terça-feira, 19 de agosto de 2008

Asfalto e Ano Eleitoral


Considerada a pesquisa DataPress/Tribuna Impressa realizada nas últimas semanas de julho passado, os problemas urbanos permanecem exercendo pressões na identificação das principais questões que afligem a população nos bairros de Araraquara. Quase 60% das manifestações dos entrevistados giraram em torno dessa rubrica. E o grupo buracos/asfalto/recapeamento é responsável por quase 23% dessas denúncias. Nada desprezível, diga-se de passagem.

Ao que tudo indica, não por acaso, a Administração Municipal passou a dispensar, nesses últimos meses, atenção significativa a essa área de reclamações.Desde janeiro, conforme informações da Secretaria de Obras e Serviços divulgadas por esta Tribuna Impressa, a Prefeitura recuperou a pavimentação de 202 quarteirões. Mais: começou em junho deste ano um Programa Municipal de Recapeamento que “prevê a recuperação de 500 quarteirões em diferentes setores da cidade”. Ainda de acordo com a mesma fonte, “o investimento será de R$ 5 milhões, sendo R$ 1,4 milhão do Governo Federal e R$ 2 milhões do Governo do Estado”. O serviço seria feito por equipes do poder público e pela Leão Engenharia. Sinal da urgência e dos limites dos recursos disponibilizados, a parte dos convênios está sendo realizada com asfalto quente. É uma técnica que permite a liberação do tráfego de veículos em poucas horas. Por isso seu uso foi planejado para os principais corredores da cidade. O restante será executado com material frio, produzido pela usina municipal de asfalto.

Tudo isso ocorre paralelo ao asfaltamento de 37 bairros como o Jardim Pinheiros 2, Jardim Brasília, o Jardim Hortênsias e o Jardim Regina. São iniciativas anunciadas como parte de um pacote de obras de R$ 23 milhões.

O morador dos bairros e a população em geral proclamam um grande alívio. Frente aos efeitos da situação de precariedade urbana e de perda em qualidade de vida, não se importam sequer em responder à pergunta sobre a oportunidade “fim-de-mandato” desses investimentos. Mas desconfiam que essa coincidência é mais que simples acaso. Afinal, a visibilidade do tapar buracos/asfaltar/recapear transforma ações dessa natureza em investimento político perfeito.

Conforme divulgou a Folha de São Paulo no último dia 8, citando dados da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Asfalto – Abeda, “o consumo do asfalto cresce nos anos em que ocorrem pleitos, puxado por obras de pavimentação e recapeamento”. Tanto faz, prossegue a reportagem, se a votação é para escolher presidente e governadores ou prefeitos: as encomendas sempre aumentam em anos eleitorais e não importa a camiseta política do governante. Com os números da Abeda, citemos os anos recentes: em 2006, ano de eleições para presidente e governadores, houve uma alta forte de consumo de asfalto: 28,5%. Em 2007, período de total pobreza eleitoral, houve queda de 8,1%. Neste ano de 2008, ainda de acordo com os dados da Abeda, a demanda subiu 10% só no primeiro semestre.

Nas palavras de Eder Vianna, ainda nas páginas da Folha de São Paulo, presidente da Abeda, os anos eleitorais realmente aquecem as vendas de asfalto. “São prefeituras de todo o País, Estados e a União fazendo obras.” A procura de asfalto é tão grande, diz ele, que chega a faltar alguns tipos mais resistentes de asfalto, usados nas vias de maior movimento.

Se a coincidência, de acordo com os dados, é mais que uma coincidência; se o hábito transformou os governantes em asfaltadores em período eleitoral, que venha o abaixo-assinado: queremos eleições todos os anos.
(Publicado originalmente em Tribuna Impressa, 19 de agosto de 2008, 1º Caderno, p. 4)

2 comentários:

Francisco José Gonçalves disse...

Caro Professor Reis isso ai mesmo.
Aqui o link da Pan sobre as principais entrevistas em podcast, caso se interessa por ouvir link do site. Um abraço, Francisco.

http://jovempan.uol.com.br/jpamnew/noticias/podcast/entrevistas.php

Francisco Castro disse...

Olá, gostei muito do seu blog e de sua abrodagem.

Parabéns!

Um abraço