domingo, 8 de março de 2009

Um ponto fixo de verdade, um ponto fixo de aniquilação do outro

Quando a Folha de São Paulo veiculou, em editorial de 17 de fevereiro passado, a expressão “ditabranda” para caracterizar o “caso do Brasil entre 1964 e 1985”, ainda que rasteira na análise, não protagonizava senão um erro crasso de avaliação. E foi dessa forma que as primeiras cartas de leitores começaram a surgir. De fato, ao adjetivar uma forma de regime através de qualitativos, a Folha insinuava implicitamente a possibilidade de referências modelares que reivindicam um patamar a partir do qual – relativamente, cada um dos regimes pode ser julgado. Assim é que “do ponto de vista histórico”, afirma o diretor de redação da Folha, Otavio Frias Filho, “é um fato que a ditadura militar brasileira, com toda a sua truculência, foi menos repressiva que as congêneres argentina, uruguaia e chilena - ou que a ditadura cubana, de esquerda.”[1]

Ora, a persistirmos com esse critério, Argentina, Uruguai, Chile e Cuba, os países escolhidos pelo jornalista, poderiam ter seus períodos ditatoriais considerados brandos frente a um modelo como o do nazismo. E o que isso acrescenta à nossa compreensão geral sobre cada um desses fenômenos históricos? Ouso dizer que nada. Curiosamente, esse não é, no entanto, no meu entender, o maior problema no episódio. O que mais me preocupa no episódio é a permanência de um traço extremamente autoritário que radicaliza o entendimento que possuímos do patrulhamento ideológico.

Erros de análise, de informação, de gramática, o leitor chato é capaz de encontrar todos os dias na Folha. É compreensível em uma mídia que precisa estar nas ruas a cada dia seguinte. Difícil aceitar, no entanto que adote como atitude, que possua como postura, o sectarismo, o patrulhamento ideológico primário e ofensivo. E esse foi o fio condutor que pautou a reação do periódico desde o início da polêmica até hoje, dia 8 de março, com a publicação da nota do diretor de redação. Vejamos através de que mecanismos isso ocorreu.

Em primeiro lugar, a Folha persistiu em não aceitar a possibilidade de que a análise que desenvolvera era, pelo menos, problemática. Acrescentou, no dia 19 de fevereiro, em resposta a leitores, que, “na comparação com outros regimes instalados na região no período, a ditadura brasileira apresentou níveis baixos de violência política e institucional”.

Ocorre que a polêmica persistiu e, no dia 20, além de outros leitores, entraram em cena Maria Vitória Benevides e Fábio Konder Comparato. A Folha adota, então, um mecanismo de defesa de seu editorial que se desdobra em três partes. Na primeira, silencia sobre o conteúdo da análise que realizou no dia 17. Não a corrige. Na segunda, condescendente, afirma respeitar “a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro” Na terceira, estabelece um tipo diferenciado de leitores: aqueles que, por serem “figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba,” não apenas não mereceriam respeito da redação, como, frente ao episódio, a “indignação” que estariam mostrando seria “obviamente cínica e mentirosa”.

Não se trata, aqui, apenas, como quis o ombudsman da folha no dia 22 de fevereiro, de uma fuga “do padrão de cordialidade”... “essencial” que o jornal deve “manter com seus leitores”. Convenhamos, trata-se de um movimento argumentativo cujo efeito é o da produção da aniquilação do argumento e do ser do outro. Procede-se à desqualificação de um e outro através da criação de um ponto fixo de verdade que não é outro senão aquele escolhido pelo autor da nota. O jornal não respeita (não ouve, pelo menos em assuntos como esses) senão aquele que, como ele (supostamente), critica ditaduras de direita e esquerda. No rigor, não há critica legítima e de respeito senão aquela que preenche os quesitos reivindicados pela Folha.

Longe de ser uma linha de conduta adotada por um redator perdido em uma das salas da Folha, trata-se de um comportamento advogado na já mencionada nota de Otávio Frias Filho.[2] O texto minimiza, em um primeiro momento, a resposta da Folha ao incidente em que Maria Vitória Benevides e Fábio Konder Comparato foram chamados de “cínicos” e “mentirosos”. Aquilo que seria visto corretamente como calúnia e difamação, o diretor de redação reduz a uma reação “ríspida”. Ela teria sido uma resposta “a uma imprecação ríspida" proferida por Maria Vitória e Fábio Konder): que os responsáveis pelo editorial fossem forçados, "de joelhos", a uma autocrítica em praça pública”.

Por mais que a imagem utilizada possa ser considerada como inadequada ao debate, quem quer que se aventure no jogo de interpretações do sentido da frase de Comparato só chegará à idéia de que a análise do Editorial da Folha foi tão grave que obrigava a uma releitura drástica. Difícil ver no texto de Fábio Konder algo como uma tutoria “do comportamento democrático alheio”. É fácil desvelar, porém, na linguagem utilizada por Frias contra Benevides e Comparato – “democratas de fachada” – uma atitude que, a partir de uma base de poder significativa – o próprio meio, não se dispõe senão a estabelecer as regras de um jogo que o outro só pode jogar caso desista de ser outro. Para tanto é quesito de obediência o “repúdio” aos “métodos das ditaduras de esquerda”. Ou seja, é condição de possibilidade para o respeito a ser recebido pela Folha que o outro não seja senão aquilo que a Folha diz que ele deve ser.

[1] Em Nota da Redação a Folha já havia dito, no dia 18 de fevereiro, que “na comparação com outros regimes instalados na região no período, a ditadura brasileira apresentou níveis baixos de violência política e institucional”.

[2] Uma nota na qual o diretor de redação da Folha reconhece que o “uso da expressão "ditabranda" em editorial de 17 de fevereiro passado foi um erro”.

Nenhum comentário: