segunda-feira, 16 de março de 2009

Imprensa e Controle Social

Há algumas semanas o jornal A Folha de São Paulo envolveu-se em uma polêmica em torno de termo utilizado em editorial. Reconheceu o uso indevido da expressão ditabranda para caracterizar o regime militar brasileiro, mas atacou de forma pouco adequada a intervenção de dois reconhecidos intelectuais paulistas (Ver Um ponto fixo de verdade, um ponto fixo de aniquilação do outro).

O leitor interessado em maior precisão sobre o rigor com que a idéia de transparência é veiculada e aplicada em situações como essas, talvez devesse começar por saber que, no início do primeiro semestre do ano de 1994, o jornal A Folha de São Paulo reagiu negativa e veementemente à idéia de algumas instituições não governamentais no sentido de formar um organismo de controle das atividades da imprensa. Ainda que tal idéia não estivesse devidamente delineada em seus propósitos e alcance, aquele matutino já deixava claro, em editorial, sua oposição a tal iniciativa. Desde o ponto de vista do leitor, certa suspeita não podia deixar de surgir justo na medida em que se trata de um jornal que alardeia como sua a tarefa de fiscalizar o comportamento das instituições em geral.

Já não são poucos os trabalhos que, através de sérias pesquisas, estão desvelando não só o papel da imprensa no país, como a dinâmica imposta por sua própria organização e prática. A revista Perspectiva publicou, há alguns anos, dois artigos sobre aquela mesma Folha. Em um deles, Antonio Teixeira de Barros dá conta do significado da adoção da democracia como valor, como opção, no quadro de uma estratégia de conquista de mercado. Em outro, trabalhando com a análise da linguagem utilizada em editoriais, a professora Sonia Irene identifica o sentido de "interesse popular". Em ambos, o que nos é sugerido é que o mote "de rabo preso com o leitor" oculta mais que revela. De fato, os mecanismos que mediam poder, mercado e mídia são mais complexos e, por vezes, menos evidentes que se imagina à primeira vista. E, se não fosse por qualquer outro aspecto, guardadas todas as diferenças, a investigação realizada por Morais já se justificaria por mostrar detalhadamente, para o caso dos Associados, exemplos de funcionamento daqueles mecanismos.

Não estamos lidando com uma pesquisa inscrita no terreno das Ciências Sociais. Trata-se de uma biografia. Trata-se da "história da vida vertiginosa de um dos brasileiros mais poderosos e controvertidos deste século", como diz a "orelha" produzida pela editora. Trata-se de um livro cujo personagem central foi protagonista ou coadjuvante, mas sempre em cena, dos anos 20 aos anos 60, dos principais acontecimentos da vida política nacional.

É certo que o livro pode ser lido pelo que ele é. Assim, podemos lê-lo permitindo a construção de um sentimento de simpatia ou antipatia por essa figura que foi Assis Chateaubriand. E terminar a leitura considerando-o como um livro sobre um empreendedor, um pioneiro, um visionário, um gênio ou um mecenas. Admirá-lo, inclusive, quem sabe, por construir a imagem de um homem que prezava sua coragem. Ou, ao contrário, julgá-lo como uma publicação que retrata um chantagista, um crápula, um escroque, um patife, um ladrão, um tarado ou um sonegador. Lembremos que uma ou outra porta de entrada, na maior parte das vezes, será trafegada de forma muito prazerosa, tal a capacidade de sedução que o biógrafo realiza durante o ato de escrever. O que queremos sugerir, no entanto, é que o livro pode - e talvez deva - ser fonte de informações para o cientista social. E, caso isso seja considerado, novas portas de entrada tornam-se factíveis.

Ao historiador da imprensa brasileira a obra oferece dados sobre a introdução de tecnologia de ponta - às vezes nem tão de ponta assim -, no parque gráfico. A absorção de novas técnicas de comunicação jornalística é ocasionalmente mencionada. Da mesma forma, as dificuldades e soluções para o problema da presença de um órgão jornalístico nos diferentes pontos em que seu mercado pode se constituir. Mas também, os primeiros passos e a consolidação da propaganda na mídia escrita. Ali encontraremos também o surgimento e a projeção de uma elite intelectual cuja infância, adolescência e amadurecimento se dão no interior de processos de abertura e disputa de mercados editoriais. E o que é mais interessante, veremos cada um desses tópicos articulados em um discurso onde, entre outros fragmentos, encontramos aqueles que remetem a um projeto de "unidade nacional".

É certo, ademais, que as informações entregues ao leitor possibilitam a montagem de um quadro - não de todo completo, reconheçamos desde logo - da história política do país. Muito poucos homens, provavelmente, estiveram envolvidos com tantos episódios tão decisivos da vida brasileira. Sem preocupação de esgotá-los: Aliança Liberal, eleição de Getúlio, queda de Getúlio, Coluna Prestes, Aliança Nacional Libertadora, golpe de estado de 1964, campanha "Dê ouro para o Brasil", criação da Força Expedicionária Brasileira, fundação do Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais, movimento contra Washington Luís, revolução paulista, etc. Sua influência foi determinante também em iniciativas de grande efeito cultural tais como a organização do Museu de Arte Moderna de São Paulo, da Escola Superior de Propaganda e Marketing, bem como da Escola de Sociologia e Política do Estado de São Paulo.

O sociólogo político encontrará, por sua vez, motivos suficientemente fortes para consultar este livro. As relações entre poder, forças econômicas e mídia tornam-se tão transparentes em vários dos episódios em que se envolveu Chateaubriand, que é difícil deixar escapar a necessidade de analisar as mediações ali presentes. O atendimento de tal necessidade deve deixar de lado a pressa em definir muitas das situações ali descritas exclusiva e principalmente como atos de pura pilhagem por parte de Assis Chateaubriand. Atos que, aliás, seriam compreendidos como chantagem. Tentemos nos explicar.
O emprego de expressões como "pilhagem" e "chantagem" aproxima bem a caracterização de parte considerável das atitudes do dono dos "Associados". Mas é uma aproximação ineficaz se a preocupação é desvelar o significado mais profundo das ações de Chateaubriand. Apesar dos motivos imediatos - certamente mesquinhos - que motivam aquelas atitudes, muito pouco provavelmente elas poderão ser dissociadas da intenção de seu autor de, ao edificar um império jornalístico com tentáculos em todos os cantos do país, construir uma "unidade nacional". A imagem que Chateaubriand constrói de si mesmo é a de um civilizador. É óbvio que na integração pretendida estão projetados seus valores, suas percepções do que seja cultura, os princípios que considera fundamentais. A pergunta que parece dever ser feita é: em que medida as necessidades das forças econômicas nascentes e/ou em fase de consolidação tangenciam ou mesmo coincidem com tal projeto ou facetas dele? Da mesma forma, em que medida convém ou não convém a um Estado ainda marcadamente dependente da construção de uma hegemonia, pactuar com aspectos ou com a totalidade de um projeto que pode incidir na coesão ou mesmo na formação de uma opinião pública?

Tomemos um episódio e vejamos as perguntas que podem suscitar. Em 1932, depois de tentado, sem sucesso, o embarque de Chateaubriand como deportado para o Japão, uma facção dos serviços de repressão do governo Vargas, liderada por João Alberto, conclui que "a única maneira de silenciar Chateaubriand é privá-lo de redações, linotipos, rotativas". Elabora, então, um plano cujo objetivo era tomar os jornais de Assis Chateaubriand "sob uma aparência legal e jurídica, tudo dentro das leis". Assim, "conhecendo a notória fama de mau pagador de Chateaubriand, o chefe de polícia começou a fazer contatos ou enviar emissários para procurar os principais banqueiros do Rio, de São Paulo, de Minas e do Rio Grande do Sul. A oferta que o governo fazia era tentadora: comprava as dívidas vencidas do jornalista por duas, três e, dependendo do caso, até quatro vezes seu valor real".

O plano não deu certo. Nada aconteceu porque os banqueiros, apesar das tentadoras ofertas, recusaram-se a cooperar. "Dívidas de Chateaubriand? Não, nosso banco não tem negócios com Chateaubriand". Esse é o fato, tal como é narrado pelo biógrafo. O que incomoda, no entanto, é sua explicação. Segundo Morais, "João Alberto só não contava com um obstáculo quase intransponível: se o governo tinha medo das "flechas envenenadas" de Chateaubriand, os banqueiros tinham muito mais. Temendo as retaliações que inevitavelmente viriam quando o jornalista voltasse a emergir (e isso acabaria acontecendo mais dia, menos dia), os banqueiros se fingiram de mortos".

Intriga, na explicação, a suposição de "inevitabilidade" da volta. De fato, Chateaubriand não possuiria sequer uma máquina de escrever em uma redação não fossem as ajudas que recebera. Em 1932, caso o governo Vargas lograsse seus objetivos, o reergui mento de Chateaubriand não parece algo que pudesse ser dado como garantido. Na verdade, não é tão arriscada a hipótese de que, fosse esse o interesse dos banqueiros, eles teriam colaborado com a ruína do jornalista. É provável que o cálculo tenha sido de outra natureza. Qualquer que tenha sido ele, ainda cabe aos historiadores ou confirmar a hipótese de Moraes ou substituí-la por outra. De qualquer forma, o mito de uma imprensa de “rabo preso com o leitor” permanece distante, considerada a rede de interesses e as próprias individualidades em jogo.

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