de uma demonstração de responsabilidade moral. É, portanto, um “diz que” cuja força de desconfiança foi neutralizada pelo adequado e moralmente positivo reconhecimento da responsabilidade sobre um ato ética e criminalmente condenável.

          Isso constatado, a pergunta do eleitor é: essa é a única maneira de veiculação de notícia jornalística? Ou há, na contramão do que anuncia o jornal, consciente ou inconsciente, dois pesos e duas medidas nas formas como os fatos chegam ao leitor?

C – Em outras duas manchetes internas, ainda na seção “Poder”, Dilma aparece na posição defensiva. Na primeira, responde negativamente sobre um eventual envolvimento seu no caso Eduardo Jorge. Vejamos como foi publicada:

              1 - EJ vai à Justiça para ter acesso a investigação.
          Dilma afirma que acusação é infundada.


          Na segunda, ainda que se manifeste positivamente, com uma postura crítica, a imagem transmitida é a de uma pessoa acuada. De uma candidata “perseguida”, que reclama da imprensa.


2 - Dilma critica a mídia por "julgamentos sem provas” .


          São aparições bastante diferentes daquelas em que o candidato Serra é colocado. Em ambas, o que importa é a construção pejorativa dos componentes da candidatura Dilma. No primeiro caso, do partido ao qual ela pertence. No segundo, de seu vice. Nos dois, a presença de mecanismos de atribuição de imagens estigmatizadas. Na primeira, a desqualificação de qualquer elemento positivo da agremiação através de sua redução a uma suposta “gula” pelo controle. Na segunda, a insinuação de transações pautadas pelo valor de troca de Michel Temer.


                         1 - Tucano diz que PT tem "gula infinita para controlar tudo".
2 - Vice de Dilma é "mercadoria", diz Serra


          Em ambas, a Folha reverbera, potencializando seu alcance, uma estratégia de campanha cujo efeito mais imediato é o aniquilamento de qualquer debate público em torno de projetos.

D – Um terceiro campo de notícias negativas em relação à candidata Dilma Roussef está presente. Dessa vez, no entanto, com um tema que possui, efetivamente, interesse público e importância para um debate em torno do futuro do país.


Bispo diz que Dilma é pró-aborto e prega boicote em missas.


          Aqui, a manchete desperta atenção imediata do leitor. Mas de forma a conquistá-lo, inclusive, pela maneira como é veiculada. O “diz que” é aplicado de forma neutra, tanto quanto nas afirmações atribuídas ao tucano e mencionadas mais acima. Não é usado de forma a insinuar ambigüidade, mas distanciamento. O jornal não se compromete com a afirmação. Ela é de responsabilidade de outrem. Faz parte da compreensão de um bispo da igreja católica que, em decorrência disso, reivindica implicitamente dos fiéis voto em candidatos (as) que não sejam favoráveis ao aborto. A candidatura de Dilma Roussef que se posicione sobre o assunto. Ponto!

E – Em um quarto momento, a Folha também veicula de forma absolutamente correta, objetiva, o reconhecimento, na justiça, de um direito de resposta do petismo às acusações feitas pelo vice-candidato da chapa do candidato José Serra:


PT terá direito de resposta contra Indio.


          É certo que poderia ter optado pela introdução da expressão vitória no texto. Permaneceria a objetividade já que é esse o significado em uma disputa judicial em que o contraditório faz parte do jogo. Mas, definitivamente, a fórmula encontrada é a mais neutra possível e o leitor agradece.

E – Qual o pano de fundo da ida do PT aos tribunais? Aparentemente, a luta pelas representações imagéticas dos candidatos. De fato, nos últimos dias a campanha do PSDB para o governo federal optou, aparentemente em definitivo, à criação de factóides com a finalidade de reconstruir a imagem da candidata Dilma Roussef, de seu partido, enfim, de tudo o que diga respeito às suas possibilidades de vitória. Cabe ao candidato a vice de José Serra o papel de principal “bate estaca”.

          Em uma de suas últimas investidas, atribuiu à candidata do PT uma relação com a organização criminosa Comando Vermelho. A forma como conclui pela existência dessa relação é feita com base em premissas cujas provas não oferece. Delas, deduz conclusões que não resistem senão como falácias. Assim,


                    1 – O PT (supostamente) tem relações com as FARC (grupo
guerrilheiro colombiano);
2 – As FARC (supostamente) têm relação com o
narcotráfico (colombiano);
3 – O narcotráfico colombiano (supostamente) tem conexões com a organização criminosa
Comando Vermelho (atuante no Rio de Janeiro);
         4 – Em conclusão, o PT seria (supostamente) responsável pela “guerrilha urbana alucinada” na
cidade do Rio de Janeiro “por conta do narcotráfico”.
               5 – Por isso existiria cumplicidade da candidata Dilma Roussef, que “tem que dizer o que ela acha”.
“Se ela acha que tem problema ou não essa relação”.

          Na leitura de Josias de Souza (de cujo blog foram retiradas as citações entre aspas e o exemplo), “a essa altura, as tempestades de Índio já não podem ser caracterizadas como espasmos ocasionais e esparsos”. O comportamento do vice de José Serra conferiria a seus ataques “uma aparência de estratégia. Coisa estudada, em combinação com o morubixaba da chapa”. Uma “aposta arriscada”, segundo o jornalista: “típica de quem já leva a sucessão em ritmo de tudo ou nada”.

          É provável que Josias tenha razão. E, se isso é plausível, uma questão que nos importa em definitivo é o papel a ser desempenhado pela imprensa. Permanecerá ela reduzida a uma caixa de ressonância das campanhas, ou assumirá um papel de espaço público cuja vocação é a informação e a reflexão crítica. Essa segunda alternativa é a de uma mídia com rabo preso com o eleitor.


Fotos:  Candidata à presidência Dilma Rousseff  Rede Record: 22/07/2010. Breno Fortes/CB/D.A  Press. Brasil. Brasília.
Ilustrações: Raposa tagarela: http://agente65.blogspot.com/2008_04_01_archive.html
                           Pinoquio: http://www.google.com/imgres?imgurl=http://www.entrelinhas.info/wp
                           Mídia 1: http://cachacaaraci.wordpress.com/
                           Mídia 2: http://www.seubrasil.blogspot.com

sexta-feira, 2 de abril de 2010

A IVª Conferência da cidade e o município


As conferências nacional, estaduais e municipais devem ser vistas como uma oportunidade de fazer com que os poderes executivos e legislativos de todo o país e, em especial, o Ministério da Cidade, assimilem demandas expressas pela sociedade civil organizada. São, ainda, momentos em que a administração pública e os segmentos sociais têm uma oportunidade exemplar de lidar com perspectivas nem sempre reconhecidas, já que portadoras de linguagens e urgências singulares. São, finalmente, espaços de um processo lento, mas consistente de construção de uma identidade que articula diferenças em torno de projetos de cidades.

Em Araraquara, a IVª Conferência da Cidade talvez tenha conseguido alcançar esses objetivos e avançar em outros dois: dar início a um processo público de sedimentação de uma memória das lutas pela cidade e organizar um conjunto de orientações para a elaboração de uma Política de Desenvolvimento Urbano que vá além dos programas político partidários em disputa durante os períodos eleitorais.

No primeiro caso, o ponto alto ficou por conta de um painel organizado com a participação do geógrafo Alcyr Azzoni, do arquiteto Francisco José Santoro e do químico, ex-vereador Aerovaldo Del’Acqua. Seus relatos estiveram pautados por um saber conquistado através de competências específicas e experiências vividas em lutas vencidas ou perdidas desde a década de sessenta. De fato, esses pioneiros nas questões urbanas e ambientais araraquarenses veicularam informações que subverteram mitos, contribuiram para a compreensão da paisagem atual da cidade e mostraram razões para lacunas pouco admissíveis em nosso ambiente urbano.

No segundo, os resultados das discussões em quatro grupos de trabalho, uma vez discutidos e aprovados em plenária, podem ser entendidos como orientadores de uma política urbana e meio ambiental consistente para os próximos anos. A começar pela definição das questões relativas às crianças, adolescentes e jovens como referência orçamentária prioritária. Depois, a lembrança da necessidade de um conselho da cidade que envolva os mais amplos segmentos constitutivos de nossa sociedade. Em seguida, a importância de instrumentos de informação e manipulação de dados que ajudem a compreender o município. Não menos apoiada, a prooposta de uma legislação que penalize o administrador público que não seguir o estabelecido pelo Plano Diretor e toda a legislação referente ao urbano.

Tampouco foi esquecido o campo de problemas relacionado ao saneamento básico. Está presente através de uma clara preocupação com o cuidado com as águas e com a coleta seletiva. Da mesma forma, as questões relativas à mobilidade e à acessibilidade foram mencionadas e os direitos dos pedestres e ciclistas não foram esquecidos apesar da atenção ao transporte coletivo.

Esses e alguns outros temas foram debatidos em um clima em que as diferenças políticas não serviram de obstáculos intransponíveis. É verdade que, em algumas ocasiões, alguns poucos estiveram mais preocupados com quem se expressava que com o quê se dizia. Mas esse foi um traço marginal. No substantivo, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano, ao lado das dezenas de participantes presentes ao evento, protagonizaram um exercício significativo de democracia. E isso é perceptível até na lista de delegados escolhidos para participarem na Conferência Estadual. O espectro, ali, é arco-íris.

A defesa criminosa da terra arrasada

Os interesses em jogo impedem a consciência generalizada do óbvio: a atividade humana – do cultivo e da extração de matérias primas à sua industrialização e consumo posterior, até a produção de lixo - ameaça nossa sobrevivência na terra. Podemos, a exemplo do governador José Serra, reclamar das chuvas e clamar aos céus que elas parem de produzir mortes e prejuízos materiais. Podemos, conforme o fez o presidente Lula há alguns dias, tirar proveito político das desgraças cotidianas a que assistimos em São Paulo desde o final do ano passado. Podemos ainda, como fizeram os dirigentes do Partido Verde no estado, manter um silêncio cúmplice em torno do assunto. São, no entanto, atitudes mesquinhas e não produzirão outro efeito senão estabelecer, para o próximo acontecimento, um novo luto resultante da tragédia repetida.

A urgência no enfrentamento das questões ambientais já estourou seus prazos. A importância de medidas radicais e de mudanças nas atitudes frente às causas do aquecimento global, da escassez da água e de outros fenômenos que despertam nossa apreensão, é auto-evidente. E, ainda assim, não são alentadoras algumas notícias que nos chegam todos os dias. Não bastasse o espetáculo patético da Conferência de Estocolmo, em nosso território, assistimos com inquietação, por parte do governo federal, recuos significativos em políticas de proteção meio ambiental.

Exemplo disso foi a prorrogação do prazo de cobrança de multas para os produtores rurais que não apresentam projetos para preservação de reservas ambientais em suas terras. Da mesma forma, a incompetência do Ministério do Meio Ambiente e sua posição secundária no governo federal alimentam os discursos reacionários daqueles que não querem “ficar reféns dos humores do meio ambiente”. Provocam, além disso, o crescimento do peso político relativo daqueles segmentos para os quais a natureza não é outra coisa senão fator de produção a ser consumido (devastado seria a palavra mais correta) no aqui e no agora.

Olhado o presente com olhos no futuro, um dos assuntos que mais merecem nossa atenção atual é o da revisão do Código Florestal. Não apenas por sua importância como marco regulador. Exatamente porque terá essa função, presenciamos uma retórica selvagem e uma articulação eficaz contra aspectos seus mais diretamente ligados aos crimes ambientais patrocinados por produtores rurais. Comportamentos, aliás, nada estranhos a grupos que reiteradamente se recusam ao cumprimento da lei. Tanto isso é verdade que, na região de Ribeirão Preto, a aplicação da legislação atual já foi caracterizada pela presidente da Confederação Nacional da Agricultura, deputada federal Kátia Abreu, de Tocantins, como resultado da ação de promotores que “se acham professores de Deus”. Ela mantém, em palavras e atos, apoio a proprietários rurais que se recusam a ajustar suas condutas através de projetos que prevejam, entre outros itens, a reserva legal. Argumentando com a “inadequação da lei” atual, “retrógada”, segundo ela, manifesta-se contra sua aplicação e, nos fatos, estimula seu não cumprimento.

Não se trata, evidentemente, de uma defesa da desobediência civil. Henry Thoreau jamais imaginou algo parecido quando formulou a noção na primeira metade do século XIX. Tampouco Gandhi ou Luther King veriam na pregação da deputada qualquer afinidade com suas propostas. Em cada um desses casos, a luta era ao mesmo tempo emancipatória e civilizatória. A bandeira da deputada, até prova em contrário, é pela devastação e nada contra a corrente de um processo em que a civilização seja afirmada. É eticamente criminosa.

A boca de Lula expressa cálculo político, mas esquece a alma.

Os comentários estão em muitos cantos. Na mídia, certamente, em parte significativa do planeta. No país, há artigos e opiniões manifestas em todos os jornais. Na maioria, são pautadas por militância antiga. Algumas, no entanto, usam a situação como janela de oportunidade para fustigar o presidente e, no varejo, sua candidata, seu partido. E isso, agora e para o futuro, não nos importa um caracol. Ao ignorar os apelos por uma posição em favor dos presos políticos em Cuba e, dias depois, chama-los de bandidos, Lula pediu por isso.


É certo que não existe no país uma tradição forte de combate às ofensas contra os direitos humanos. A começar por casa. A cada ano, mesmo depois de instaurada a Constituição de 1988, as agências nacionais e internacionais que acompanham o progresso do respeito à pessoa humana entre nossas fronteiras produzem relatórios contundentes. Deles, não escapam estados. De norte a sul, de leste a oeste, com maior ou menor gravidade, os exemplos são abundantes. De uma forma ou de outra, neles, estão envolvidos governantes de todas as cores, de todos os credos. Em cada um deles, os rituais que negam ou empurram soluções para o dia em que a reta fará curva são (re) conhecidos à náusea.


É verdade também que as palavras do presidente são funcionais em vários sentidos. Em primeiro lugar, já adiantamos, porque ajudam no palanque. Mas também nos fazem esquecer a existência, no Congresso, de um projeto que visa à implantação do III° Plano Nacional de Direitos Humanos. De fato, muitas das vozes que hoje levantam – com razão – um protesto contra as opiniões de Lula em favor da repressão política em Cuba, são as mesmas que, algumas semanas atrás, transformaram a proposta em coisa do demônio. Longe, Cuba oferece uma oportunidade de sublimação. Compensemos a negligência com nossas vítimas vociferando forte a favor das vítimas dos outros.


Se esses são elementos que contextualizam parte das críticas que presenciamos contra Lula, Celso Amorim e outros membros do governo, não justificam em nada a atitude do governo. É uma postura em que o cálculo é o da razão de Estado. Trabalha com o critério do custo/benefício na relação que mantém com Cuba, com o que imagina ser o processo de transição adequado para aquele país e, provavelmente, com o peso a ser dado pela questão dos direitos humanos nesse caminho. Ocorre que, em relação a valores, especialmente quando estão em jogo aqueles que protegem o homem, ou o presente os leva em consideração ou o futuro estará comprometido.


Bobagem lembrar que Lula já esteve preso. Secundário apelar para uma trajetória em que a luta contra a ditadura esteve presente. Isso raras vezes funcionou para governantes. Não funcionará agora. A ocasião é, no entanto, propícia para que a discussão assuma toda sua plenitude. Precisamos deixar claro que somos contra a repressão política em Cuba. É fundamental fazer ouvir que somos favoráveis aos direitos de autodeterminação da população do Tibet. Insistir no fato de estarmos convencidos sobre a necessidade da universalização do acesso aos sistemas de saúde de milhares e milhares de americanos que ainda hoje reivindicam esse direito. Enfim, queremos o respeito pleno da Carta das Nações Unidas em todas as esquinas de todas as nações. E isso inclui, evidentemente, o Brasil.


E, se essas são reivindicações justas para um país que, como o nosso, vive a construção de um processo civilizatório, cabe a todos mostrar que esse é um valor que queremos para nosso cotidiano. Fazer com que não seja vendido, lá fora ou aqui, a troco de razões impostas pelos pequenos interesses. Fazer com que esteja tão presente em nossas vidas que não nos obrigue a pensar sobre sua conveniência. Que brote, em nossas ações, do fundo de nossas almas. De tal maneira que, amanhã, não precisemos chamar atenção do presidente para o assunto. Se isso acontecer, ele permanecerá sendo um estranho no ninho.

O governo Lula não existiu.

E tampouco existiu o de FHC. No rigor, a inexistência de um ou outro governo depende da perspectiva imposta pela distorção do passado. É tarefa de revisão da história. Exemplo disso é o mercado de análises que fazem das iniciativas do governo Lula bagatela desprezível. Ele cresce à medida que aumenta, entre os petistas, a desqualificação das medidas tomadas pelo PSDB no período anterior.
Assim são as afirmações segundo as quais as “causas (mais importantes) do sucesso brasileiro nos últimos anos” estariam na “continuidade” das políticas monetária, fiscal e cambial. Assim são também as leituras que debitam o surgimento de uma nova classe média nas “mudanças demográficas que ocorreram em meados da década de 80”. Ou, ainda, as que estabelecem, na origem dos novos segmentos sociais, “a globalização, que ganhou força há duas décadas”.
São apostas que negligenciam o óbvio: o governo federal atua até por inércia. Impossível menosprezar o papel do governo Lula. Tanto quanto é realmente missão carregada de leviandade ignorar o desempenho do período FHC. São “verdades” que só explicam muito parcialmente o que aconteceu na história recente do país. Dizem-nos que a reflexão reivindica sofisticação capaz de incluir um universo de variáveis cujo peso e importâncias ainda não estão suficientemente esclarecidos. Dizem-nos também que PT e PSDB estão envolvidos em uma desqualificação do outro cuja reciprocidade impede qualquer avaliação objetiva de erros e sucessos cometidos por um e outro governo.
Ao procederem dessa forma, os dois partidos atuam no quadro daquilo que uma dupla de psicólogos suíços denominou de síndrome da imagem inimiga. Em situações como esta, os Spillmanns entrevêem que a percepção do outro é determinada exclusivamente por predicados negativos. É uma predicação eminentemente subjetiva e “profundamente enraizada no não-racional". Sua lógica reduz-se ao "processamento de informações a serviço da sobrevivência".

Nos primórdios da hominização, a construção da imagem inimiga era garantia a sobrevivência evolutiva do indivíduo e da espécie. Hoje, sua utilização é anacrônica e sinaliza uma ancoragem em "mecanismos arcaicos de defesa". Mais que isso: deixa de lado complexos problemas éticos incorporados ao estoque de valores que são parte constitutiva de nosso desenvolvimento.
Colocada como problema a ser enfrentado, a síndrome da imagem inimiga obriga conhecer as implicações emocionais e cognitivas das estratégias eleitorais. Reconhecer que as lógicas adotadas implicam na infantilização de atores e processo. Elas abrigam uma regressão a padrões anacrônicos de comportamento emocional. Sugerem a dissolução de matrizes diferenciadas de percepção e comportamento.

Superar esse estágio signifique localizar as “convergências virtuosas” (a expressão é de L.C. Mendonça de Barros) existentes entre as duas agremiações. Dar visibilidade a elas em um debate que permitiria ao eleitor reconhecer propostas que, diferenciadas, teriam a história como ponto de apoio. Dar-se-ia ao cidadão, capacidade para reindividuar dois partidos que, no momento, se esforçam para aparecerem como farinha do mesmo saco.