A visita do presid
ente Lula ao município de Araraquara foi, oficialmente, momento de lançamento das obras do novo contorno ferroviário. Na mesma oportunidade, inaugurou uma escola que, nas palavras do prefeito, “é a mais moderna da cidade”. No paralelo, a passagem serviu para que manifestações político-ideológicas brotassem em abundância. A ponto de permitir que nos perguntemos se a euforia provinciana ocasionada pelo ver e tocar a figura tornada mítica do herói metalúrgico não rompeu as fronteiras de censura a que se auto-impõem os operadores do PT no cotidiano.
É provável que o exemplo mais exorbitante de surto de subjetividade tenha sido dada pelo presidente do PT local. De forma retumbante, ele declarou ao jornal Tribuna Impressa que a quarta vinda do presidente a Araraquara seria “uma mudança de paradigma, provando que o governo petista colocou a cidade em outro patamar, numa rota de modernidade que não tem mais volta”.
Como entender, aqui, modernidade? Certamente o autor da frase não se referia ao fato de o avião presidencial ter tido condições de pousar no aeroporto local. Tampouco acredito que tenha se valido da expressão para designar a facilidade com que a segurança do presidente se articulou com as forças policiais locais. Muito mais provável é imaginar que, no contexto, ele tenha sugerido que a retirada dos trilhos da região central seja uma via de modernidade.
Para muitos, corretamente, as obras darão novas facilidades de comunicação entre duas regiões da cidade que se encontram unidas, atualmente, através de pontes. Mas
isso, em si, é sinal de modernidade? Aparentemente, não! Basta ver que, em muitas outras partes, em São Paulo, no Brasil e no resto do mundo, um traçado ferroviário jamais foi obstáculo para o desenvolvimento, seja ele urbano, social ou, mesmo, econômico. Mais a mais, há a questão das prioridades. Para não poucos, um passo a mais no caminho da modernidade seria ajudar a tirar da situação de pobreza milhares de famílias que sobrevivem nos grotões de Araraquara. Para que se tenha uma idéia: com os 100 milhões previstos para a obra, poderiam ser construídas 50 escolas como a que será inaugurada pelo presidente. Ou, em outra faixa de cálculo: a retirada dos trilhos custará o equivalente a 200 mil salários mínimos. Para uma cidade que ainda conta com um número significativo de sem empregos, isso deve dizer alguma coisa.
Não por acaso, a “rota da modernidade” evita fronteiras com as mazelas da cidade. Na mesma semana em
que o presidente visitou a cidade, as notícias davam conta de que a dengue já tomou proporções pré-epidêmicas nas fronteiras do município. Conforme as páginas da Tribuna Impressa, “depois da Zona Leste, a região central tornou-se a nova zona de transmissão de dengue em Araraquara. A área, segundo dados computados pela Vigilância Epidemiológica, é responsável pela metade das últimas 63 confirmações da doença”. No dia 12, ou seja, um dia antes da passagem do aerolula pelo espaço aéreo municipal, o mesmo jornal afirmava que teria subido para 232 o número de doentes por dengue. Desta forma, diz o diário, “a cidade já se encontraria em estado de pré-epidemia.”
Ainda estava fresco na memória da cidade que, dias antes da chegada de Lula, pesquisa DataPress encomendada pelo mesmo jornal mostrava que ruas com excesso de buracos e falta de recapeamento, terrenos baldios e limpeza pública deficiente foram os maiores problemas apontados por 501 moradores de 21 regiões de Araraquara. Das 18 preocupações levantadas pelos moradores ouvidos pelo estudo, mostrou o jornal, nove estão relacionadas a problemas com asfalto, terrenos baldios, poda de árvores, animais peçonhentos e trânsito confuso.
Se a prefeitura conseguiu, em alguns pontos, preparar a rota de passagem do
presidente, em outras partes da cidade o caos estava à vista. Tanto assim que outra reportagem, veiculada no mesmo dia da visita, deixou claro que as chuvas que atingem a cidade desde o início da semana tornaram intransitáveis os bairros que não possuem pavimentação, dentre eles parte do Jardim Adalberto Roxo e do Distrito Industrial 5. No primeiro, além do barro, as chuvas provocaram o entupimento na rede e fez com que os esgotos invadissem duas residências. No DI, um caminhão ficou atolado. Algo, aliás, que pode tornar-se rotina. Na mesma semana um outro caminhão, desta vez, de lixo, afundou em um buraco. Desta vez, na região do Jardim Imperador.
Provavelmente, no e
ntanto, o sinal mais claro de colisão da realidade com as figuras de retóricas criadas pelo presidente do PT local esteja mesmo no terreno da compreensão do significado da ação presidencial no caso dos investimentos federais a serem feitos em Araraquara. Para os quadros petistas, trata-se de favor, uma deferência a ser respondida com um “muito obrigado, Senhor Presidente”! É o que ficou registrado nos outdoors espalhados pela cidade. Sob responsabilidade do partido, com sua assinatura, eles estão lá, reproduzindo a lógica patrimonialista. É uma lógica que oculta o fato de que nossos impostos pagarão a obra. Um procedimento de ocultamento de um dado lapidar: de que o que nos foi descontado de salários, de rendas, está de volta na forma de obrigação do Estado. Não se agradece pelo cumprimento de um dever. Não se diz obrigado pelo reconhecimento de um direito. Mas o PT, que já teve, um dia, clareza sobre isso, está de volta aos primórdios de uma tradição que a Constituição de 88 pretendia erradicar através de uma perspectiva civilizatória. Tarefa difícil e, como vemos, abandonada. Tão abandonada quanto foram banidas as mazelas do município na imagem de uma “rota de modernidade” trazida a bordo do aerolula.
ente Lula ao município de Araraquara foi, oficialmente, momento de lançamento das obras do novo contorno ferroviário. Na mesma oportunidade, inaugurou uma escola que, nas palavras do prefeito, “é a mais moderna da cidade”. No paralelo, a passagem serviu para que manifestações político-ideológicas brotassem em abundância. A ponto de permitir que nos perguntemos se a euforia provinciana ocasionada pelo ver e tocar a figura tornada mítica do herói metalúrgico não rompeu as fronteiras de censura a que se auto-impõem os operadores do PT no cotidiano.É provável que o exemplo mais exorbitante de surto de subjetividade tenha sido dada pelo presidente do PT local. De forma retumbante, ele declarou ao jornal Tribuna Impressa que a quarta vinda do presidente a Araraquara seria “uma mudança de paradigma, provando que o governo petista colocou a cidade em outro patamar, numa rota de modernidade que não tem mais volta”.
Como entender, aqui, modernidade? Certamente o autor da frase não se referia ao fato de o avião presidencial ter tido condições de pousar no aeroporto local. Tampouco acredito que tenha se valido da expressão para designar a facilidade com que a segurança do presidente se articulou com as forças policiais locais. Muito mais provável é imaginar que, no contexto, ele tenha sugerido que a retirada dos trilhos da região central seja uma via de modernidade.
Para muitos, corretamente, as obras darão novas facilidades de comunicação entre duas regiões da cidade que se encontram unidas, atualmente, através de pontes. Mas
isso, em si, é sinal de modernidade? Aparentemente, não! Basta ver que, em muitas outras partes, em São Paulo, no Brasil e no resto do mundo, um traçado ferroviário jamais foi obstáculo para o desenvolvimento, seja ele urbano, social ou, mesmo, econômico. Mais a mais, há a questão das prioridades. Para não poucos, um passo a mais no caminho da modernidade seria ajudar a tirar da situação de pobreza milhares de famílias que sobrevivem nos grotões de Araraquara. Para que se tenha uma idéia: com os 100 milhões previstos para a obra, poderiam ser construídas 50 escolas como a que será inaugurada pelo presidente. Ou, em outra faixa de cálculo: a retirada dos trilhos custará o equivalente a 200 mil salários mínimos. Para uma cidade que ainda conta com um número significativo de sem empregos, isso deve dizer alguma coisa.Não por acaso, a “rota da modernidade” evita fronteiras com as mazelas da cidade. Na mesma semana em
Ainda estava fresco na memória da cidade que, dias antes da chegada de Lula, pesquisa DataPress encomendada pelo mesmo jornal mostrava que ruas com excesso de buracos e falta de recapeamento, terrenos baldios e limpeza pública deficiente foram os maiores problemas apontados por 501 moradores de 21 regiões de Araraquara. Das 18 preocupações levantadas pelos moradores ouvidos pelo estudo, mostrou o jornal, nove estão relacionadas a problemas com asfalto, terrenos baldios, poda de árvores, animais peçonhentos e trânsito confuso.
Se a prefeitura conseguiu, em alguns pontos, preparar a rota de passagem do
Provavelmente, no e
ntanto, o sinal mais claro de colisão da realidade com as figuras de retóricas criadas pelo presidente do PT local esteja mesmo no terreno da compreensão do significado da ação presidencial no caso dos investimentos federais a serem feitos em Araraquara. Para os quadros petistas, trata-se de favor, uma deferência a ser respondida com um “muito obrigado, Senhor Presidente”! É o que ficou registrado nos outdoors espalhados pela cidade. Sob responsabilidade do partido, com sua assinatura, eles estão lá, reproduzindo a lógica patrimonialista. É uma lógica que oculta o fato de que nossos impostos pagarão a obra. Um procedimento de ocultamento de um dado lapidar: de que o que nos foi descontado de salários, de rendas, está de volta na forma de obrigação do Estado. Não se agradece pelo cumprimento de um dever. Não se diz obrigado pelo reconhecimento de um direito. Mas o PT, que já teve, um dia, clareza sobre isso, está de volta aos primórdios de uma tradição que a Constituição de 88 pretendia erradicar através de uma perspectiva civilizatória. Tarefa difícil e, como vemos, abandonada. Tão abandonada quanto foram banidas as mazelas do município na imagem de uma “rota de modernidade” trazida a bordo do aerolula.As fotos, são do Google Earth (as ferrovias de Chicago), da Tribuna Impressa (não é um ET, é um agente sanitário devidamente trajado para esparramar veneno na cidade; a outra, é de um caminhão de carga atolado no Distrito Industrial) e de Tatiana Machado Silva.