Em um momento em que as notícias estimulam os debates em torno de medidas necessárias à erradicação das situações de violência no país, a Folha de São Paulo traz, em uma de suas edições de domingo, no caderno Mais!, uma amostra gritante da fragilidade em que o tema se encontra quando lidamos com aproximações a suas causas. Por uma parte, o escritor Michel Houellebecq sugere a existência de um “desejo da violência no homem”. Em particular, um “desejo de violência coletiva” que atenderia a “seu lado animal de rebanho”. Por outra, a hipótese do neurofisiologista John Stein, para quem a perda da atenção e da capacidade de autocontrole é resultado de uma disfunção cerebral cuja origem está na carência de certos nutrientes. Finalmente, os resultados de pesquisas realizadas pelo psicanalista Jurandir Freire Costa apontariam para um quadro situado na natureza da relação entre o bebê e a mãe.
Cada uma dessas possibilidades explicativas inscreve-se em linhas de reflexão que remontam ao século XIX e têm como matrizes Darwin e Freud. Chegam aos nossos dias através de mediações firmadas no século passado. Konrad Lorenz, em seus estudos sobre a agressão, indaga o porquê de um ser dotado de razão possuir comportamento tão irracional. Responde sinalizando uma parecença entre o comportamento social dos homens e o dos ratos. Steven Piker, através de uma psicologia evolucionista calcada nas descobertas sobre o funcionamento cerebral, conclui que a maldade é resultante de uma programação. A agressão é, nesse contexto, um dificílimo problema de engenharia a cargo da mente. Em Winnicott, os atos anti-sociais denotariam uma falha ambiental precoce. Um problema relacionado à função materna. Um ato anti-social manifestaria uma esperança em recuperar o que foi perdido na relação mãe-bebê e, uma vez vivenciada a perda, o processo de maturação pode ser retomado.
Como vemos, as matrizes de nossa reflexão atual sobre a violência podem ser datadas e remontam a mais de cem anos. Mais a mais, são matrizes que se tornaram objeto de reflexões inovadoras que não as repetem, simplesmente. Avançam. De qualquer forma, não garantiram hegemonias explicativas. Sequer se apossaram de um consenso duradouro. Curiosamente, no entanto, cada uma delas deixou um recado muito claro: a cultura e os processos de sua socialização podem atuar positivamente na contramão das tendências agressivas. Ou seja, podemos não ter muita certeza sobre as fontes da violência, mas há pistas contundentes sobre as possibilidades de seu enfrentamento.
Houellebecq aceita que o esporte, com ênfase substantiva no futebol, trabalharia no sentido de reverter tendências agressivas da natureza humana. Lorenz, indica que a responsabilidade racional é antídoto para a atuação dos instintos. Stein vê na nutrição a possibilidade de dotar as redes neuroniais de nova flexibilidade, afetando, assim, os comportamentos. Pinker argumenta em favor de uma engenharia reversa da psique que invista em uma programação da mente que neutralize condutas agressivas. Costa reencontra a importância dos valores de tolerância multicultural e do respeito à alteridade. Winnicott reivindica a necessidade da defesa das exigências éticas.
Enfim, cada um e todos eles, vão à contramão de uma aceitação mecânica da violência como questão inevitável. E, se isso é verdade, a vida em sociedade precisa ser colocada também em termos de sua capacidade em trazer para os mecanismos de socialização e de ressocialização os valores culturais que a caracterizam como viver em estado de paz social. Não por acaso a erradicação da violência é, antes de tudo, uma questão política.
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