Na quinta-feira, dia 03 de setembro, publicamos um artigo em A Folha
de São Paulo no qual discutimos, com muita perplexidade, a prioridade dada pela Secretaria de Segurança Pública a um Programa de Prevenção e Repressão aos Roubos a Condomínios. Nele, sugerimos de forma clara e inequívoca que a única explicação plausível para tal iniciativa, frente a tantas necessidades na área de segurança, foi o poder de pressão de uma elite de condôminos e empresas ligadas a esse tipo de empreendimento.
Na mesma quinta-feira, em b
elíssima palestra proferida na Câmara Municipal, o arquiteto Ciro Pirondi denunciou a existência de dois tipos de cânceres que acometem cidades médias do porte da nossa. Um deles, o condomínio fechado. Destrói a cidade, disse ele. Mais: chamou atenção para o que talvez possa ser lembrada como a primeira realidade de qualquer projeto que venha a ser aprovado para a orla ferroviária: a fronteira com os muros de um condomínio construído na região da Vila Xavier. Na ordem (natural?) das coisas, não poderia ser pensado senão depois que a comunidade definisse o que quer para a orla.
É inevitável reconhecer que à esteira da ineficácia do estado pa
ra dar conta do problema da segurança de todo cidadão, as iniciativas de soluções de cunho privado se proliferaram de forma intensiva e extensiva, desde a metade dos anos noventa, mas, principalmente, durante esta década. E isso é compreensível. Só em Araraquara, no correr de um ano (conforme cálculo já feito pelo jornalista Cláudio Dias), é possível registrar pelo menos uma ocorrência por dia de furto ou roubo a residências.
Em termos relativos, talvez pudesse ser dito que os números não são trágicos. Afinal, são piores em outros lugares. Não é esse, no entanto, o tipo de cálculo com q
ue as pessoas trabalham. Os sentimentos de medo e insegurança alimentam expectativas que se aliam, nesses casos, a um imaginário produto de uma estratégia de marketing. Os espaços que garantiriam plenamente qualidade de vida seriam, hoje, por mais contestável que isso possa ser, os condomínios fechados. Além da segurança, nessa mensagem, o condomínio oferece também aquilo que os bairros deixaram de oferecer: espaços de lazer seguro e limpo.
É óbvio que não se pode negar às pessoas o direito à segurança. Tampouco se po
de negar a qualquer pessoa o direito de optarem por viver em locais por elas escolhidos. O que nos importa é saber como enfrentar as questões públicas aí envolvidas. A segurança, certamente, é uma delas. O tipo de paisagem que queremos para a cidade é outra. Observemos o que sobra ao público e veremos calçadas invadidas por muros, ruas que se tornaram corredores cercados, abandono de vias públicas em contraponto aos tijolos. As fotos de Tatiana Machado Silva falam mais que palavras. Na linguagem de Ciro Pirondi: uma Araraquara constituída de cidadelas muradas, deixando para os cartões postais e para a sociabilidade pública muros, é essa a utopia que desejamos integrada à realidade? Curiosamente, uma reflexão expressa na casa em que as leis são elaboradas e as ações governamentais fiscalizadas.
Publicado originalmente em a Tribuna Impressa, 12/09/2009, 1º Caderno, p. 4
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Na mesma quinta-feira, em b
É inevitável reconhecer que à esteira da ineficácia do estado pa
Em termos relativos, talvez pudesse ser dito que os números não são trágicos. Afinal, são piores em outros lugares. Não é esse, no entanto, o tipo de cálculo com q
É óbvio que não se pode negar às pessoas o direito à segurança. Tampouco se po
Publicado originalmente em a Tribuna Impressa, 12/09/2009, 1º Caderno, p. 4
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