domingo, 8 de março de 2009

Mulher e Política: um olhar sobre um aspecto do processo civilizatório

Assim como no resto do país, uma análise do processo de envolvimento da mulher na arena política de Araraquara obriga considerar o problema na perspectiva de um processo. Um processo que ocorre em um contexto que determina em muito sua lógica.
Ninguém mais levanta dúvidas quanto ao fato de as atividades das mulheres ainda sofrerem bloqueios impostos por uma ideologia e uma prática marcadas por preconceitos e discriminação. Ninguém de bom senso duvida também que esses bloqueios se estendem à vida política. Por muito tempo, a política foi coisa de homens. Entre nós, é só a partir de 1934 – ou seja, há 75 anos, que a Constituição brasileira passa a admitir o voto feminino a partir dos 18 anos.
Não é por acaso que até a década de sessenta uma única mulher – Olinda Montanari, tenha chegado à Câmara Municipal. Tampouco é por acaso que só no século XXI a presidência dessa Câmara tenha sido ocupada por uma mulher. E que, em 2008, a vereadora Edna Martins tenha estabelecido a marca de primeira candidata do sexo feminino ao cargo máximo do executivo municipal. Em resumo, em um país fortemente marcado por pensamentos e práticas sexistas, a entrada e a permanência das mulheres na vida política obrigam um algo mais que não é inevitável para os homens. Mas sim para mulheres.
Ainda assim, há elementos muito novos na situação atual. Cada um deles vem acompanhado de tensões que, naturais ao processo, precisam ser enfrentadas Em primeiro lugar, nos últimos anos, o eleitorado tornou-se majoritariamente feminino. Observados os dados, no entanto, é relevante mencionar que o voto facultativo do adolescente ainda é, por pequena margem, masculino. É verdade que é um universo pequeno. São cerca de 1000 eleitores. Mas deve significar algo sobre a posição inercial da mulher na política.
Em segundo lugar, quem leu as pesquisas de opinião referentes às últimas eleições ficou sabendo que a totalidade do eleitorado já aceita a possibilidade de uma mulher no cargo de prefeita. Nas urnas, quase 30% dos eleitores provaram isso. No entanto, olhada mais de perto a campanha da única mulher envolvida na disputa, talvez fique evidente o peso da intervenção masculina. Conforme mostraram algumas pesquisas, a imagem de autonomia da mulher-candidata pode ter ficado comprometida com a presença substantiva do ex-prefeito em sua luta pelo executivo municipal. Não enfrentou, portanto, apenas, a excelente campanha realizada por Marcelo Barbieri. Aliás, a julgar por artigo de importância histórica que escreveu para esta Tribuna Impressa na conjuntura pós-eleitoral, a própria candidata parece ter consciência disso.
Em terceiro lugar, é importante chamar atenção para a presença feminina na Câmara Municipal. Da última legislatura para a atual, permanecem sendo duas as vereadoras. O contraponto foi a perda no percentual dos votos válidos que elas representam. Veja: de uma eleição para outra, elas continuam a representar 18% do total de vereadores (já foram quase 25% entre 2001 e 2004), mas foram escolhidas por 8% dos eleitores de 2000, 5,32% em 2004 e, agora por 4,29% da quantidade total de votos válidos. É evidente que esses números remetem a figuras muito carismáticas. E, nesse aspecto, Deodata do Amaral permanece imbatível com seus 4,29% de votos válidos conseguidos em 2000. Há, entretanto, outro aspecto a ser enfrentado.
A representatividade do conjunto de vereadores em relação ao número total de votos válidos do município nunca passou de 27%. Foi esse o número para as eleições de 2000, com vinte e uma vagas; baixou para 24% em 2004 e veio para 26% em 2008. Nessa linha de desenvolvimento, os vereadores do sexo masculino representavam, respectivamente, 19%, 18% e expressam, agora, 21%. Participavam com 60% do total em 2000, subiram a 70% em 2004 e estão, na passagem para a segunda década do século, no patamar de 80%. Em outras palavras, se permaneceram com a quantidade anterior de vagas na Câmara, a posição relativa das mulheres no que diz respeito à expressão dos votos válidos apresenta tendência de queda.
Como vimos, tanto no que diz respeito ao avanço no terreno de sua aceitação como atoras no espaço político como em termos de presença efetiva – não podemos esquecer que Márcia Lia é (re) novação no cenário da representação política, há motivos para comemoração. Afinal, considerada apenas a Câmara Municipal, desde sua fundação até 1963, ou seja, em cento e trinta anos, houve um vazio na participação feminina. Nos últimos quarenta e cinco anos, entretanto, chegamos a oito mulheres eleitas. Como o tempo, na história, é um tempo muito particular, trata-se de um avanço significativo. E pode ser condensado de forma importante s se algumas medidas forem levadas a sério.
O movimento feminista local precisa voltar às fronteiras da sociedade civil. Algumas de suas bandeiras mais importantes foram caladas em nome das conquistas realizadas no terreno das políticas públicas voltadas para a assistência à mulher. Mas também em nome de um silêncio cúmplice decorrente de uma hegemonia político-partidária e sua relação com o governo. Por outro lado, os partidos políticos precisam dar um basta na negligência com que enfrentam a questão das cotas. Olhemos os cinqüenta primeiros lugares nas eleições municipais e comparemos com os nomes presentes nos cinquenta últimos e veremos em que parte está concentrada parte importante das mulheres candidatas. Em conjunto, independente dos empenhos e combatividades individuais, as candidatas do PSDB não chegaram a amealhar 1% dos votos válidos de Araraquara. A pergunta é: o que tem sido feito em nome da promoção das mulheres na vida político-partidária e no município, de forma específica?
Finalmente, para que não nos alonguemos, voltemos ao eleitorado adolescente feminino. Façam as contas e elas foram 497 em 2008. Ou 0,034% do eleitorado total. Ou próximo de 4% da população entre 16 e 17 anos. Em outras palavras, é insignificante o envolvimento desse segmento nas eleições municipais. E, provavelmente, deve ser pequena também sua participação no cotidiano das preocupações com a cidade. Que podemos fazer, nós, os pais, os professores, os profissionais de todas as áreas, os parlamentares e o próprio governo para motivar e tornar atrativo o campo da política para essas jovens? Que papel poderiam jogar, aqui, os partidos políticos?
A historiadora Michelle Perrot já disse em algum lugar que o religioso, o militar e o político são três campos que persistem em funcionar bloqueando a entrada das mulheres em seu interior. Construíram, cada um a seu modo, uma cultura em que os valores predominantes afastam a presença feminina. Persistiram, por séculos, reafirmando, por motivos quaisquer, as “impossibilidades” da mulher. Á medida em que ultrapassavam obstáculos, as diferenças entre homens e mulheres vieram à tona, mas com sinais diferentes daqueles pressupostos pelo discurso masculino. Assim é que o movimento feminista tem apresentado algumas diferenças fundamentais no envolvimento diferenciado entre o homem e a mulher.
Em primeiro lugar, é um mundo em que as regras não apenas foram feitas pelos homens, mas não formaram conteúdo dos processos em que as mulheres foram socializadas. Em seguida, as sensibilidades e as formas como aspectos da realidade são julgados sofrem diferenças caso experimentadas por homens ou por mulheres. Finalmente, a importância da vida privada para a mulher é uma, para o homem é outra. E, aqui, a questão da família recebe atenção diferenciada, conforme o sexo. O movimento feminista salienta, e nós assistimos a isso, que o aprendizado da mulher e, sem embargo das dificuldades, rápido.
Além de algumas iniciativas já mencionadas, os estímulos para uma participação efetiva das mulheres na política devem começar desde a infância, ao diminuirmos as defasagens entre o mundo dos meninos e o mundo das meninas. Da mesma forma, à medida que aprendemos a escutar o que essas crianças dizem, dando valor às suas participações e provocando participações nas decisões familiares, certos hábitos e formas de ser monopolizados pelos homens começam a ser transpostos. Da mesma forma, se nas escolas compreendermos a diferença entre indisciplina e desejo de participação no destino da comunidade, estaremos sedimentando valores e promovendo rupturas que poderão ser permanentes. Mais ainda: ainda que produtivas, as formas de participação nas decisões sobre a vida da cidade não deve permanecer dentro de parâmetros de gueto. Abrir para a adolescente a possibilidade de participar das associações de bairros, dos conselhos em geral. Enfatizar a idéia segundo a qual a vida política pode ser uma alternativa saudável.

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